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Maior equívoco do filme ‘A Odisseia’ é misoginia do diretor Christopher Nolan, diz especialista em mitologia grega

Penélope é interpretada por Anne Hathaway no filme. Segundo Cláudio Moreno, na epopeia ela é uma mulher poderosa e inteligente
Universal Studios
Poucas obras carregam o peso simbólico de A Odisseia. Séculos depois de ser escrita, a jornada de Odisseu — nome grego do herói que ficou conhecido como Ulisses na tradução para o latim — continua sendo revisitada em diferentes linguagens e ganhou uma nova adaptação para o cinema pelas mãos de Christopher Nolan.
O filme de Nolan estreou com a maior bilheteria da carreira do diretor. Mas, para Cláudio Moreno, professor, autor de crônicas sobre o mundo antigo (reunidas nas coletâneas Um Rio que Vem da Grécia, 100 Lições para Viver Melhor – Histórias da Grécia Antiga e Noites Gregas), a adaptação deixa de lado justamente uma das dimensões mais importantes do poema atribuído a Homero: a força e a complexidade de suas personagens femininas.
"Homero, quem quer que seja Homero, fez na Odisseia um livro com mulheres poderosas", afirma Moreno, que também apresenta o podcast Noites Gregas, em que conta histórias da mitologia grega.
"O mundo feminino foi muito mal contemplado ali [na adaptação de Nolan], sabendo que havia grandes personagens."
A Odisseia é um poema épico que acompanha o retorno de Ulisses a Ítaca após a Guerra de Troia. O que deveria ser uma viagem de poucos dias se transforma em uma jornada de dez anos, marcada por monstros, deuses, tentações e desafios que colocam à prova a inteligência e a capacidade de sobrevivência do herói.
O poema já foi recontado diversas vezes ao longo dos séculos e reúne, segundo Moreno, uma das narrativas mais universais da humanidade.

"Um homem que quer voltar para encontrar sua mulher, seu filho, seu lar, seu cachorro e a si mesmo. E é impedido por vários obstáculos. Então, nessa sequência, há, na Odisseia, uma narrativa perfeita", destaca.
"É como uma pedra jogada no fundo do rio que rolou 400 anos. Não tem aresta, não tem falha, não tem nada."
Embora o protagonista da epopeia seja um homem, Moreno destaca que as mulheres ocupam papel central na história. A tentativa de voltar para casa e recuperar o reino é atravessada pelas estratégias, pelos conselhos e pelos conflitos com deusas, ninfas e mortais.

Personagens como Penélope, Circe, Calipso, Atena e Nausícaa, presentes na obra escrita há quase três mil anos, não são figuras secundárias: elas representam poder, inteligência, conhecimento, além de desempenharem papéis decisivos na construção da narrativa.

Contudo, segundo Moreno, suas histórias foram apagadas no filme de Nolan.
Em entrevista à BBC News Brasil, o especialista em mitologia grega criticou as escolhas feitas por Nolan na adaptação e afirmou que o filme privilegiou a ação e o espetáculo visual em detrimento de elementos que considera essenciais da obra original.
Para o professor, há vários equívocos no filme, mas o maior deles "é a misoginia do Nolan".
"O Nolan deixou fora muita coisa, o que seria natural com o filme daquele tamanho. Mas o que ele deixou fora é importantíssimo", afirma.
"Pra mim, o maior equívoco é a misoginia de Nolan, ele não faz bons personagens femininos."
Cláudio Moreno é especialista em cultura clássica. Para ele, obra de Nolan no cinema apagou a história das mulheres de A Odisseia
Reprodução/Youtube Noites Gregas
A crítica de Moreno dialoga com um debate antigo sobre a forma como Christopher Nolan constrói suas personagens femininas.
Ao longo da carreira, o diretor foi alvo de críticas de espectadores e críticos que apontam que suas personagens mulheres — embora frequentemente interpretadas por grandes atrizes — costumam ter menos espaço narrativo e profundidade psicológica do que os protagonistas masculinos.
Em filmes como A Origem, Batman: O Cavaleiro das Trevas e Oppenheimer, alguns críticos observaram que determinadas personagens femininas acabam funcionando principalmente em relação à trajetória dos homens ao seu redor — como figuras ligadas à motivação, à perda ou ao apoio emocional — em vez de terem seus próprios conflitos e arcos dramáticos plenamente desenvolvidos.
A seguir, os principais pontos da crítica do especialista sobre as figuras femininas de A Odisseia.
Penélope: a mulher que sustenta o reino
Penélope com os pretendentes, 1509. Pintura do artista Bernardino (1909)
Print Collector/Getty Images/BBC
Penélope (interpretada no filme pela atriz Anne Hathaway) está longe de ser apenas a esposa que espera o retorno de Ulisses, segundo Moreno.
Na epopeia de Homero, ela é uma mulher poderosa, que sustenta sozinha o reino de Ítaca durante os 20 anos em que o marido permanece ausente — dez lutando na Guerra de Troia e outros dez tentando voltar para casa.
Em uma sociedade profundamente patriarcal, diz o professor, a personagem consegue adiar a pressão de pretendentes — que querem que ela se case de novo —e preservar o trono graças à própria inteligência.

"É inteligentíssima, espertíssima. O próprio Ulisses, quando volta, tem que dar um jeito de convencê-la de que ele é Ulisses, porque ela vai propor uma série de provas", destaca. Para o especialista, a relação entre os dois também ajuda a explicar a força da personagem, que foi apagada no filme. Ele explica que durante a Guerra de Troia, era comum que os guerreiros mantivessem concubinas nos acampamentos, para satisfazer seus desejos sexuais. Mas esse não era o caso de Ulisses "porque ele é fiel a Penélope", pontua.

É somente depois de ser lançado pelos deuses em sua longa viagem de volta que o herói passa a se envolver com outras figuras femininas.

"Quando ele sai do mundo humano e os ventos levam ele para o outro lado, ele vai passar uma espécie de peregrinação por três mulheres, que compõem, na verdade, o encontro dele com o mundo feminino, todas diferentes."
Circe: a feiticeira que revela o caminho de volta
Ulisses e Circe, 1630, pintura do artista Jacob Jordaens
Fine Art Images/Heritage Images via Getty Images
Em A Odisseia, Circe é uma das personagens femininas mais poderosas da narrativa. Feiticeira, ela é capaz de despertar o lado animal dos homens — simbolizado pela transformação dos companheiros de Ulisses em porcos —, mas sua relação com o herói vai muito além desse episódio.
Na avaliação de Moreno, a adaptação de Nolan reduz a personagem a uma figura raivosa e perde a complexidade que Homero lhe atribui.
"No filme é uma coisa incompreensível. É uma vizinha braba, furiosa, de mal com a vida."
Circe é interpretada pela atriz Samantha Morton no filme.
Segundo o professor, na obra original Circe reconhece em Ulisses o homem anunciado por antigas profecias e acaba se apaixonando por ele. Os dois vivem juntos por um período, mas a relação é marcada pela independência de ambos, e não pela submissão.
"Claro que ela é uma mulher poderosa, uma mulher independente. As paixões duram um ano, dois, depois a fila anda. Ela mesma diz: 'Olha, Ulisses, volta'. Como um casal altamente moderno, cada um segue para o seu lado, numa boa."
Ele lembra, inclusive, que a feiticeira desempenha um papel decisivo na jornada do herói. É ela quem o orienta sobre como chegar ao mundo dos mortos e prosseguir em sua viagem de volta para Ítaca.
"Ela ajuda muito, fala sobre o mundo dos mortos, tem que passar lá", pontua. "Mas no filme, é um desastre."
Calipso: a que oferece a imortalidade
Circe oferecendo uma taça a Ulisses,1891. Obra de John William Waterhouse
Buyenlarge/Getty Images/BBC
Depois de deixar a ilha de Circe e visitar o mundo dos mortos, Ulisses chega à ilha de Calipso. Na epopeia, a ninfa se apaixona pelo herói, cuida dele e deseja que ele permaneça ao seu lado.
Segundo Moreno, Calipso é "uma mulher ardente, apaixonada" e a relação entre os dois é marcada por uma inversão dos papéis tradicionais.

"Ele é um escravo sexual. Ela exige o cumprimento das suas obrigações matrimoniais."
Mas o filme reduz essa complexidade.
"Calipso [interpretada pela atriz Charlize Theron] parece uma enfermeira, uma cuidadora. Fica sendo uma enfermeira atraente, mas muito séria, muito preocupada com o enfermo. A Calipso perde o brilho", afirma o professor.
Para ele, uma das cenas mais importantes da Odisseia ficou de fora da adaptação: na tentativa de convencer Ulisses a permanecer em sua ilha, Calipso lhe oferece aquilo que todo mortal deseja — a imortalidade, sem velhice e sem doença.
Mas o herói recusa.
"Ele diz: 'Não, eu quero voltar para casa'. Ele recusa a imortalidade. Não tem outro personagem na literatura grega que faça isso."
Na avaliação de Moreno, a escolha reforça o amor de Ulisses por Penélope e desfaz a imagem de um herói movido apenas pelo desejo.
"Vai valorizando a Penélope. Evidentemente, vai tirando essa imagem que muitos têm de que Ulisses era um cachorro."
Outra passagem que, segundo ele, desaparece no filme ocorre quando Zeus ordena, por meio de Hermes, que Calipso liberte Ulisses. A ninfa reage com indignação e protagoniza o que Moreno considera uma das primeiras cenas de revolta feminina da literatura ocidental.
"Ela recebe uma ordem de Zeus para soltar Ulisses. Ela fica furiosa e, na Odisseia, tem uma cena inédita de revolta feminina: 'Vocês, homens, fazem o que querem.'."
"No filme, nada. Está tudo morno."
Atena: a deusa poderosa reduzida a uma figura secundária
Odisseu, ajudado por Atena disfarçada de uma jovem, chega ao palácio de Alcínoo. Ilustração de Antoine Calbet para A Odisseia", 1897
Bridgeman via Getty Images/BBC
Atena é a divindade que acompanha toda a jornadade de Ulisses, protegendo o herói e intercedendo a seu favor.
É descrita por Moreno como uma das "figuras mais poderosas e interessantes do Olimpo", mas que foi totalmente esvaziada na adaptação.
"Atena, coitada da Atena, a deusa dos olhos brilhantes. No filme [interpretada por Zendaya], ela é uma mocinha tímida, ingênua, olhando meio assustada. É uma pálida Atena."
Ele destaca que na epopeia, é ela quem convence Zeus a permitir o retorno de Ulisses. A pedido dele, Hermes leva a Calipso a ordem para libertar o herói, dando início ao último trecho de sua viagem de volta para casa.
Nausícaa: a que foi cortada do filme
Na epopeia, Atena aparece em um sonho para Nausícaa e aconselha que ela vá ao rio lavar roupas para que pudesse encontrar Ulisses
Ivy Close Images/Universal Images Group via Getty Images/BBC
O maior exemplo de como a adaptação de Nolan esvazia o papel das mulheres é a ausência de Nausícaa no filme, segundo Moreno.
Na Odisseia, a jovem princesa encontra Ulisses depois do naufrágio na ilha dos feácios, acolhe o herói e lhe oferece a possibilidade de começar uma nova vida.
"A Nausícaa oferece para Ulisses uma comunidade maravilhosa, um reino maravilhoso", explica Moreno.
Segundo o professor, a princesa se apaixona pelo herói, enquanto o próprio pai sugere que gostaria de tê-lo como genro.
Mas, mesmo diante da oportunidade de permanecer em um reino próspero e recomeçar a vida, Ulisses decide partir.
"Ele se despede numa cena delicadíssima e volta para Ítaca."
Para Moreno, retirar Nausícaa da adaptação "foi o maior crime de todos" e elimina o último teste vivido por Ulisses antes de chegar em casa.
O que Nolan deixou pelo caminho
Atores Matt Damon e Zendaya interpretam Ulisses e Atena no filme, mas a forma como são retratados alteram a 'essência de Odisseia' segundo Moreno
Universal Studios
As mudanças promovidas por Nolan vão além das personagens femininas e alteram a essência da Odisseia, avalia Cláudio Moreno.

Segundo ele, o filme privilegia a dimensão visual da jornada de Ulisses — as batalhas, os cenários e os efeitos especiais — em detrimento dos elementos que dariam profundidade à obra original.
"Virou uma história de aventura, de maravilhosas paisagens, efeitos. Mas pouca coisa ele acrescentou. Na verdade, ele desperdiçou. Ele fez uma viagem junto com Ulisses, não pegando o que era importante", afirma.
O professor reconhece que um filme de grande orçamento precisa lidar com as exigências do cinema comercial e com as expectativas do público, mas diz que, ao adaptar a epopeia, Nolan teria perdido justamente os aspectos que tornam a obra única.
"Aquilo que a Odisseia tem de coisas importantes sobre a vida, sobre tudo, tudo ele apagou", afirma Moreno.
Entre os elementos que, de acordo com ele, ficaram pelo caminho está a dimensão humana do personagem.

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