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Brasil e Argentina já estiveram em guerra?

Caçadores brasileiros repelindo a cavalaria argentina na Batalha de Passo do Rosário, em tela de José Washt Rodrigues de 1937
Domínio público
A rivalidade entre brasileiros e argentinos é recheada de episódios que transcendem as piadas, as provocações de parte a parte e o mundo do futebol.

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Muito antes das rusgas provocadas por declarações públicas do atual presidente de direita radical Javier Milei, os dois mais importantes países sul-americanos já lutaram em lados opostos em duas guerras, viveram tensões por conta de fronteiras e um século 20 de constantes estranhamentos e atritos — praticamente uma longa guerra fria, só plena e oficialmente pacificada com a assinatura do tratado que criaria o Mercosul, em 1991.
"Conflitos entre Brasil e Argentina remetem ao período em que ambos os países ainda não eram nações, quando portugueses e espanhóis, colonos, bandeirantes, jesuítas e povos originários, já conflitavam acerca de interesses principalmente na região da Bacia do Prata", lembra o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie.
"Brasil e Argentina já estiveram em guerra, e foram duas", afirma o historiador Fábio Ferreira, professor na Universidade Federal Fluminense (UFF) e criador do canal no YouTube e da revista Tema Livre.

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Mas ele faz uma ressalva importante: na época, a Argentina ainda não era um Estado nacional constituído como hoje — e o Brasil era um império.
A primeira guerra de fato entre os dois países remonta a uma época em que o Brasil era um império recém-independente de Portugal e a Argentina ainda não havia se organizado em um Estado federativo — vivia uma longa guerra civil, concluída apenas em 1861 em consequência da sua independência da Espanha. Desta forma, oficialmente a contenda foi protagonizada pelo Império do Brasil contra as Províncias Unidas do Rio da Prata.
Embarque da Divisão de Voluntários Reais para a Cisplatina em 1816, em tela de Debret feita em1825
Domínio público
O Uruguai como tampão
Esta pioneira disputa bélica entre Brasil e Argentina foi a Guerra da Cisplatina. Historiadores argentinos, aliás, costumam chamar o episódio de Guerra do Brasil ou de Guerra Argentino-Brasileira. O episódio ocorreu entre 1825 e 1828. Em disputa, estava o controle da Província Cisplatina, território hoje correspondente em grande parte ao Uruguai.
Em linhas gerais, a raiz da questão está no fato de que a Cisplatina havia sido incorporada pelo então Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1821.
"A região estava em processo de intensa guerra civil desde 1810", diz Ferreira. O governo português havia conquistado a região porque se preocupava tanto com a navegação nos rios de lá quanto com a "própria integridade territorial" do Brasil, pontua o historiador. Os portugueses se aliaram com elites locais e puseram um governador em Montevidéu.
"Com a Independência do Brasil, houve uma divisão: para onde iria a Cisplatina", conta Ferreira. "Diversos grupos não queriam a manutenção do vínculo com o Império do Brasil."
Mas a anexação da região se manteve depois da independência brasileira de Portugal. Em 1825, contudo, uma insurreição sulista, organizada por um grupo chamado de Trinta e Três Orientais, proclamou a separação da província.
Ferreira explica que houve apoio do governo de Buenos Aires e campanhas militares buscando essa desvinculação do império brasileiro. Depois de apenas observar por um tempo, o imperador Pedro 1º (1798-1834) declarou guerra aos argentinos.
Passagem do Tonelero durante a Guerra do Prata (1851-52), em tela de Eduardo de Martino feita em 1880
Domínio público
Pesquisador do período imperial brasileiro e autor de livros sobre personagens dessa época, o youtuber Paulo Rezzutti acredita que "a rivalidade histórica entre Espanha e Portugal" pelo controle do Rio da Prata acabou sendo herdada pelos países sul-americanos — e isso incensou o início do conflito cisplatino. "É a mesma rivalidade geopolítica histórica que acabou sendo incorporada pelas populações em geral", comenta ele.
Houve batalhas terrestres e operações navais no Atlântico Sul e no estuário platino. O desfecho veio com a interferência britânica — os ingleses tinham interesses comerciais no equilíbrio de poder regional. O resultado foi a criação de um novo país, o Uruguai.
"O acordo de paz, em 1828, criou o que depois se tornaria a República Oriental do Uruguai", diz Ferreira.
"Muitos chamam a solução de 'criação de um país-tampão', justamente para estancar a rivalidade entre Brasil e Argentina pelo controle da região do Prata", comenta Missiato.
Para ele, embora nenhum dos dois países tenha conquistado o território em disputa, a situação foi mais benéfica para a Argentina, que não só afastou o Brasil daquele entorno como passou a ter uma proximidade cultural e linguística maior com o novo país.
Contra Rosas
Entre 1851 e 1852, houve um novo conflito bélico que opôs Brasil e Argentina: a Guerra do Prata.

A contenda foi desencadeada pela ascensão do oficial militar Juan Manuel de Rosas (1793-1877) como ditador argentino e sua vontade de manter Paraguai e Uruguai sob suas esferas de influência, deixando o Brasil de escanteio — no horizonte de seus planos estava a eventual recriação de uma unidade política regional semelhante ao antigo Vice-Reinado da Prata.
Sob o pretexto de que isso feria a soberania do império, já que tais planos incluiriam terras da então província do Rio Grande do Sul, a corte do Rio de Janeiro declarou guerra. Formou-se uma aliança com Uruguai, Paraguai e forças argentinas contrárias ao ditador.

"Essa aliança pretendia derrubar o governo de Rosas", resume Ferreira. Depois de diversas batalhas, a de Monte Caseros, em 1852, marcou o fim da guerra, com vitória para os aliados contra os argentinos.
"Com isso, o Brasil evitou uma expansão territorial argentina que estava no radar do presidente Rosas", diz Missiato. O ditador deposto conseguiu fugir e exilou-se no Reino Unido, onde passaria o resto da vida.
Na década seguinte, ambos os países estiveram no mesmo time. Era a Guerra do Paraguai, conflito que durou de 1864 a 1870, em que Brasil, Argentina e Uruguai lutaram contra o Paraguai. Missiato lembra, entretanto, que nem tudo foi amizade entre brasileiros e argentinos — "houve conflitos diplomáticos" em diversos momentos entre os países.
Pelas fronteiras
O outro grande incidente entre os dois países data de um período em que ambos já eram Estados plenamente constituídos e republicanos.

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