Cantora de pagode gospel relembra 15 anos de vício no crack e como música a salvou
"As pessoas passavam por mim e me chamavam de lixo. Cuspiam em mim. Parecia que a Cracolândia inteira tinha combinado de fazer a mesma coisa: me chamar de lixo e cuspir em mim. Olhavam para mim com desprezo, com nojo. E eu realmente comecei a acreditar que ia morrer ali, daquela forma, toda suja, largada. Eu sei que Deus olhou para mim com os olhos de amor que só ele tem e falou: 'para mim, você é preciosa'."
O relato é da cantora de pagode gospel Kathleen Fontoura, de 40 anos, moradora da Zona Norte de São Paulo, que viralizou recentemente nas redes sociais com vídeos cantando na Avenida Paulista.
Kathleen viveu 15 anos no vício das drogas, principalmente do crack, e morou por três anos na Cracolândia. Em entrevista ao g1, ela relembrou a rotina durante o vício e contou como a música ajudou a transformar a própria vida.
"Deus foi permitindo que eu tentasse fazer do meu jeito para que eu entendesse que, da minha forma, nunca daria certo."
Ao mesmo tempo, ela diz que começou a perceber mudanças no ambiente em que vivia.
"Pessoas que antes conversavam comigo passaram a me olhar diferente. Eu comecei a ouvir coisas e entender que, ou eu saía daquela vida, ou ia morrer. Eu ia para outras biqueiras achando que seria diferente, mas tudo parecia me pressionar".
Foi nesse período que viveu um dos momentos mais marcantes da trajetória. Kathleen conta que acordou deitada sobre uma caçamba de lixo na Cracolândia.
"Quando parei para olhar ao meu redor, eu estava deitada numa caçamba de lixo. Tinha sacos de lixo, lodo, pombos. Naquele momento, comecei a lembrar de tudo o que eu já tinha sido. Lembrei da minha cama, da geladeira cheia, do banho quente, dos meus amigos, dos meus primos. E pensei: 'de tudo o que eu já fui um dia, hoje eu sou um lixo. Minha vida acabou aqui. Eu vou morrer aqui'.
O pagode Kathleen Fontoura, de 40 anos, durante apresentação de pagode gospel em São Paulo
Arquivo Pessoal
Kathleen diz que um dia, sentada na Cracolândia, não conseguia se levantar quando orou para que alguém fosse buscá-la.
"De repente eu comecei a ouvir o som do pagode e o canto: 'Ele não desiste de você. Ele se importa com você. Ele compreende seu caminhar. Nunca vi um amor tão grande assim'. Então, eu ouvi o pessoal entrando com samba na Cracolândia, o cavaco com pandeiro, e na mesma hora eu consegui me levantar e sair daquela calçada. Eu fui até eles naquele dia e eu fui resgatada".
A cantora diz que faz 9 anos que não usa drogas e há 5 anos canta pagode gospel para compartilhar a própria história e incentivar outras pessoas que vivem a dependência química.
Cantora de pagode gospel Kathleen Fontoura, de 40 anos, durante ação social em SP
Arquivo Pessoal
"Eu tenho o projeto Craco Help em que eu voltei na Cracolândia e biqueiras, mas com o objetivo de ajudar essas pessoas. Inclusive, eu encontrei pessoas que estavam desde a minha época, muitos que perderam os pés, as mãos, a visão por conta do crack. E disse que se eu consegui, eles também vão conseguir. É assim que quero seguir, ajudando".
"Não desistam das vidas. A Cracolândia em si, o fluxo, não existe mais, mas existem vários pontos na cidade de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. Existem os pontos de droga e a gente não pode desistir dessas pessoas. A gente não pode olhar mais para uma pessoa dependente química e falar para ela: 'esse aí não tem jeito'. Pode não ter jeito para nós, para a nossa força, mas pelo poder de Deus nada é impossível".
Kathleen Fontoura, de 40 anos, cantora de pagode gospel em SP
Arquivo Pessoal
Kathleen Fontoura, de 40 anos, cantora de pagode gospel em SP
Arquivo Pessoal
Cantora de pagode gospel Kathleen Fontoura, de 40 anos, durante ação social em SP
Arquivo Pessoal





