André Mendonça decidiu abrir um segundo inquérito contra Lulinha. Deve abrir outros. Mais uma trilha da “mutação investigativa”, essa filha temporã do lavajatismo. Começa-se investigando A. Se não der certo, vamos paras as alternativas B, C, D… Quem sabe, em algum momento, se pegue o peixe. Acho que não dará em nada. E é muito provável que já se saiba disso. Não fossem as eleições daqui a dois meses, nada existiria. Mas deixo isso pra lá agora. Está em todo canto, publicado com exclusividade por Andreza Matais neste Metrópoles, que Mendonça decidiu investigar Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF. No título: “André Mendonça apura se diretor-geral da PF obstruiu justiça em caso do INSS”. Apura? Então investiga.
Mas quem investiga? Ele próprio? É o investigador e também o juiz da causa? Mais: faz ainda o controle externo da Polícia Federal, papel que cabe ao Ministério Público?
Vamos pensar: ou bem Rodrigues é investigado pelo MPF — no caso, a PGR — ou bem pela própria Polícia Federal, a menos que Mendonça tenha a sua estrutura particular de apuração. E, nesse caso, estamos falando de uma polícia clandestina conduzida por um ministro do Supremo. Quem a integra? Quais são seus investigadores? Aqueles encarregados de espalhar na imprensa a fofoca de que o diretor-geral estaria empenhado em proteger Lulinha e Jaques Wagner?
ENCABRESTAMENTO DA PF E IMPRENSA
Mas não é o mesmo Andrei que foi criticado, inclusive por Mendonça, quando se manifestou contra o que parecia ser uma tentativa de controle da apuração por parte do então relator, Dias Toffoli? Nota: Toffoli, perto do que faz Mendonça, era uma normalista. O atual relator está na fase da pós-graduação no esforço de encabrestar a PF. Mas há uma diferença: um era massacrado pela imprensa; o outro é tratado como o cavaleiro sem máculas. Como diria o poeta, parece se interessar apenas por “substantivos celestes”. Que poeta? Drummond. Sigamos.
Se o diretor-geral da PF está sendo investigado, precisamos saber quem investiga. Se isso é noticiado e se o ministro não desmente, estamos com uma questão gravíssima, que demanda a manifestação da Advocacia Geral da União — e estou me referindo a Jorge Messias — e do ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, a quem a PF é administrativamente subordinada. Onde eles estão?
MNEMOSINE E A PEIXA DORY
Jornalismo deveria ter a deusa primitiva Mnemosine como sua patronesse — refiro-me à memória —, e não a simpática peixinha Dory, de “Procurando Nemo”, aquela que vivia no presente eterno. Sergio Moro caiu dois dias depois de Jair Bolsonaro deixar claro, numa reunião ministerial de 22 de abril de 2020, que iria, sim, ter o controle da PF — e o demitido deu inúmeras entrevistas acusando a interferência.
Sete dias depois, justamente Mendonça assumiu o cargo, em 29 de abril de 2020. Na sua posse, chamou o defensor de milícias — tenho o discurso aqui — de “profeta da segurança pública”… O mundo é feito de afinidades eletivas, já disse alguém mais esperto do que eu. Mas não para manipular investigações e o processo judicial.
PESOS, MEDIDAS E ILEGALIDADES
A imprensa fez picadinho de Toffoli, acusando-o de tentar controlar a investigação do Master. O próprio Andrei Rodrigues, insisto, reclamou do que considerou intromissão excessiva do ministro — e isso pareceu bem a todos. Pois é…
Agora, Mendonça decidiu que a PF deve lhe fornecer tudo em tempo real, mesmo os procedimentos internos, próprios da rotina da investigação, em que relevâncias e irrelevâncias vão sendo colhidas. E com um mimo: ele exige tudo indexado. Para quem não entendeu: quer dar um “Ctrl L” e achar quem eventualmente queira achar.
Isso é ilegal. Tem nome técnico: chama-se QUEBRA DA CADEIA DE CUSTÓDIA DAS PROVAS, além de representar uma interferência no trabalho da Polícia Federal a que nem mesmo o Ministério Público Federal, que faz o controle externo da PF, tem direito. Tal controle, note-se, é exercido diante da suspeita ao menos de que algum abuso foi cometido. Não houvesse denúncias, sempre há, far-se-ia uma apuração por amostragem.
Que abuso cometeu a PF? Ora, o ministro desconfia do trabalho que lá se faz, da instituição como um todo. E isso está plantado em algumas colunas. Quem quer que faça esse trabalho, com a concordância ou não de Mendonça, é mesmo um excelente hortelão: semeia que é uma beleza! A exemplo dos tempos mais tenebrosos da Lava Jato, tudo é publicado em pencas de títulos. E dane-se.
MENDONÇA PROVOCA PÂNICO?
E aí vem aquele papo-furado sobre o pânico que Mendonça causaria em sei lá quem. Em quem? Não nos golpistas, certamente. Quando lhe foi dado arbitrar sobre os crimes cometidos pela súcia, não viu nada além de uma manifestação de gente decente, mas um pouco descontrolada. Quando se posicionou sobre o ataque às respectivas sedes dos Três Poderes, houve por bem indagar a responsabilidade da vítima — no caso, do governo que a canalha tentava derrubar. Quando lhe foi dado falar sobre covid, vida e morte, preferiu exaltar os que morriam por sua fé aos que vivem por ela.
Volto a perguntar: quem investiga o diretor-geral da PF? Curioso, não? Ignorando o Artigo 256 do Código de Processo Penal e o Art. 145, § 2º, I, do Código de Processo Civil, coleguinhas e colunistas do extremismo de centro chegaram a defender que Alexandre de Moraes se declarasse suspeito nos casos em que ele era ameaçado pelos extremistas que buscavam justamente provocar a sua… suspeição. Ainda bem que os tais códigos, de 1941, são mais rápidos do que alguns analistas de 2026…
SUPER-MENDONÇA
O super-Mendonça, agora, é relator do STF, policial dos policiais da PF e ainda exerce a função de controlador externo da PF. Se houver denúncia do MPF, será também juiz. Mais um pouco, ele decide se a viúva pode tomar um Chicabon no portão. E isso, a muitos e a muitas, parecerá uma poesia. Vai dar ruim. Como deu a Lava Jato.
Nota: o objetivo é abrir ao menos quatro inquéritos contra Lulinha, para que passe a ser a pessoa mais investigada do Brasil. Ainda que depois tudo não dê em nada. Mas a aposta é que se possa conquistar o principal… Também a imprensa recuou no tempo e endossa ilegalidades semelhantes às praticadas pela Lava Jato.
Ministro Mendonça, responda: quem compõe a polícia privada que investiga o diretor-geral da PF? E quantos inquéritos são necessários contra Lulinha até que as urnas respondam?





