Nem todos, porém, acreditam que a diversificação geográfica seja suficiente para compensar as perdas. Fabrizio Panzini, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da Amcham Brasil, afirma que a principal diferença está no perfil dos produtos vendidos aos americanos.
Enquanto cerca de 80% das exportações brasileiras para os EUA são compostas por produtos industriais, a pauta destinada aos demais mercados é mais concentrada em commodities.
Por isso, o Brasil não consegue simplesmente compensar uma eventual perda no mercado americano com mais vendas de soja para a China. São produtos diferentes, produzidos por setores distintos da economia.
Enquanto exportadores de commodities, como carne e café, buscam ampliar as vendas para outros mercados, indústrias de máquinas, equipamentos, madeira, móveis, cerâmica e calçados afirmam que o redirecionamento é mais complexo, porque seus produtos atendem a cadeias produtivas específicas e exigem novos processos de homologação, certificação e negociação com compradores.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, avaliou que a sobretaxa agrava um cenário que já pressionava as vendas brasileiras para os EUA e aumenta a insegurança para empresas dos dois países. (leia mais nesta reportagem)
"Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre. O cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira", afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.
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Jornal Nacional/ Reprodução
O papel do Brasil nisso tudo
Para os especialistas, aproveitar novos mercados depende menos das tarifas e mais da capacidade de o país resolver problemas internos de competitividade.
Leonardo Paz defende uma política industrial baseada em inovação, produtividade e contrapartidas para empresas beneficiadas por incentivos públicos, como metas de exportação, investimentos em tecnologia e manutenção de empregos.
Ele também cita a necessidade de simplificar o sistema tributário, reduzir a burocracia no comércio exterior, melhorar a infraestrutura logística e ampliar os investimentos em educação e tecnologia.
"Na minha opinião, tornar o Brasil mais competitivo depende muito mais das mudanças internas do que do cenário externo", explica Paz.
A avaliação é compartilhada por José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Para ele, o principal obstáculo continua sendo o Custo Brasil.
"O tarifaço apenas agravou uma situação que já não vinha evoluindo. O custo de produzir no Brasil vem aumentando ao longo dos últimos anos e, com as tarifas, houve um salto repentino."
Segundo Castro, o país é competitivo em commodities, mas enfrenta dificuldades para exportar produtos manufaturados. Por isso, defende reduzir custos estruturais antes de ampliar acordos comerciais.
Uma estimativa do Movimento Brasil Competitivo (MBC), em parceria com a FGV, mostra que empresas brasileiras têm maior dificuldade para competir internacionalmente em produtos de maior valor agregado devido ao Custo Brasil: cerca de R$ 1,7 trilhão por ano — o equivalente a 19,5% do Produto Interno Bruto (PIB) — é gasto com sistema tributário, burocracia, infraestrutura e insegurança jurídica.
Para Constanza Negri Biasutti, diretora de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da CNI, as tarifas americanas aceleraram uma agenda que já era necessária: ampliar e qualificar os parceiros comerciais.
"O que estamos vivenciando neste momento é uma pressão maior para que esse movimento aconteça porque, de alguma maneira, era uma tarefa pendente do Brasil."
O desafio também é reconhecido pelo governo federal. No Plano Plurianual (PPA) 2024-2027, um dos indicadores estratégicos da política industrial é elevar as exportações brasileiras de produtos manufaturados de média-alta e alta intensidade tecnológica, que passaram de US$ 31,2 bilhões (R$ 158,8 bilhões) em 2020 para US$ 49,2 bilhões (R$ 250,42 bilhões) em 2022.
A meta é alcançar cerca de US$ 54,3 bilhões (R$ 276,38 bilhões) até 2027, refletindo a necessidade de ampliar a competitividade da indústria brasileira no mercado internacional.
Donald Trump, presidente dos EUA, durante evento da Fifa em Nova York, em 17 de julho de 2026
Reuters/Evan Vucci
Ela ressalta, porém, que diversificar não significa fechar acordos indiscriminadamente. O objetivo, segundo ela, é buscar parceiros estratégicos e aproveitar acordos recentes, como o firmado entre Mercosul e União Europeia.
"A indústria apoia essa agenda de diversificação, mas com uma premissa: exportar mais e exportar melhor", diz.
Segundo Constanza, setores industriais mais sofisticados terão maior dificuldade para substituir o mercado americano, porque dependem de exigências regulatórias específicas de cada país.
Ela cita como exemplo o setor de madeira: cerca de 45% das exportações têm os EUA como destino, e aproximadamente 80% dos embarques deverão enfrentar as novas tarifas.
Vender para os EUA não é apenas sobre receita
Mesmo com o avanço da diversificação, os especialistas afirmam que isso não reduz a importância estratégica do mercado americano para parte da indústria brasileira.
"Uma empresa que vende para os EUA abre portas no Canadá, no México, na Alemanha ou na Espanha porque demonstra que atende às exigências técnicas de um dos mercados mais rigorosos do mundo", explica o economista da Fundação Vanzolini.
Por isso, mesmo que reduzam investimentos ou adaptem suas operações, empresas que já atuam nos EUA dificilmente abandonarão completamente esse mercado.





