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Praias, manguezais e passeios com búfalos: conheça o ecoturismo de Soure, cenário de ‘No Limite’ e novela da Globo

Símbolo do arquipélago, que concentra o maior rebanho bubalino do Brasil, o búfalo segue presente na experiência oferecida aos visitantes.
Fazenda São Jerônimo
Considerada a capital do arquipélago do Marajó, formado por cerca de 3 mil ilhas e ilhotas, Soure reúne alguns dos principais atrativos turísticos da região. Entre as águas doces da Amazônia e as marés do Atlântico, o município convida o visitante a percorrer manguezais, navegar por igarapés e vivenciar os modos de vida das comunidades tradicionais. É nesse cenário que faz parte da maior faixa contínua de manguezais do planeta que o ecoturismo ajuda a apresentar a riqueza ambiental e cultural da ilha.
A riqueza desse território está diretamente ligada aos manguezais, considerados um dos ecossistemas mais importantes da costa amazônica por servirem de abrigo, alimentação e reprodução para inúmeras espécies. Essa diversidade de paisagens também ajuda a explicar por que o turismo de natureza ganha espaço em Soure, oferecendo aos visitantes oportunidades de observar a fauna, percorrer manguezais e conhecer um dos ambientes mais biodiversos da costa amazônica.
"O Marajó está contido na maior faixa contínua de manguezais protegidos do planeta. É uma região de alta biodiversidade, com espécies de aves, mamíferos, botos, baleias, as duas espécies de peixe-boi com ocorrência confirmada no Brasil, além de tartarugas e peixes. É uma floresta de manguezais com árvores de 50 metros de altura. O Marajó é riquíssimo em biodiversidade", afirma a bióloga Renata Emim, presidente e fundadora do Instituto Bicho D'Água, organização que atua no monitoramento e resgate da fauna aquática na costa paraense.
Passeio de búfalo
Fazenda São Jerônimo
Uma imersão na natureza marajoara
Uma das formas de conhecer de perto essa diversidade é na Fazenda São Jerônimo, que ganhou projeção nacional ao servir de cenário para a terceira temporada do reality No Limite e, anos depois, para as gravações da novela Amor, Eterno Amor, da TV Globo. Segundo Jerônimo Barbosa, um dos responsáveis pela propriedade, a visibilidade impulsionou a procura pelo destino e ajudou a consolidar o ecoturismo desenvolvido pela família desde o início dos anos 2000.
A proposta do passeio é apresentar um Marajó construído pela convivência entre natureza, cultura e comunidades tradicionais. Para a família Barbosa, a experiência também é uma forma de compartilhar o território onde vive há gerações. A fazenda recebeu o nome em homenagem a um dos ancestrais da família, Jerônimo Barbosa, agricultor e pescador que transmitiu conhecimentos sobre os ecossistemas marajoaras de geração em geração.
"O Marajó é muito além do búfalo." É assim que Jerônimo Barbosa, descendente do homenageado e um dos responsáveis pela fazenda, resume a proposta construída pela família ao longo de mais de duas décadas. Segundo ele, a intenção nunca foi apenas mostrar um cartão-postal, mas apresentar um território marcado por uma história ancestral e pela relação cotidiana das comunidades com a floresta, os rios e o manguezal.
O turismo começou de forma tímida, recebendo principalmente pesquisadores, biólogos e observadores de aves. Com o tempo, a família estudou ecoturismo e interpretação da natureza para transformar um antigo percurso utilizado por gerações em uma experiência capaz de despertar nos visitantes um novo olhar sobre o Marajó.
Hoje, o circuito dura cerca de duas horas e meia e reúne caminhada por mata, passeio de canoa por igarapé, travessia por floresta de mangue, praia praticamente deserta e campos naturais. O roteiro também inclui experiências como nadar e montar em búfalos, além de apresentar práticas tradicionais, como a pesca de camarão em curral, o extrativismo do turu e o uso de frutos amazônicos.
"Quando a gente sai da praia e entra no mangue, parece que entrou em um ar-condicionado", compara Jerônimo, ao explicar como a diferença de temperatura ajuda os visitantes a compreenderem, na prática, a importância desse ecossistema.
Passeio mostra a fauna e flora de Soure, que combina água doce, mar, mangue e praia
Fazenda São Jerônimo
Turismo para conservar
Quando a família adquiriu a área, na década de 1980, a paisagem era bem diferente da encontrada hoje. Segundo Jerônimo, a vegetação havia sido degradada e a fauna praticamente havia desaparecido. Ao longo das décadas, a recuperação ambiental caminhou lado a lado com a implantação do ecoturismo, favorecendo o retorno de diversas espécies e criando novas oportunidades de renda para moradores da comunidade do Tucumanduba.
Hoje, artesãos e produtores locais comercializam geleias, licores e outros produtos para os visitantes. A mudança também alcançou antigos caçadores, que passaram a atuar como guias de observação da fauna.

"Antes eles caçavam. Hoje ganham mostrando a cotia, a paca, a capivara e o camaleão para os visitantes", conta Jerônimo.
Para ele, a conservação da natureza depende, sobretudo, de quem vive no território.

"Quem mantém essa floresta em pé são justamente os moradores locais, os povos originários e as pessoas que conhecem esse território", afirma.
Para Átila Ximenes, diretor de comunicação do MUDA! Coletivo Brasileiro de Turismo Responsável, experiências como a da Fazenda São Jerônimo demonstram que é possível ampliar a visitação sem abrir mão da conservação.
"Destinos amazônicos como Soure têm um papel estratégico na consolidação de um modelo de turismo responsável no Brasil. Em áreas de alta relevância para a conservação da natureza, o planejamento da atividade precisa considerar não apenas a experiência do visitante, mas também a gestão de riscos, a segurança das operações, a capacidade de suporte e a proteção dos ecossistemas. A adoção de sistemas de gestão da segurança e de protocolos operacionais fortalece a governança do destino, qualifica a oferta turística e demonstra que é possível ampliar a visitação sem comprometer a integridade do bioma nem o bem-estar das comunidades locais."
Praia do Pesqueiro, em Soure
Prefeitura de Soure
Entre praias, marés e comunidades
Nem toda experiência de ecoturismo em Soure depende de um passeio guiado. As praias do município também permitem vivenciar a relação entre manguezais, marés e comunidades tradicionais que caracteriza a paisagem marajoara.
A cerca de 3 quilômetros do centro, a Barra Velha é a praia mais próxima da cidade e uma das portas de entrada para esse ecossistema. Cercada por manguezais, ela revela como a floresta encontra a faixa de areia em uma paisagem moldada pelo encontro entre as águas doces da Amazônia e as marés do Atlântico.
Mais adiante, a cerca de 8 quilômetros da área urbana, o Pesqueiro reúne a principal estrutura turística de Soure. À beira da praia, restaurantes servem peixes frescos, caranguejo e outros pratos da culinária marajoara, enquanto coqueiros acompanham a extensa faixa de areia, uma das preferidas de quem visita a ilha.
Praia do Céu
Prefeitura de Soure
Para quem deseja seguir viagem, a Praia do Céu faz do caminho parte da experiência. Ao longo do percurso, a paisagem alterna manguezais, campos naturais e canais onde é possível avistar búfalos, revoadas de guarás e, em alguns trechos, jacarés. A praia fica próxima à comunidade do Céu, formada por famílias que vivem da pesca artesanal e do extrativismo. A localidade integra roteiros de turismo de base comunitária da Reserva Extrativista Marinha de Soure, aproximando visitantes dos modos de vida e da relação das comunidades com esse ambiente preservado.
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