Ricardo Cônti vive uma fase de múltiplos desafios na carreira. Depois de gravar uma participação na sétima temporada de Impuros, da Disney+, o ator e preparador de elenco acaba de integrar os bastidores do Festival de Parintins, onde assinou a preparação cênica dos artistas do Boi Caprichoso, campeão da edição deste ano.
Em entrevista à coluna Fábia Oliveira, Ricardo celebra o retorno às telas e reforça que a atuação segue sendo sua grande paixão. “Ser ator é o meu primeiro ofício e o que me levou para todos os outros. Sou melhor diretor, professor e preparador de elenco justamente porque sou ator, não tenho dúvidas”. afirmou.
5 imagensFechar modal.1 de 5Ricardo CôntiFoto: Joyce Braga2 de 5Ricardo CôntiFoto: Joyce Braga3 de 5Ricardo CôntiFoto: Joyce Braga4 de 5Ricardo CôntiFoto: Joyce Braga5 de 5Ricardo CôntiFoto: Joyce Braga
Ao falar da experiência em Parintins, ele se emociona ao recordar a primeira noite na arena. “Foi uma das experiências mais incríveis que já vivi. (…) Quando vi daqui de dentro o espetáculo começar a acontecer, as lágrimas jorraram no meu rosto”. lembrou.
Ricardo Cônti também comemora a publicação do livro + de 100 Monólogos para a Preparação de Atores – O Poder da Câmera, resultado de uma década de pesquisa e prática com atores. “Agora vou publicar de verdade com a editora Amaranto, a realização de mais um sonho. Estou muito feliz”. pontuou.
Leia a entrevista completa com Ricardo Cônti:
Você acaba de gravar a sétima temporada de Impuros. O que pode adiantar sobre essa participação?
Sim, Impuros é um fenômeno. Foi uma experiência incrível participar. Ser ator é o meu primeiro ofício e o que me levou para todos os outros. Sou melhor diretor, professor e preparador de elenco justamente porque sou ator, não tenho dúvidas. Sobre o personagem, é o Zézinho, mas não posso adiantar muita coisa, só que foram ótimas cenas com essa galera forte do Morro do Dendê.
Como surgiu o convite para atuar em Impuros? O que esse trabalho representa para você?
Os diretores de elenco, Marcela Altberg e Felipe Ventura, solicitaram as minhas agentes, que são a CAJU, a minha selftape (um teste por vídeo). A partir desse vídeo veio o convite para encarnar o Zezinho.
Você fez a preparação cênica dos artistas do Boi Caprichoso no Festival de Parintins. Como foi viver essa experiência?
Sim. Recebi este presente esse ano. Foi uma das experiências mais incríveis que já vivi. É impossível resumir em uma resposta a potência daquele Festival. Sei que na primeira noite que pisei na arena, estava muito nervoso, mas quando vi daqui de dentro o espetáculo a magia começar a acontecer, tudo começar a tomar forma, as batucadas tomarem aquela arena, os artistas virando Deuses da Amazônia com aqueles figurinos, cercados por alegorias de 30 metros que ganham vida, as lágrimas jorraram no meu rosto. Eu não sabia pra onde olhar e só comecei a pular junto, por duas horas e meia.
O que mais te impressionou na força artística e cultural do Festival de Parintins?
Ver a riqueza artística que existe ali, o valor dessa grandiosidade, que é muito mais Brasil que o Brasil que a maioria conhece, mas nosso povo adora copiar o que vem de fora, sem olhar com mais atenção e valorizar tudo isso que existe aqui dentro. Saber que é a comunidade que constrói esse espetáculo a tantos anos. Vivem pra isso.
Existe diferença entre preparar atores para TV e preparar artistas para um espetáculo como o de Parintins?
É muito diferente trabalhar artistas para TV, que existe uma atuação mais naturalista, para a câmera que amplia isso para uma tela de cinema. Então o exagero pode ser um excesso, é tudo mais minimalista, o tom é outro. Parintins é um espetáculo de arena, que exige uma expressão coreografada, cantada, encenada para 30 mil pessoas, é daquele tamanho. Ainda assim o ponto de partida é o mesmo, compreensão da verdade da essência de cada personagem, força do coletivo, com a essência do folclore do Boi Bumbá, tão forte no imaginário e na vivência do povo do Norte do nosso país, com a força ancestralidade indígena e tudo isso direcionado para o concepção cênica de cada noite. Não é um espetáculo, são três, cheios de variações em cada uma das três noites.
No ano passado, você preparou Gustavo Mioto e Maya Aniceto para uma série do Globoplay. Como foi esse processo? Eles chegaram inseguros por não serem atores de formação?
Foi incrível trabalhar como o Gustavo e a Maya. Eles foram incríveis. Foi um processo rápido e intenso, exatamente como o formato vertical exige. Dois dias de leituras e preparação, mas suficiente para que os dois pudessem se afinar, ganhar a intimidade que os personagens exigiam e a conexão crucial pro trabalho fluir no set. A experiência de palco do Gustavo com grandes shows e toda a sua carreira certamente dá a ele alguma segurança para aceitar esse desafio, não senti que estava inseguro. E a Maya já tem mais experiência, fez bastante teatro, é atriz profissional, passou pelo Célia Helena, CAL e muitos cursos e trabalhos no seu histórico.
O que um bom preparador de elenco consegue despertar em um artista?
Acho que um bom preparador entende o que a direção deseja para servir da melhor forma a obra, sem a vaidade de querer dirigir. E então constrói os caminhos junto do elenco para que eles se abram para todo esse jogo. Ajudar a dar vida para o que até o momento só está no plano da ideia e vai começar a sair do papel. Tem uma magia na prática do nosso ofício onde enxergamos de repente que os personagens aparecem. Isso vem naturalmente da conexão de todos esses talentos reunidos numa sala de preparação, do trabalho de mesa, debruçados sobre o texto, dos improvidos sobre as ideias das cenas, da naturalidade obtida a partir dali para que eles estejam no set disponíveis para seguirem os caminhos que a direção pedir. O preparador pode despertar tudo isso, auxiliar na transformação do artista em personagem, na sua essência. E mesmo que 80% do que foi criado não seja usado, vai estar sempre lá, dentro de cada um deles, fazendo a diferença.
Agora você lança o livro + de 100 Monólogos para a Preparação de Atores – O Poder da Câmera. Como nasceu a ideia da publicação?
Depois de três anos como pesquisador de elenco da TV Globo, eu voltei pro mercado e para diversos projetos como preparador de elenco. Montei o estúdio em São Conrado, onde filmei e preparei muitos talentos, criava material de vídeo para atores se apresentarem ao mercado (o videobook), criei o Workshop O Poder da Câmera, que hoje acontece na CAL no Rio de Janeiro e no Célia Helena, em São Paulo.
O meu diferencial foi sempre gravar atores com os meus textos originais, criado especialmente para cada talento, compreendendo o perfil dele e o que seria melhor gravar naquele momento de vida e indo de encontro ao seu desejo e a experiência que eu trazia da TV Globo. Foram 10 anos fazendo isso e um dia, como resultado do TCC da CAL, pensando na valorização dos vídeos curtos para a preparação de atores, criei o ebook, com uma introdução ao curso, 120 monólogos para adultos e 20 para crianças. Agora vou publicar de verdade com a editora Amaranto, a realização de mais um sonho. Estou muito feliz.
O livro é voltado apenas para atores profissionais ou também pode ajudar quem está começando?
O livro é direcionado a qualquer um que tenha o desejo de praticar usando os meus monólogos para o audiovisual. Já que é através desse tipo de material que atores são chamados para testes, como aconteceu comigo em Impuros, por exemplo.
Existe algum artista que você ainda sonha em dirigir ou preparar?
Quero trabalhar com muita gente, mas vou citar o meu querido amigo Mateus Solano, para mim um dos maiores da geração dele. E vou citar uma atriz que também admiro demais, Débora Falabella.
O que o público ainda não conhece sobre Ricardo Cônti e que gostaria de mostrar nos próximos anos?
O público não conhece muita coisa, a maior parte, porque o maior sucesso do meu trabalho está nos bastidores. A grande celebração e projeção que tivemos agora com a vitória do Caprichoso gerou da nação azul e branca todo esse reconhecimento maravilhoso! Tenho recebido muitas mensagens carinhosas com a percepção de que contribuí para isso.
Quando sabem que estive com o diretor Marcelo Zambelli nessa preparação do Gustavo Mioto e da Maya, chegam elogios também. Isso tudo é maravilhoso! Eu vibro como sucesso de todos eles, que é nosso. Mas ainda tenho realizações como ator que não tive oportunidade de mostrar, as peças e filmes que tenho para escrever e dirigir, espero mostrar tudo isso. A pergunta mais linda vem do meu maior incentivador, o Francisco, meu filho, que tem 8 anos e ama esse universo: Papai, porque você não faz um filme tipo Harry Potter ou Diário de Pilar? Papai, você pode fazer uma peça para eu te ver atuando no teatro? Quando vou te ver na novela, papai?
Para ele eu posso fazer tudo isso, o que eu desejo mesmo é mostrar para ele que eu posso tudo isso sim, e tudo que faço tem muito valor pro artista que eu sou, para ele continuar sonhando e se realizando com tudo que escolher, como eu estou me realizando como o artista que nasci para ser.





