A defesa do ex-presidente informou que Bolsonaro "não autorizou a utilização de sua imagem e voz para a produção do vídeo elaborado mediante inteligência artificial referido na decisão".
Ao pedir as explicações, o ministro afirmou que Flávio e o PL podem ser responsabilizados por possível uso irregular de deepfake.
Defesa de Flávio Bolsonaro nega que vídeo por IA do pai seja pedido de voto e diz que respeitou lei eleitoral
Flávio Bolsonaro discursa; vídeo de Bolsonaro feito de IA é exibido
Reuters; Reprodução/YouTube
Alexandre Basílio Coura, cientista político e membro da Abradep, explica que jingles, animações e montagens não são automaticamente proibidos. O enquadramento depende da forma como a tecnologia foi usada.
“Os jingles podem utilizar recursos de IA para composição musical ou uma voz genérica. Entretanto, criar artificialmente a voz de um candidato para fazê-lo cantar ou dizer algo que nunca disse apresenta elevado risco de enquadramento como deepfake. O mesmo vale para os vídeos: uma animação ou montagem claramente identificável como humorística pode ser permitida, mas é proibido criar, substituir ou alterar digitalmente a imagem ou a voz de uma pessoa para favorecer ou prejudicar candidatura, ainda que exista autorização e ainda que o conteúdo esteja sinalizado”, afirma Alexandre.
Para o cientista político Joscimar Silva, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) e membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel), a IA deixou de atuar apenas nos bastidores das campanhas. Além de mapear preferências e segmentar públicos, a tecnologia passou a criar a própria linguagem da pré-campanha.
“As equipes de campanha conseguem, com menor custo e maior rapidez, produzir mais conteúdo e produzir conteúdo para diferentes públicos. Antes, se quisessem alcançar mulheres de 25 a 35 anos em determinada região, essa produção levaria à necessidade de gravar um vídeo, enviar e segmentar. Agora, é possível produzir o mesmo conteúdo com um único prompt para públicos diferentes, alterando a entonação, o discurso, as imagens e o cenário. Isso torna muito mais rápida a produção e pode tornar mais efetiva a segmentação, além de dar a sensação de um candidato mais presente, embora, na verdade, ele esteja mais distante, porque nem é a imagem real que aparece para o público”, diz Joscimar.
Romeu Zema também recorreu à tecnologia em conteúdos de promoção e ataque. Em dezembro de 2025, publicou um clipe em que aparece como cantor em uma música sobre Minas Gerais. O vice-governador Mateus Simões (Novo-MG) surge como baterista.
Romeu Zema aparece como cantor em vídeo produzido com inteligência artificial e publicado nas redes sociais
Reprodução/Instagram
Em março, Zema publicou vídeos com fantoches semelhantes a Lula e a ministros do Supremo Tribunal Federal, em tom crítico. Os primeiros não traziam aviso de IA. Depois, as publicações passaram a informar que as vozes e animações haviam sido produzidas com a tecnologia.
Boneco semelhante a Lula aparece em vídeo publicado por Romeu Zema e produzido com inteligência artificial
Reprodução/Instagram
Carla afirma que o humor e a sátira podem ajudar mensagens falsas ou agressivas a circular, porque parte do público aceita o conteúdo mesmo sabendo que a cena não aconteceu.
“A gente ainda não tem dados para fazer essa comparação. O que vemos é um avanço da narrativa e do uso de conteúdos generativos, justamente porque eles ganham um alcance muito grande nas plataformas. Muitas vezes, é um conteúdo que ataca um opositor, mas utiliza os mecanismos do humor, da sátira e da brincadeira para que as pessoas não identifiquem a agressão. A pessoa pode saber que aquilo é uma brincadeira e que o vídeo não é verdadeiro, mas aceita a mensagem porque acha engraçada ou interessante”, diz Carla.
Ronaldo Caiado (União Brasil) usou imagens sintéticas em peças sobre segurança pública. Em uma delas, uma bandeira do Brasil é atingida por disparos em uma cena sobre criminalidade.
Em novembro de 2025, Caiado também apareceu como cantor e violonista em um vídeo feito com IA e publicado em colaboração com Adriano da Rocha Lima, então secretário-geral do Governo de Goiás.
Ronaldo Caiado aparece como cantor e violonista em vídeo feito com IA e publicado nas redes sociais
Reprodução/Instagram
Renan Santos, por sua vez, publicou um vídeo criado com IA a partir de uma fotografia de Daniel Vorcaro em uma festa, para criticar políticos que participaram de eventos do ex-banqueiro. A postagem informava o uso de IA.
Renan Santos publica vídeo criado com IA a partir de uma fotografia de Daniel Vorcaro em uma festa
Reprodução/Instagram
Mais do que baratear a produção, os casos mostram como a IA permite colocar os pré-candidatos em situações que não ocorreram e multiplicar sua presença nas redes sem a necessidade de novas gravações. Joscimar afirma que a tecnologia também facilita a adaptação de uma mesma mensagem para diferentes públicos, com mudanças na voz, no discurso, nas imagens e no cenário.
“O impulsionamento de conteúdo segmentado ajuda a criar uma camada, uma bolha de realidade, que afasta esse eleitor, que recebe várias vezes o mesmo tipo de conteúdo, da realidade. Isso reforça narrativas e pode fazê-lo sentir medo e insegurança. Ele passa a enxergar a oposição ou versões alternativas daquele fato como se fossem mentiras. Esse é um grande problema, porque o impulsionamento gera uma realidade paralela, e a situação se torna muito complicada se o eleitor não busca informação por outros meios, não faz uma pesquisa ou não segue perfis alternativos. Isso pode enviesar a interpretação que ele terá da realidade”, afirma Joscimar.
Em maio, Lula defendeu a proibição da tecnologia nas eleições e disse que não aceitaria seu uso na própria campanha.




