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Dentro do armário, a hipocrisia como projeto de poder

Existe uma história pouco lembrada que começou nos Estados Unidos, no fim dos anos 1980, e que continua atravessando o debate público até hoje. Ela não nasceu para discutir sexualidade. Nasceu para discutir poder. Diante da repetição de casos envolvendo políticos, líderes religiosos e outras figuras públicas que combatiam direitos da população LGBT enquanto eram apontados por viver, em segredo, experiências incompatíveis com o discurso que sustentavam, jornalistas e ativistas passaram a defender uma pergunta incômoda: a privacidade continua sendo apenas um assunto privado quando ela serve de sustentação para um projeto político baseado na perseguição de outras pessoas? Aquele debate ficou conhecido como outing e dividiu juristas, intelectuais, movimentos sociais e a própria comunidade LGBT. Quase 40 anos depois, a pergunta permanece aberta.
Ela voltou a aparecer no Brasil depois da reportagem publicada pelo Metrópoles, segundo a qual uma mulher trans acusa um empresário conhecido nacionalmente pela associação de sua marca ao bolsonarismo de não pagar por um programa, além de fazer ameaças e praticar transfobia. As acusações foram registradas e deverão ser esclarecidas pelas autoridades competentes, assegurando ao acusado todas as garantias constitucionais, inclusive o direito à ampla defesa e ao contraditório. Ainda assim, bastaram poucas horas para que uma palavra se tornasse dominante nas redes sociais: hipocrisia.
O que mobilizou o debate foi a possibilidade de existir uma distância entre determinados discursos públicos e determinadas condutas privadas. Foi essa percepção que fez a palavra “hipocrisia” ocupar o centro da conversa.
Vale insistir em um ponto que costuma desaparecer quando esse tema ganha repercussão: o problema nunca foi a orientação sexual de ninguém, tampouco a identidade de gênero das pessoas com quem alguém decide se relacionar. Democracias não entram em crise porque adultos consentem em viver seus afetos. Sociedades não adoecem por causa do desejo. O desejo, por si só, nunca retirou direitos de ninguém. A história mostra outra coisa.
Ao longo das últimas décadas, diferentes países assistiram a políticos que fizeram carreira atacando pessoas LGBT e depois foram confrontados por episódios que colocaram em dúvida a coerência entre aquilo que defendiam em público e aquilo que viviam em privado. O mesmo aconteceu com líderes religiosos que transformaram a sexualidade alheia em tema permanente de sermões, embora alguns deles tenham sido posteriormente envolvidos em situações semelhantes às que condenavam. Também ocorreu com empresários e influenciadores que descobriram nas chamadas guerras culturais uma forma eficiente de construir reputação, audiência e poder.

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