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Familiares relatam indignação após divulgação de relatório sobre acidente da Voepass: ‘Bem difícil de digerir’, diz filha de vítimas

Cenipa divulga resultado final da investigação sobre acidente com avião da Voepass em Vinhedo
Gabriella Ramos/g1
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nesta quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), que matou 62 pessoas em agosto de 2024.
Os familiares das vítimas tiveram acesso ao documento antes de ser divulgado durante coletiva de imprensa e relataram sentimento de indignação.
Entre os participantes da reunião estava Eduarda Hübner, que perdeu na tragédia os pais Nélvio José Hübner e Gracinda Marina Castelo da Silva. Segundo ela, a sensação é de angústia e de revolta porque o "acidente aéreo poderia ter sido evitado".
"Várias pessoas coniventes com a forma errada de lidar com tudo. Então, pra nós, assim, está sendo bem difícil de digerir isso, sabe? Meus pais eram pessoas muito corretas, cresci tendo esse exemplo dentro de casa, de fazer o certo, de lutar pelo certo, e ver que eles partiram dessa maneira", comentou.
Eduarda afirmou que irá aguardar o relatório da Polícia Federal, no inquérito que apura responsabilidades criminais no acidente, para buscar justiça. "Coisa que nesse país é muito difícil de conseguir", completou.
Nélvio e Gracinda eram casados há 25 anos
Arquivo pessoal
Por sua vez, Elizabeth Redivo, mãe da vítima Ana Caroline Redivo, também relatou sentimento de revolta e criticou a cultura da Voepass sobre a manutenção das aeronaves.
"Aquela aeronave era sucateada, ela não poderia estar no ar, ela já deveria estar no ferro-velho e continuava. Foi jogando, foi jogando, por ganância, negligência, dinheiro, enfim, ene coisas. E falta de fiscalização também", criticou.
Elizabeth ainda cobrou os órgãos fiscalizadores por uma atuação mais efetiva em relação à manutenção dos aviões. "Não adianta só ter lei, tem de ter fiscalização para essas leis", disse.
Elizabeth cobrou fiscalização de aeronaves
Reprodução/EPTV
O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente.
Em nota, a Voepass disse que a empresa vai se manifestar posteriormente, depois que tiver acesso à íntegra do documento.
'Início de um ciclo de luta'
A mãe da médica e vítima Arianne Risso, Fátima Albuquerque, afirmou que a divulgação do relatório final significa o "fim de um ciclo", mas também o "início de um ciclo de luta". Na avaliação dela, o documento confirmou falhas da Voepass.
"Mais revoltados, mais indignados, mas também mais firmes para lutar por justiça. Principalmente uma obrigação moral, cristã, de usarmos nossa dor para que novamente essa tragédia não aconteça", comentou.
Fátima endossou a avaliação do Cenipa de "cultura de normalização de desvios" e pediu para que o trabalho da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) seja reforçado.
"Aquela empresa vinha reiteradamente cometendo crimes, então tinha muitas multas. A gente precisa fortalecer a Anac no sentido de ter mais fiscalização, então precisa de mais dinheiro, precisa de mais profissionais, precisa de mais capacitação", completou.
Fátima Albuquerque pediu para que o trabalho da Anac seja reforçado
Reprodução/EPTV
Em nota, a Anac disse que a Anac irá analisar as recomendações feitas pelo Cenipa. O prazo para avaliação é de até quatro meses.
"As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil". destacou.
Como foi o processo do relatório final
Avião da Voepass teve panes em voos antes de acidente que matou 62 pessoas
Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave.
➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão:
análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo);
reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave;
exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;
análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente;
entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;
estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia;
testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;
análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos.
Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda.
Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024
Nelson Almeida/AFP
Revisão internacional
Antes da divulgação, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos.
O documento foi analisado:
pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500;
e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave.
O relatório aponta culpados?
Não. A investigação do Cenipa tem caráter preventivo e busca identificar os fatores que contribuíram para o acidente, além de emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação.
O relatório não define responsabilidades civis nem criminais.
Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP).
Divulgação/FAB
Investigação criminal também está na reta final
Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia.
No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF.

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