Belo Horizonte – Os atendimentos relacionados a problemas com jogos e apostas cresceram 378% em um ano na rede municipal de saúde de Belo Horizonte. O número passou de 79, em 2024, para 378, em 2025, segundo dados obtidos pelo Metrópoles junto à Secretaria Municipal de Saúde.
A alta continua em 2026. Até 10 de julho, a rede já havia realizado 327 atendimentos de 207 pacientes. O volume corresponde a 86% de todos os registros contabilizados ao longo do ano passado.
Os dados da Secretaria Municipal de Saúde também mostram que o número de atendimentos (total de consultas, acolhimentos ou procedimentos) passou de 8, em 2017, para 327 até 10 de julho de 2026 — um aumento de mais de 3.900% em menos de dez anos.
Os dados consideram atendimentos registrados com os CIDs F63.0 (jogo patológico) e Z72.6 (tendência ao jogo e às apostas). No mesmo período, o número de pacientes (indivíduos únicos) atendidos saltou de 8 para 207, refletindo a crescente demanda por assistência a pessoas com diagnóstico de ludopatia e outros problemas relacionados ao jogo.
O aumento dos atendimentos acompanha a popularização das apostas on-line no Brasil e também pode ter sido influenciado pela orientação da pasta para que os profissionais registrassem esses diagnósticos com mais frequência quando identificados.
A Secretaria Municipal de Saúde afirma que o crescimento também pode estar relacionado à orientação para que os profissionais passem a registrar esses códigos sempre que identificarem problemas com apostas, ainda que essa não seja a principal razão pela qual o paciente buscou atendimento.
“Nos últimos anos, a Secretaria Municipal de Saúde tem feito uma sensibilização dos trabalhadores para incluir, nos registros de atendimento, os CIDs relacionados à ludopatia, mesmo que a motivação da demanda não tenha sido prioritariamente este transtorno”. disse a pasta, por meio de nota.
No país, 15,2 milhões de brasileiros fizeram apostas em bets autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, entre janeiro e março de 2026, segundo relatório elaborado com base em informações enviadas pelas empresas por meio do Sistema de Gestão de Apostas (Sigap). O relatório registra 15.186.243 CPFs únicos que realizaram apostas no período.
Ou seja, cerca de 8,9% da população adulta brasileira, o equivalente a quase 1 em cada 11 adultos, realizou ao menos uma aposta no período analisado.
Sinais de alerta para apostadores
Perder o controle sobre a frequência ou o valor das apostas;
Gastar quantias cada vez maiores para obter a mesma sensação de recompensa;
Tentar recuperar prejuízos fazendo novas apostas;
Comprometer dinheiro destinado a contas e despesas essenciais;
Mentir para familiares ou esconder valores e tempo gastos;
Pedir empréstimos, vender bens ou acumular dívidas para continuar jogando;
Deixar estudos, trabalho, relacionamentos ou outras atividades em segundo plano;
Apresentar ansiedade, irritação ou angústia ao tentar parar.
Ex-zagueiro perdeu carreira e roubou família
Uma reportagem do Metrópoles na última semana mostrou a trajetória de um ex-zagueiro profissional que perdeu a carreira, roubou a família e chegou a pensar em tirar a própria vida após desenvolver vício em apostas on-line justamente nesse período da pandemia.
Ítalo Augusto Souza Araújo, de 25 anos, contou que o futebol da tela passou a ser prioridade, em vez do futebol de campo. Ítalo passou a enxergar os treinos como um obstáculo, já que queria acompanhar os jogos em que havia apostado. O vício chegou a um ponto em que ele simulava estar machucado para sair de campo e conferir o resultado das apostas no celular.
“Já teve vez de eu falar que machuquei no meio do treino para o fisioterapeuta me tirar e eu ir para o vestiário mexer no celular para ver como estava o jogo. Também já aconteceu de a gente estar jogando uma semifinal, parar para beber água, e eu perguntar para o gandula quanto estava outro jogo, que não tinha nada a ver com o meu.”
O sonho de enriquecer
Para o sociólogo e professor Jorge Alexandre Barbosa Neves, o sucesso das apostas on-line está diretamente ligado à frustração de quem acreditou que conseguiria melhorar de vida por meio do estudo e do trabalho.
Isso porque o Brasil ampliou o acesso ao ensino superior nas últimas décadas, permitindo que mais pessoas entrassem na faculdade. Com isso, muita gente acreditou que estudar seria o caminho para conquistar um emprego melhor e aumentar a renda. Segundo o sociólogo, porém, essa expectativa não se confirmou para parte da população, já que o mercado de trabalho não criou vagas na mesma proporção para profissionais mais qualificados.
“Diante da frustração de não se ter conseguido a ascensão a partir do trabalho, do esforço, da busca, da qualificação, abre-se um desejo muito grande de conseguir isso através de um caminho meio mágico”. afirma Neves.
O especialista cita como exemplo profissionais com ensino superior que acabam aceitando empregos abaixo da própria qualificação. “As pessoas tinham expectativa de ascensão social que não se confirmou. Você hoje tem muito engenheiro dirigindo Uber, uma quantidade muito grande de engenheiros trabalhando, às vezes, como engenheiro, mas contratados como analistas”. diz o sociólogo.
“O mercado de trabalho não consegue gerar empregos de qualidade compatíveis com o aumento da qualificação da população economicamente ativa”. contou.
O sociólogo cita dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) segundo os quais 38% da população economicamente ativa desenvolve atividades abaixo do seu nível de qualificação.
Além disso, ocorreu a pandemia da Covid-19. Os dados da secretaria de saúde mostram que os atendimentos permaneceram praticamente estáveis entre 2017 e 2021, variando de seis a oito casos por ano. A primeira mudança significativa ocorreu em 2022, quando o número de atendimentos saltou de sete para 23 — um aumento de mais de 228% em relação ao ano anterior.
Quem enfrenta dificuldades para controlar as apostas pode procurar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Em situações de sofrimento emocional intenso ou pensamentos de morte, a orientação é buscar ajuda imediatamente em um serviço de saúde ou entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio emocional 24 horas por dia.
Os Jogadores Anônimos realizam reuniões gratuitas em diversas cidades do país. Em Belo Horizonte, os encontros acontecem na Sede da Abraço, na Avenida do Contorno, 4.777, no bairro Funcionários, às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h15. Não é necessário fazer inscrição: basta comparecer ao local.





