Prédio famoso do litoral do Paraná tem sacadas que parecem desalinhadas de propósito
Em meio à beleza do mar e de paisagens naturais, um prédio no litoral do Paraná chama a atenção por um detalhe incomum: sacadas que parecem desalinhadas.
O Edifício Torre Alta, em Caiobá, balneário de Matinhos, foi projetado pelo arquiteto Léo Grossman e pensado para ser "provocativo". O que ocorre na fachada, no entanto, não passa de uma ilusão de ótica.
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A construção, de 1982, tem um padrão com quatro tipos diferentes de sacadas, que se repetem ao longo dos 21 andares.
Todos os apartamentos têm a estrutura externa no cômodo da sala, mas nem todos contam com sacadas nos quartos, o que explica a impressão de "desalinhamento" na construção. Uma animação feita por Felipe Sanquetta, doutorando em Arquitetura pela Universidade de São Paulo (USP) que estuda as obras de Léo Grossman, comprova o alinhamento. Veja abaixo.
Padrões do Torre Alta
André Nacli/Casa da Arquitetura de Curitiba e Felipe Sanquetta
Quando inaugurado, o prédio era um dos poucos na praia, o que rendeu a ele o status de ícone na orla pela singularidade. À época, a aparência não chamou a atenção negativamente, mas conforme os anos passaram, o visual do edifício acabou virando alvo de críticas, principalmente em vídeos virais nas redes sociais.
Em algumas publicações, internautas avaliaram a obra como "medonha" e "aberração arquitetônica", referenciando o suposto desalinhamento. Mas além da animação de Sanquetta, o próprio projeto do Torre Alta também mostra que o edifício não tem nada de assimétrico.
Planta e maquete do Torre Alta
Cedida/Felipe Sanquetta
Relembre: Olivia Rodrigo publicou foto em frente ao Torre Alta
Estratégia comercial
Edifício Torre Alta, em Caiobá
Uanderson Ferreira
Embora muitas vezes não compreendida, a distribuição das sacadas "não é uma obra do acaso", segundo o doutorando. O projeto, ele explica, levou em conta estratégias comerciais para venda dos apartamentos, com variação de preços entre as unidades que têm sacadas nos quartos e as que não têm.
A impressão de desalinhamento também acontece pela distribuição de sombra. Dependendo da hora do dia, ela cobre diferentes partes do prédio, o que ajuda na ilusão. Conforme Sanquetta, a sombra também foi usada como elemento comercial.
“Vai ter situações em que você terá sol em cima do seu quarto; em outras, você terá sol na sua sacada (.) Então isso, mercadologicamente, cria possibilidades”, explica Sanquetta.
No contexto em que foi criado, o estilo das sacadas aparece em construções da arquitetura contemporânea, que conta com obras com poucos elementos, mas com características pensadas para gerar interesse visual, explica o pesquisador.
Mais de 40 anos depois do lançamento, um apartamento no Torre Alta é avaliado, em média, em R$ 1,7 milhão. Já uma diária no local pode custar mais de R$ 800, como conta Júlio Lopes, síndico do edifício e proprietário de uma unidade há mais de 10 anos.
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Edifício de praia com cara de edifício de praia
As sombras no Torre Alta
André Nacli/Casa da Arquitetura de Curitiba
O Torre Alta foi pensado para o público da classe média. À época, a arquitetura dele era única em Matinhos. Folhetos de venda mostram que o prédio podia estar nas "melhores praias do mundo", como Cabo Frio (RJ), Guarujá (SP), Nice e Cannes (França).
Ainda no lançamento, que nomeava a construção como "o apartamento de praia que só existe na sua imaginação", explicava-se o conceito do prédio: "Edifício de praia deve ter caráter de edifício de praia. Nada de reajustar soluções urbanas."
Como prova disso, a arquitetura do prédio não se limita apenas às famosas sacadas, ela também conta com dois elementos que demonstram a inovação do prédio em Caiobá: a piscina transparente, em que é possível ver os moradores dentro dela a partir da rua, e a garagem, que tem o formato do tronco de uma pirâmide.
Um dos encartes de lançamento do Torre Alta
Cedida/Felipe Sanquetta
Embora tenha sido lançado sob o slogan "o grande sonho de viver", o Torre Alta é um prédio que "só tem vida no verão", como explica o síndico. Conforme Júlio, é baixo o número de pessoas que frequentam o residencial fora de temporada.
“Das 79 unidades, apenas 5% são moradores fixos. O restante são veranistas. Muita gente vai nos finais de semanas, ficam sexta a domingo. Mas, mesmo assim, são poucas unidades que estão disponíveis para locação”, relata Júlio.
Quando o prédio foi lançado, o perfil de proprietários dos apartamentos variava entre presidentes de cooperativas do Paraná e até jogadores de futebol. Conforme Júlio, destes moradores iniciais, foram poucos os que permaneceram no residencial.
“Muitas pessoas não gostam da distribuição das sacadas, e eu acho um diferencial. Acredito que trouxe algo diferente, não é a mesmice de sempre, né? O Léo Grossman inovou na época”.
Para Júlio, por estar na ponta da Praia Mansa, o diferencial do prédio é a vista para o litoral. A depender do andar, é possível ver a dimensão da recém-inaugurada Ponte de Guaratuba, que fica a mais de cinco quilômetros do edifício.
Vista do prédio
Júlio Lopes
Prédios iguais, elementos diferentes
A irreverência do Torre Alta também apareceu em outras obras do arquiteto Léo Grossman. Muito disso se deve ao fato de que obras que ele assinou foram executadas pela própria construtora que ele tinha, o que o garantiu liberdade criativa e não exigiu que ele seguisse ideias ou tendências ditadas por outras pessoas.
Segundo Sanquetta, influenciado por experiências norte-americanas, Grossman praticava a ideia de que a arquitetura se originava de uma matriz e que, a partir dela, as construções se desenvolviam com variações. Na prática, ele fazia prédios parecidos, mas com elementos que variavam a depender de cada situação.
Um exemplo disso é o prédio Monte Carlo, também localizado no balneário Caiobá, que é quase um "irmão" do Torre Alta. A construção tem os mesmos elementos da área comum, além de ter a mesma piscina aparente e linhas horizontais na fachada.
"É um prédio que ele quis se comportar mais. É quase que o Torre Alta sem as sacadas. Ele é todo azul", explica Sanquetta.
Edifício Monte Carlo, quase um irmão do Torre Alta
Ayra Cordeiro
Além das obras no litoral do Paraná, o arquiteto também foi responsável por obras conhecidas de Curitiba.
Também focados na classe média, alguns desses prédios, como o conglomerado onde está o Shopping Água Verde e o Edifício O Sobrado, ficam localizados em bairros mais valorizados pelo mercado e próximos a áreas exclusivas para ônibus.
Prédio do Shopping Água Verde, em Curitiba
Caio Budel/g1 PR
Acima do concreto e da ousadia dos projetos, Grossman teve feitos importantes no estado. Ele foi um dos fundadores do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de ser premiado na 1ª edição da Bienal de Arquitetura em São Paulo, em 1973, pelo projeto da Subestação da Copel, no Uberaba, em Curitiba.
Léo Grossman faleceu em 1989 e deixou obras imponentes que atravessam o tempo e provocam o imaginário popular até os dias de hoje.
*Assistente de produtos digitais do g1 Paraná, sob supervisão de Caio Budel.
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