Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Pretexto: estaria havendo demora para o anuncio do “agrément”, o termo em francês diplomático a indicar que o Brasil não se opõe à indicação de Daniel Perez para a representação dos EUA em Brasília. Mero pretexto. Papo-furado. Ele nem foi aprovado ainda pelo Senado daquele país. Há uma nota do governo brasileiro a respeito. Tratarei dela. Antes, algumas questões relevantes.
Como de hábito, sempre há um livro, um texto, um filme. Ou a gente exerce essa profissão para aumentar o repertório dos viventes ou se pratica obscurantismo — nesse caso, aquilo que as pessoas sabem ou julgam saber torna-se ainda mais restrito, mais odioso, mais estreito. Não quero que me leiam com esse fim. Vamos ver.
SAMUEL JOHNSON
Na pré-história destes dias históricos, fui colunista da Folha e escrevi este texto 13 de setembro de 2017. E olhem que eu nem tinha ainda a fama de “petista”. Título: “A direita se transforma no último refúgio dos canalhas”. Insisto: o artigo tem quase 10 anos. Lá se lê:
“É conhecida a frase do inglês Samuel Johnson (1709-1784): ‘O patriotismo é o último refúgio de um canalha’. Acabou distorcida. Referia-se a uma situação específica da política do seu tempo. Não hostilizava ou renegava os ‘patriotas’, então uma corrente política. Criticava vigaristas que passaram a se abrigar sob tal manto, pervertendo ideias que considerava virtuosas. Nestes dias, o liberal brasileiro está obrigado a dizer: ‘A direita é o último refúgio de um canalha’.”
Pronto. Nem importa a situação, então, que me levou a escrever aquele artigo. Lembrei a frase famosa de Johnson; deixei claro não se tratar de uma sentença sem história — o que o incomodava era o patriotismo falso ou pervertido — e dei uma porrada na asquerosa direita brasileira, que já se preparava para tocar flauta para Jair Bolsonaro, este nosso mergulho no horror intelectual e político — um presentinho da Lava Jato.
Nota à margem: a juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba, foi punida pelo CNJ nesta terça por 10 votos a 4. Até Edson Fachin votou a favor. Fui eu a noticiar, em 2019, que ela autorizara uma fundação privada com recursos oriundos de multa paga pela Petrobras: era uma aberração. Alexandre de Moraes impediu. É a juíza que decidiu que deveria humilhar Lula como depoente. Mas volto ao ponto.
O patriotismo é uma virtude se… virtuoso for. Truísmo? Bem, assim são as coisas. Ou a frase de Johnson nem faria sentido. O Brasil está sob ataque dos EUA, e Flávio já se ofereceu para entregar tudo “auzamericânu” num documento de 84 páginas e numa carta servil a Marco Rúbio.
Também foi rastejar na audiência do USTR. Antes disso, havia prometido as terras raras do Brasil a seus chefes, além do alinhamento com Trump contra a China, nosso principal parceiro comercial, no evento da tal Cepac nos EUA. Ele está disposto a entregar tudo. A começar pela honra.
A decisão sobre a nossa embaixadora não faz o menor sentido, é inaceitável e é parte da escalada grosseiramente imperialista contra o Brasil. O governo brasileiro emitiu uma nota:
O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington.
As duas justificativas apresentadas são falsas.
O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de ‘agrément’ ao governo brasileiro.
O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise.
Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.
Vale recordar que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras, notadamente o cancelamento de vistos para os EUA, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo.
O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais.
A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo.
Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.
Em linha com sua tradição diplomática, o governo brasileiro se opõe à lógica de confrontação e reitera a defesa do diálogo e da negociação em todas as suas relações internacionais.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República”
RETOMO
Nota impecável. Não há rigorosamente uma só provocação ou ato impróprio no tempo do governo brasileiro para a concessão do “agrément”. Dirá alguém: “Ah, mas deveria ter sido concedido de imediato para que não pensassem mal de nós e, assim, não houvesse retaliações indevidas”.
Dizer o quê? A tática de mostrar o traseiro para não mostrar o traseiro parece ser contraproducente. Deixem para a extrema direita a exposição do “derrière” como método, não como distração.
A propósito: o Brasil, em linguagem diplomática, rebaixou suas relações com a Argentina. Javier Milei, o estafeta de Trump e Flávio, segue na sua sanha contra Lula e o Brasil. Nosso embaixador volta a Buenos Aires quando for a hora. E não é hora agora. Quem sabe faz a hora acontecer. E só se for o caso.
O entreguismo é o primeiro refúgio de um canalha.