O Papa Leão 14 durante seu primeiro Angelus em Castel Gandolfo
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No dia 8 de janeiro, um usuário postou no Facebook uma imagem — deixando claro que se tratava de montagem — do papa Leão 14 vestindo uma pomposa e pesada coroa cravejada de pedras preciosas e pérolas.
A imagem mostrava a tiara papal, símbolo da nobreza que marcou os pontificados por séculos até o Concílio Vaticano 2º, realizado entre 1962 e 1965, que modernizou a Igreja Católica.
O adereço, como bem lembrou um comentário do post, está aposentado pela cúpula do Vaticano há mais de 60 anos — o último registro de seu uso foi na coroação de Paulo 6º (1897-1978), em 1963; na ocasião, em gesto interpretado como de humildade, ele retirou a coroa da cabeça e a colocou sobre o altar.
O post do usuário, originalmente publicado em um grupo no Facebook em inglês dedicado a debater vestes e adereços do clericalismo católico (sim, isto existe), viralizou de forma a furar as bolhas desses observadores de moda sacra.
Não à toa. Desde que foi eleito para comandar a Igreja Católica Apostólica Romana, em 8 de maio de 2025, portanto há exatamente um ano, o norte-americano Robert Francis Prevost, Papa Leão 14, tem sido objeto de observação atenta sobre o que veste e quais adereços utiliza.
Não por reles fashionismo. Mas porque, no âmbito da tradição católica, tudo ali é simbólico, cada detalhe e escolha transmite uma mensagem.
E o atual papa assume a responsabilidade de suceder o argentino Jorge Mario Bergoglio, papa Francisco, um verdadeiro iconoclasta no modo papal de se trajar.
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Há olhares muito atentos aos detalhes das vestes sacras. Em um post de semanas atrás, por exemplo, um usuário observava as estolas — o tecido longo utilizado ao redor do pescoço, pendendo sobre os ombros — de Leão 14 em uma missa e questionava se o adereço, vermelho com detalhes em dourado, havia sido feito exclusivamente para ele ou se tratava de uma herança prévia dos guarda-roupas papais de seus antecessores. No post, ele dizia que o estilo não lhe era familiar, se comparado "às estolas costumeiramente utilizadas por Bento 16 e João Paulo 2º".
No dia 18 de dezembro, por exemplo, em uma comunidade brasileira na mesma rede social, uma usuária postou que o papa havia sido "eleito uma das pessoas mais bem-vestidas de 2025 pela Vogue", famosa revista internacional de moda.
Não era fake news. A edição norte-americana da publicação realmente incluiu o sumo pontífice em um rol de 55 pessoas vistas como destaques por suas roupas ao longo do ano.
Segundo a revista, a inclusão de Leão se justifica porque ele rompeu "com o gosto modesto de seu antecessor", manteve seu alfaiate e preserva "o legado papal de vestes litúrgicas impecáveis".
A matéria da Vogue destaca que o melhor look do papa foi justamente o escolhido para sua estreia no cargo. Na sua aparição inaugural como papa, na sacada da Basílica de São Pedro, ele usava "uma capa de cetim musselina vermelha e uma estola vinho bordada a ouro, combinada com um pingente de cruz em um cordão de seda dourada", pontuou a revista.
O cardeal americano Robert Prevost, agora conhecido como Leão 14, após ser eleito papa pelos cardeais no segundo dia do conclave
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Professora na Universidade Lusófona de Portugal, a antropóloga e historiadora Lidice Meyer cita a lista da Vogue para definir o estilo de Leão como "visivelmente contrastante" ao de seu antecessor.
Mas se há um frisson a respeito do que usa o papa e do significado de suas escolhas, especialistas lembram que isso diz mais respeito ao que fez Francisco do que ao que faz Leão. Afinal, o estilo do norte-americano é semelhante — e até mais comedido — do que o dos seus predecessores anteriores ao argentino.
"Francisco foi o ponto fora da curva", comenta o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor no Lay Centre, também em Roma.
Pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o teólogo Raylson Araujo ressalta que o argentino "não aboliu nenhuma veste" — mas "optou por não utilizá-las". "Usava apenas a batina, o solidéu e a faixa, chamando atenção principalmente por não utilizar o múleo, os sapatos vermelhos, e continuar com os seus sapatos dos tempos de arcebispo".
Batina ou sotaina é a roupa eclesiástica básica de todo religioso católico. Solidéu é o nome do pequeno chapéu circular utilizado por bispos — na cor roxa —, cardeais — vermelho — e pelo papa — que usa um branco.
"Leão 14 também manteve os sapatos pretos, por exemplo", lembra o teólogo.
Mas não são os sapatos ortopédicos simples e práticos que Francisco usava. Também foi destaque nas redes sociais, por exemplo, o fato de que Leão 14 usa sapatos pretos feitos à mão pelo famoso sapateiro italiano Adriano Stefanelli, o mesmo que se encarregava de calçar os pés de Bento 16. Seu nome é uma grife. Há 70 anos sapatos Stefanelli são os preferidos de muitas autoridades políticas, religiosas e empresariais do país.
Araujo ainda lembra que o atual pontífice veste a mozzetta, aquela pequena capa vermelha que Francisco não usava. Prevost o faz "seguindo o protocolo comum para as visitas e audiências", ressalta o teólogo, enfatizando que Leão 14 é um "canonista, isto é, uma pessoa ligada aos protocolos da instituição".
"Não é que ele esteja rompendo com o legado de Francisco, mas sim está seguindo protocolos que funcionam há muitos e muitos anos", salienta o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
O papa Francisco ficou conhecido pelo estilo simples que adotou em suas vestimentas
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Guarda-roupa do Vaticano
Mas para compreender melhor esse fenômeno, é preciso se voltar para quais são as vestes papais. De modo sucinto: um papa se veste de forma muito semelhante a um bispo, afinal ele é o bispo de Roma. E, como explica Domingues, ele tem três situações diferentes no dia a dia que refletem no modo como se apresenta: os momentos mais cotidianos, os eventos formais no geral — inclusive quando o papa está na posição de chefe de Estado — e as cerimônias litúrgicas, com todo o aparato relativo à religião.
Aqui está o ponto-chave. Francisco representou uma ruptura porque ele passou a usar a roupa que seria do dia a dia, ou seja, ao hábito branco, em praticamente todas as situações. Foi assim, vestido com uma batina sem adereços, que ele se apresentou ao mundo como papa, quando foi eleito naquele conclave de 2013.
Leão resgatou a prática anterior, embora o faça sem exageros.
"Embora resgate peças tradicionais, ele não quer ser visto como um restauracionista radical", pontua o pesquisador de arte Jack Brandão.
Diretor do Centro de Estudos Logo-imagéticos Condes-Fotós e editor da revista acadêmica Lumen et Virtus, Brandão conta que a tradição do papa usando branco no dia a dia remonta ao século 16, no pontificado de Pio 5º (1504-1572). "Desde então o branco se tornou a marca visual exclusiva do sumo pontífice", explica. O código cromático se repete no solidéu: se tem chapeuzinho branco na cabeça, é o papa.
No caso dos acessórios e das insígnias, o papa e os demais bispos usam a cruz peitoral — não os padres comuns. "O báculo, o cajado que lembra o de um pastor, é usado por bispos em cerimônias solenes", diz Brandão. "O papa, no entanto, usa uma versão específica, a férula, que tem um crucifixo no topo".
"A mitra, aquele chapéu pontudo, é usada por bispos, cardeais e pelo papa, mas a deste é sempre branca. Há ainda o pálio, uma faixa circular de lã branca com cruzes pretas, usada sobre a casula, a capa da missa, que simboliza a ovelha que o pastor carrega nos ombros e é um privilégio do papa e dos arcebispos metropolitanos", acrescenta Brandão. "O anel do pescador, com a imagem de São Pedro, é exclusivo do Papa e serve como seu selo oficial."
No caso dos sapatos, há tradição da cor vermelha remete ao sangue derramado pelos mártires cristãos. O último a usar foi Bento 16 (1927-2022).
Fato é que um papa é, em última instância, um monarca absolutista teocrático. Então cada qual pode decidir como, quando e de que forma seguir os protocolos.
Leão 14 tem usado as vestes do cargo de três formas. Liturgicamente, ele se veste de modo muito similar ao de um bispo, com os adereços básicos que o identificam como papa. "Se colocar um cardeal ali ao lado, quase não se diferencia muito", compara Domingues.
"Quando o papa se apresenta como chefe de Estado, digamos em uma solenidade civil, fora do contexto litúrgico, Leão 14 tem aparecido com uma batina branca como base, coberta por uma sobrepeliz, que é aquela primeira túnica branca e, em cima, o manto vermelho, a mozzetta", comenta Domingues.
Segundo o vaticanista, essa diferença é protocolar, demonstrando o aspecto da missão do papa que está em evidência em cada caso.
Foi com a mozzetta vermelha, que ele apareceu na sacada da basílica quando foi anunciado como papa, há um ano — assim como o fizeram os sumo pontífices anteriores a Francisco, aliás.
Por último, a roupa básica do papa é a veste branca. "Uma batina, como a dos padres, mas toda branca", diz Domingues. "É a roupa pública do dia a dia. Normalmente é assim que ele está quando vai visitar uma escola ou encontrar uma comunidade religiosa, por exemplo."
Papa Francisco
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Estilos de cada um
Dentro dos protocolos, há variantes que têm a ver com a personalidade de cada papa. "Essa liberdade de escolha que permite que cada papa imprima sua própria personalidade e ênfase teológica no modo como se veste", diz Brandão.
"Diferentemente do que muitos imaginam, não existe um uniforme papal rígido com regras escritas sobre o que deve ser usado em cada ocasião. Há tradições, há precedentes históricos, há um senso de decoro, mas a decisão final é sempre pessoal."
Por isso mesmo em eventos semelhantes, há diferenças visíveis entre Bento, Francisco e Leão. Com o argentino destoando mais, com um aspecto de simplicidade extrema.
"Acho que isso diz mais sobre o papa Francisco do que sobre o papa Leão. Francisco escolheu ser o diferente dos outros nessa questão das vestes", comenta Domingues. "Leão voltou a seguir os protocolos."
"Essa liberdade não é vista como capricho pessoal, mas como parte do caráter pastoral do papado. Cada papa, ao escolher como se apresentar publicamente, está comunicando algo sobre seu entendimento do ministério petrino. A roupa, nesse contexto, veste a mensagem", analisa Brandão.
O pesquisador lembra que Bento 16, o alemão Joseph Ratzinger, era um teólogo liturgista de formação profunda. "Para ele, a beleza e a solenidade da liturgia eram caminhos privilegiados para encontrar Deus. Isso se refletiu em suas escolhas de vestuário: resgate do uso tradicional dos múleos vermelhos utilizados por papas anteriores", pontua.





