Daniel Murphy achava que estava tomando um suplemento alimentar seguro e testado, que o ajudaria a ganhar massa muscular na academia.
Mas, ao longo dos dois anos seguintes, sua saúde mental se deteriorou a tal ponto que ele acabou em estado de psicose, acreditando que a esposa tentava roubar seu negócio e que a sogra ia matá-lo.
Sem que Daniel soubesse, os comprimidos que tomava diariamente tinham sido misturados com testosterona.
O rapaz de 32 anos é um dos 54 mil consumidores listados em um processo contra uma empresa milionária de peptídeos sediada nos Estados Unidos, que vendia seus produtos pelo mundo todo.
O dono da Paradigm Peptides, Matthew Kawa, foi condenado a 5 anos e 10 meses de prisão na quinta-feira (30/7), depois de admitir que vendeu deliberadamente medicamentos não aprovados, tentou enganar as pessoas sobre o que eram esses produtos e os trouxe ilegalmente para o país.
Sua irmã, Jennifer Stechkober, que também se declarou culpada de vender medicamentos não aprovados, foi condenada a 1 ano e 4 meses de prisão.
Os dois admitiram ter mentido sobre a origem dos comprimidos, sua pureza e os procedimentos de teste da empresa. Apesar de alegarem que os suplementos eram fabricados nos Estados Unidos, na verdade, eles eram importados da China, da Índia e de vários outros países. A dupla também falsificou certificados de análise — os documentos que comprovam a segurança e a qualidade de um produto.
O site da Paradigm Peptides afirmava testar "rigorosamente" todos os seus produtos para garantir "eficácia, pureza e potência", mas Matthew e Jennifer admitiram não testar nem analisar nenhum dos produtos que vendiam. Por isso, não sabiam que tinham sido misturados com testosterona.
A testosterona é um hormônio esteroide, produzido naturalmente pelo corpo. Ela impulsiona o desenvolvimento físico, constrói músculos e controla o desejo sexual, principalmente nos homens, mas também contribui para a saúde das mulheres.
Existe uma versão sintética que os médicos podem prescrever, mas que pode causar danos ao fígado, efeitos psiquiátricos graves e problemas cardíacos e respiratórios se usada sem acompanhamento médico. Também pode causar infertilidade em homens e aumentar o risco de câncer de testículo.
O caso da Paradigm Peptides é o maior a abalar o setor — um mercado sem regulamentação que explodiu e ganhou popularidade nos últimos 18 meses.
Peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos produzidas pelo nosso corpo, usadas há muito tempo para tratar condições médicas, incluindo o diabetes. Mais recentemente, passaram a ser usados em medicamentos para emagrecer, os análogos de GLP-1.
Outro tipo de medicamento vendido pela Paradigm Peptides eram os SARMs (sigla em inglês para moduladores seletivos de receptores androgênicos), que atuam em tecidos específicos para aumentar a massa muscular e óssea.
Esses dois tipos de medicamentos injetáveis sem regulamentação vêm se tornando cada vez mais populares na comunidade de bem-estar online, inclusive entre muitos influenciadores jovens.
As redes sociais estão inundadas de pessoas elogiando os benefícios de diversas substâncias, como BPC-157, GHK-Cu e TB-500 — todas com a suposta capacidade de ajudar a ganhar massa muscular, auxiliar na recuperação dos tecidos ou melhorar a saúde da pele.
Elas não são licenciadas, só podem ser vendidas para fins de pesquisa e não são adequadas para consumo humano.
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Murphy contou à BBC que estava em um bom momento três anos atrás. Era casado com Laura, e os dois tinham construído uma "vida muito estável, consistente e bonita" nas montanhas Smoky, em Knoxville, no estado do Tennessee.
Murphy tinha perdido 59 kg e "concluído uma grande transformação de saúde" por meio de dieta e exercício.
"Eu não era chegado à cultura de academia. Não era um marombeiro nem nada disso", explica. "Mas, depois de perder todo aquele peso, eu quis começar a ganhar músculo, e esses suplementos pareciam uma forma segura de fazer isso."
Murphy achava que estava tomando uma dose diária de SARMs. Assim como os peptídeos, eles não são aprovados para uso humano e são vistos como drogas experimentais, com risco de dano grave ao fígado, trombose e problemas cardíacos.
Murphy disse ter se sentido seguro ao tomá-los porque estavam claramente rotulados como "suplemento alimentar", e a Paradigm alegava, em vários blogs, ter um contrato com a agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos (FDA), o que não era verdade.
"Como outras vítimas, confiei que os produtos eram seguros", diz. "Eles apresentavam tudo como comprovado por pesquisas, com alegações de 99% de pureza. Era tudo mentira."
Murphy começou a tomar os SARMs da Paradigm em janeiro de 2023. Nos primeiros meses, ele disse que o produto parecia ter um efeito positivo. Murphy conseguia treinar por mais tempo e tinha mais energia. Incentivado por artigos de pesquisa falsos que leu no site da Paradigm Peptides, ele passou a tomar também outros produtos.
A insônia e a mania começaram a se instalar. Segundo ele, isso o levou a destruir tudo que tinha construído: o casamento, as amizades e o negócio.
Durante o processo judicial, o psiquiatra e farmacologista Erik Messamore prestou depoimento para confirmar que, na sua avaliação, Murphy tinha sofrido uma psicose induzida por esteroides.
'Consumidores em risco no Reino Unido'
Enquanto a vida de Murphy saía do controle, sem que ele soubesse, a FDA já investigava a Paradigm Peptides. Desde 2020, a agência estava enviando cartas de advertência à empresa, ordenando que parasse de vender medicamentos não aprovados. Em setembro de 2023, a FDA apreendeu produtos SARMs da Paradigm para fazer testes e descobriu que todos os suplementos tinham sido misturados com testosterona.
Mas ainda levaria mais seis meses até que a FDA fechasse a empresa.
No Reino Unido, Adam Taylor, professor de anatomia na Universidade Lancaster, acompanha casos como esse de perto, enquanto a comunidade científica segue soando o alarme sobre esse mercado, que opera em uma zona cinzenta do ponto de vista legal e regulatório.





