Espanha e Argentina se enfrentam na final da Copa do Mundo
AP/Mahesh Kumar A.
O nome do país é uma promessa que a terra jamais cumpriu. Argentina deriva do latim argentum, prata —o mesmo metal que batizou o Rio da Prata. Só que prata, ali, não havia.
Da corrente do oeste, vinda do Chile, nasceram Mendoza, San Juan e San Luis, na região de Cuyo —uma espécie de muralha urbana no sopé dos Andes. Já a corrente do leste, ancorada em Assunção, deu origem às cidades do litoral fluvial: Santa Fé, Corrientes e a segunda —e definitiva— Buenos Aires, refundada por Juan de Garay em 11 de junho de 1580.
Cidades em vez de plantações
Regiões como a Patagônia ficaram fora do domínio efetivo e permaneceram sob controle de povos indígenas até meados do século 19.
Carlos Martinez/via REUTERS
Havia uma lógica por trás dessa disseminação de núcleos urbanos. Ao contrário dos britânicos na América do Norte, que se apoiaram em colônias agrícolas, os espanhóis apostaram na colonização urbana: fundavam cidades e, a partir delas, organizavam o campo ao redor.
O traçado obedecia a um padrão rígido, o damero —um tabuleiro de quarteirões quadrados em torno de uma praça central, herança dos acampamentos romanos filtrada pela Espanha.
A contrapartida foi um mapa cheio de vazios. Vastas regiões como o Chaco, os Pampas e a Patagônia ficaram fora do domínio efetivo e permaneceram sob controle de povos indígenas até meados do século 19. A geografia do poder colonial, concentrada no noroeste e nas rotas de prata, deixou marcas que a Argentina levaria séculos para reescrever.
O trabalho que sustentou a colônia
Livros do escritor Raúl Mandrini sobre os povos originários argentinos
Reprodução
Nenhuma cidade se sustentava sem mão de obra indígena, e é aí que a colonização mostra sua face mais dura.
Como descreve o historiador Raúl Mandrini em 'La Argentina aborigen', os povos submetidos foram convertidos em súditos e tributários da Coroa, obrigados a pagar tributo em trabalho ou em espécie, sistema que se organizou sobretudo por meio das encomiendas.
A esse regime somava-se a mita, o trabalho por turnos que enviava homens para as minas —muitos deles arrancados dos vales Calchaquíes rumo a Potosí.
A submissão, porém, esteve longe de ser tranquila. Como registra a coleção Nueva Historia Argentina, a resposta dos povos originários ao avanço colonizador variou conforme suas características culturais, sociais e geográficas, entre a resistência aberta e a submissão —e a destruição de cerca de um terço das cidades fundadas pelos conquistadores mostra o quanto foi árduo dominá-los. No noroeste, a repressão aos diaguitas dos vales Calchaquíes se estenderia por mais de um século.
Material didático da Direção-Geral de Cultura e Educação da província de Buenos Aires reúne exemplos desse leque: de comunidades que negociaram com os encomenderos para permanecer em suas terras a confederações que pegaram em armas. Foi o caso dos diaguitas: no noroeste, a repressão aos povos dos vales Calchaquíes se estenderia por mais de um século.
Nem toda a presença europeia seguiu a mesma cartilha. Uma bula do papa Paulo 3º, a Sublimis Deus, de 1537, reconheceu formalmente os indígenas como plenamente humanos e cristãos. E, a partir do século 17, a Companhia de Jesus instalou as missões jesuíticas entre os guaranis, comunidades voltadas à evangelização e à proteção contra a escravização, no que hoje são Misiones, Corrientes e áreas vizinhas —até que a expulsão dos jesuítas dos domínios espanhóis, em 1767, encerrasse o experimento.
A ascensão de Buenos Aires
Buenos Aires foi fundada como “Nuestra Señora Santa María del Buen Ayre”
Governo de Buenos Aires/Divulgação
Por quase dois séculos, Buenos Aires foi um porto pobre e proibido. A Espanha exigia que suas colônias comerciassem apenas com a metrópole, canalizando tudo por Lima e Cádis —o que asfixiava o Rio da Prata e alimentava o contrabando, sobretudo depois que os portugueses fundaram, em 1680, a Colônia do Sacramento, bem em frente à cidade.
A virada veio com as reformas borbônicas. Em 1776, o rei Carlos 3º criou o Vice-Reinado do Rio da Prata para controlar melhor seus domínios: até então, Buenos Aires e o interior dependiam do Vice-Reinado do Peru, e a enorme distância até Lima favorecia o contrabando inglês e português.
Dois anos depois, o Regulamento e Tarifas Reais para o Comércio Livre, decreto de Carlos 3º de 12 de outubro de 1778, abriu o porto de Buenos Aires ao comércio legal com outros portos do império.
O efeito foi uma inversão histórica. A prata passou a descer pelo Atlântico em vez de subir pelos Andes: no fim do século, o metal altoperuano ainda respondia por cerca de 80% de tudo o que saía do porto de Buenos Aires. A colônia que a Espanha havia ignorado por décadas passou de forte militar a centro comercial e cabeça de um vice-reinado.
Nessa reviravolta está o embrião do país. O porto marginal virou centro; uma elite de comerciantes crioulos ganhou peso econômico e ambição política; e a mesma distância de Lima que outrora fizera do Rio da Prata um fim de mundo agora dava a Buenos Aires autonomia para pensar por conta própria.
Cinco séculos depois
Lamine Yamal e Lionel Messi se enfrentarão na final da Copa do Mundo de 2026
Claudia Greco e Jay Biggerstaff/REUTERS
Neste domingo (19), mais de dois séculos após aquela ruptura, Espanha e Argentina voltam a se encontrar —agora no gramado do MetLife Stadium, nos arredores de Nova York, na final da Copa do Mundo de 2026.
É a primeira vez que as duas seleções decidem um Mundial entre si: em 14 jogos ao longo da história, nunca haviam se cruzado em uma final, e o único duelo em Copas foi na fase de grupos de 1966, vencido pela Argentina. A Espanha, campeã em 2010, persegue o segundo título; a Argentina, atual campeã e tricampeã, quer o quarto.
Cinco séculos atrás, a relação entre os dois países se mediu em prata, tributo e na distância de um oceano. Neste domingo, se decide em 90 minutos —e, no lugar do metal que a colônia jamais encontrou em seu solo, o que está em jogo é uma taça.





