O estratagema de Penélope de tecer uma mortalha para o sogro, Laertes, e desfazer o trabalho todas as noites é um dos episódios mais marcantes do poema. Em certo sentido, ela é um alvo em constante movimento: seu sucesso em manter os pretendentes afastados terá impacto direto sobre a capacidade de Odisseu de recuperar o trono.
É significativo que a principal aliada de Odisseu entre as divindades seja uma deusa. Atena, a deusa da sabedoria e da estratégia, o ajuda desde a Guerra de Troia e lidera os esforços para levá-lo de volta para casa.
Mais tarde, quando ele chega exausto e vulnerável à terra dos feácios, um povo de navegadores, é Atena quem organiza seu resgate. Ela esconde a aparência abatida dele e faz com que pareça divina, digna da hospitalidade daquele povo, que lhe oferece abrigo e o leva de volta à Ítaca.
O canto hipnotizante das sereias atraía os homens para a morte
Getty Images via BBC
Isso ajuda Odisseu a conquistar a confiança dos feácios, um povo de navegadores, que lhe oferece abrigo, tesouros e uma viagem segura de volta a Ítaca.
Não por acaso, na maioria das vezes em que aparece diante de Odisseu e de seu filho, Telêmaco, Atena assume a aparência de um homem. Em diferentes momentos, ela se apresenta, por exemplo, como Mentes, um rei aliado de Ítaca, e como um arauto dos feácios. Atena sabe muito bem que, entre os mortais, o poder está nas mãos dos homens, mas mostra que são as mulheres que, muitas vezes, mudam o rumo dos acontecimentos.
Basta observar as personagens que Odisseu encontra ao longo da viagem. Depois de chegar à terra dos feácios, ele relata aos anfitriões as aventuras que viveu até então, dos lotófagos (comedores de lótus) aos ciclopes. Entre essas histórias, os encontros com figuras femininas míticas costumam ser os mais inquietantes justamente porque, à primeira vista, elas parecem inofensivas.
Aparências sedutoras
Odisseu conta aos anfitriões que desejava ouvir o canto das sereias, que viviam em uma ilha isolada e cercada por rochedos perigosos no mar ocidental. Na tradição posterior e na arte grega, as sereias passaram a ser representadas como mulheres com corpo de ave ou como sereias de cauda de peixe. Em seu relato, Odisseu destaca sobretudo o canto de doçura irresistível, capaz de seduzir os homens e levá-los à morte.
Em A Odisseia, de Homero, a feiticeira Circe esconde seus poderes mágicos
Alamy via BBC
Diante das sereias havia um campo coberto pelos ossos dos muitos homens que, no passado, haviam parado para ouvir seu canto. Odisseu decide correr o risco: ordena que seus companheiros o amarrem ao mastro do navio para que não pudesse se lançar ao mar em busca daquela melodia hipnotizante. Por mais belo que fosse, o canto das sereias levava à morte.
Circe era outra beleza perigosa. Poucos a consideravam uma ameaça ao conhecê-la, mas, assim como as sereias, sua aparência dócil escondia poderes mágicos. Homero a retrata como uma feiticeira, capaz de usar ervas e poções para transformar os companheiros de Odisseu em porcos.
Como acontece com muitas das criaturas extraordinárias que Odisseu encontra em sua jornada, Circe tanto atrapalha quanto ajuda Odisseu. Embora faça dele seu amante, também torna possível sua descida ao mundo dos mortos, onde ele encontra o profeta Tirésias, que lhe oferece conselhos para a viagem de volta à Ítaca.
A mensagem que atravessa o poema é que monstros femininos e ninfas sedutoras não podem simplesmente ser ignorados. Para vencer, Odisseu precisa, até certo ponto, ceder a elas, mas sem ir longe demais. As figuras que encontra ao longo do caminho colocam repetidamente à prova sua determinação e sua capacidade de agir com moderação, uma virtude altamente valorizada pelos antigos gregos.
É justamente a vulnerabilidade de Odisseu que faz dele um herói tão humano
Getty Images via BBC
Os leitores que olham essas aventuras com ceticismo e suspeitam que elas sejam pura invenção, histórias criadas por Odisseu para conquistar a confiança dos feácios e convencê-los a levá-lo de volta a Ítaca, talvez sejam justamente os mais propensos a aceitar essa interpretação alegórica. Nesse caso, Odisseu talvez não estivesse enfrentando monstros reais, mas seus próprios demônios interiores, muitos deles muito mais traiçoeiros do que aparentavam.
A fluidez dos relatos de Odisseu, como sua grandiosidade, riqueza de detalhes e capacidade de desafiar os limites da credibilidade, é parte essencial do fascínio do poema. É também o que faz dele um herói singular. Como escreve Emily Wilson em sua tradução, ele é "um homem complexo [ou complicado]". Astuto e multifacetado, Odisseu é mestre no engano e muda de identidade e de versão dos fatos conforme lhe convém.
Inteligente, criativo e cheio de falhas, Odisseu é, no fim das contas, o herói mais humano da Grécia Antiga. Sua vulnerabilidade às seduções das mulheres, e de mundos magníficos como o dos feácios, é ao mesmo tempo, sua maior força e sua maior fraqueza. Não é por acaso que a sua história ainda desperta o interesse dos leitores.





