Montagem mostra uma representação da molécula de eritrulose sobre uma imagem do centro da Via Láctea.
Izaskun Jimenez-Serra
Uma equipe internacional de astrônomos identificou, pela primeira vez, açúcar fora do Sistema Solar. A substância, chamada eritrulose, foi detectada em uma imensa nuvem de gás e poeira situada perto do centro da Via Láctea, a cerca de 26 mil anos-luz da Terra.
O estudo foi publicado nesta segunda-feira (13) na revista científica "Nature Astronomy".
📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia
➡️ A eritrulose é um açúcar formado por quatro átomos de carbono. Ela pertence à mesma ampla família de moléculas de outros açúcares essenciais à vida, que podem fornecer energia, formar estruturas biológicas e integrar o material genético. O DNA, por exemplo, contém desoxirribose, e o RNA, ribose.
🍓 Na Terra, ela é conhecida por estar presente, por exemplo, em frutas vermelhas como a framboesa e o morango.
Até agora, cientistas já haviam encontrado moléculas parecidas com açúcares no espaço, como o glicolaldeído, mas nenhuma delas era, tecnicamente, um açúcar de verdade.
Segundo os pesquisadores, moléculas como a eritrulose podem ter se formado ainda na nuvem que deu origem ao próprio Sistema Solar, antes mesmo de o Sol e os planetas existirem, e depois terem sido transportadas por cometas e asteroides até a Terra primitiva.
"Este trabalho não resolve o problema da origem da vida nem a origem de moléculas como o DNA ou o RNA. É necessário ter muito cuidado com as extrapolações, mas trata-se de uma descoberta nova, muito relevante e extremamente interessante", pondera César Menor Salván, astrobiólogo e professor de Bioquímica da Universidade de Alcalá, que não participou do estudo, em comentário ao Science Media Centre Espanha.
A formação da eritrulose no espaço lembra um pouco a montagem de um brinquedo de encaixe: peças menores e mais simples, presentes em grande quantidade, se juntam aos poucos sobre a superfície de grãos gelados até formar uma estrutura mais complexa.
Segundo o estudo, essas "peças" são o glicolaldeído e o etilenoglicol, duas moléculas simples e abundantes na mesma nuvem espacial.
É justamente esse processo — repetido ao longo de milhões de anos em diferentes nuvens da galáxia — que sustenta a ideia de que açúcares e outras moléculas essenciais à vida podem surgir naturalmente no espaço, muito antes de qualquer planeta existir para abrigá-los.
E segundo uma estimativa apresentada pela equipe, entre 0,5 e 50 milhões de toneladas de eritrulose podem ter chegado à superfície da Terra primitiva durante o chamado Bombardeio Pesado Tardio, período de intensas colisões de cometas e asteroides ocorrido entre 4,1 e 3,8 bilhões de anos atrás.
Nossa pesquisa mostra que essas moléculas complexas podem ser mais comuns no Universo do que se pensava anteriormente, abrindo a possibilidade de que outros mundos desenvolvam vida como a conhecemos.
Fotógrafo do RS faz imagem incrível de cometa 'mais brilhante do ano'





