Palhaços, magos e bruxas?: Conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk
🧙♂️Muito além das batidas graves e aceleradas, o funk paulista também construiu um universo visual e simbólico próprio. Nos últimos anos, principalmente com a ascensão do chamado funk bruxaria, vertente marcada por produções sombrias, elementos de suspense e timbres intensos, DJs e MCs passaram a adotar apelidos como Bruxo, Mago, Coringa e Mandrake, criando personagens que extrapolam a música e ajudam a definir a identidade artística de cada um.
No Dia Nacional do Funk, o g1 mergulhou em um dos subgêneros que mais cresceram na cena paulista dos últimos anos para entender por que artistas passaram a adotar essas alcunhas únicas. Mais do que apelidos, esses personagens se tornaram uma marca de identidade visual e sonora por meio de um estilo que influencia a música, a moda e o audiovisual das periferias da capital até o interior paulista.
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Para isso, a reportagem foi atrás de artistas do interior de SP, especialistas da Universidade de Sorocaba (Uniso) e DJs que se apresentam na região nos próximos dias para compreender a origem das alcunhas que dominam o funk.
A data, celebrada em 12 de julho, foi oficializada no Brasil pela Lei nº 14.940 e existe para reconhecer o funk como manifestação cultural e homenageia o histórico "Baile da Pesada", realizado em 1970 no Rio de Janeiro. O ritmo, que nasceu nas periferias, destaca-se por dar voz aos jovens, gerar empregos e combater o preconceito social.
Segundo ele, o uso dessas alcunhas também ajuda o artista a se destacar em um cenário cada vez mais competitivo.
"Assim como no rap e no trap, muitos artistas criam um apelido para se destacar e mostrar sua personalidade. No funk mandelão paulista, quem manda é quem faz a batida mais alucinante (ou mais sombria), se formos pensar pelo lado do funk bruxaria. Então, o apelido de bruxo é o que faz perfeito sentido", completa o artista.
DJ Blakes e sua dançarina fantasiada de Arlequina durante show
Reprodução/Arquivo pessoal
✨Como surgiu o funk bruxaria?
O funk bruxaria é um desdobramento do mandelão paulista, um subgênero que ganhou força na Baixada Santista, na capital paulista e em todo o interior de São Paulo ao longo da década de 2010, especialmente em bailes de rua e na cultura automotiva.
A partir de 2020, durante a pandemia, milhares de jovens passaram a produzir músicas em casa utilizando softwares simples e divulgando os trabalhos por uma plataforma digital. Nesse cenário, surgiu o funk bruxaria, que levou a experimentação sonora ainda mais longe.
A crescente do gênero é comprovada por meio dos números de ouvintes. Nos últimos meses, boa parte das músicas que lideram as plataformas de streaming foram produzida em São Paulo ou por artistas paulistas. Entre o fim de 2025 e o primeiro semestre de 2026, o funk chegou a ocupar a maior parte das posições do Top 10 do Spotify Brasil e manteve presença constante entre as 50 músicas mais ouvidas do país, superando o sertanejo em diversos períodos.
O estilo incorporou sintetizadores agressivos, ruídos metálicos, risadas, sons inspirados em filmes de terror e uma atmosfera sombria, fazendo com que DJs e produtores também passassem a adotar personagens como Bruxos, Magos e Palhaços para representar essa identidade artística.
"Ela comunica que você nunca sabe o que virá a seguir e o que irá impressionar. Assim como uma mágica, comunica algo sombrio e obscuro que o público terá que buscar entender e desvendar, assim como a mensagem que for passar. Ela não é explicita, está implícita em forma de produção musical. E essa escolha veio da minha própria identificação com tudo relacionado à figura do 'Mago'", revela DJ Blakes.
Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk
Reprodução/Mile.lab
O DJ ainda conta que as figuras são a representação visual do som. "Além de toda a experiência visual, essas figuras são representações do que é o som do mandelão paulista. Em muitas músicas você escuta risadas que logo se associam a imagem dos palhaços, as batidas estridentes agudas ou extremamente graves que parecem ter saído de um filme assustador de terror, onde as figuras visuais com certeza estariam e batidas alucinantes que parecem um toque mágico tocado por um mago ao lado de seu caldeirão", completa.
O fenômeno também chegou ao interior paulista. Em Sorocaba, o DJ Will BR, que adotou o apelido de "Bruxo dos Mandelão", afirma que a identidade visual se tornou parte da experiência do funk.
"Sempre acompanhei a evolução do funk paulista e vi que, além da música, a imagem também passou a contar uma história. Quis criar uma identidade que representasse a energia do meu show e do funk bruxaria, as máscaras, os figurinos e os elementos visuais ajudam a transformar cada apresentação em uma experiência, fazendo o público lembrar do DJ Will BR não só pelo som, mas também pela presença no palco", conta.
"O funk paulista sempre buscou inovação, tanto no som quanto na estética. Esses personagens chamam atenção, despertam curiosidade e ajudam o público a identificar rapidamente um estilo musical. Hoje a imagem faz parte da cultura do movimento e fortalece ainda mais a personalidade de cada artista", completa o artista.
🃏O 'Mago dos Magos' e Mandrake, o Mágico
DJ Blakes e DJ Mandrake durante show
Reprodução/Subverso
Embora não exista um "criador oficial" do funk bruxaria, produtores como DJ K, DJ Mandrake, DJ Arana, DJ Blakes e diversos artistas ligados ao mandelão foram fundamentais para consolidar essa estética que hoje influencia não apenas a sonoridade, mas também o audiovisual, a moda e as capas dos lançamentos.
Uma característica importante é que "bruxaria" não faz referência à religião, mas sim à ideia de "fazer magia" na produção musical: criar batidas surpreendentes, imprevisíveis e capazes de hipnotizar o público.
Um dos maiores DJs e produtores musicais do Brasil, DJ Mandrake 100% Original, que influenciou diversos DJse produtores do funk de Sorocaba (SP) se tornando uma figura de referência no segmento e teve seu apelido inspirado pelo famoso personagem de quadrinhos criado em 1934 por Lee Falk, "Mandrake, o Mágico". Um ilusionista poderoso que usa poderes mentais e hipnose para combater o crime.
"Eu me inspirei no verdadeiro Mandrake. O cara que fazia mágica e hoje eu sou o cara que faz magia nos beats. Então eu sou uma reencarnação do Mandrake. Um ilusionista, um mágico, um mago, é o que eu faço aqui no meus trampos e é por isso que eu sou conhecido como o mago dos magos", conta DJ Mandrake.
"Quando eu vejo que algo está muito ultrapassado, eu vou lá e me reinvento, eu crio algo novo, então sempre vão falar: 'o Mandrake é revolucionário, o cara já revolucionou o funk e continua revolucionando'", completa.
Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista
Reprodução/Mile.lab
Por que os 'vilões' fazem tanto sucesso no funk?
Embora esses personagens tenham se consolidado como marcas do funk paulista, a escolha vai além da estética. Para estudiosos da cultura periférica, essas figuras ajudam a traduzir experiências vividas por jovens que cresceram em territórios historicamente marcados pela desigualdade e pela exclusão social.
O pesquisador, professor de Música Clássica e doutor em Funk pela Universidade de São Paulo (USP),Thiago de Souza, explica que a presença desses personagens pode ser compreendida a partir do conceito de "distinção social", desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu.
Segundo ele, grupos que vivem à margem da sociedade costumam ressignificar símbolos tradicionalmente vistos de forma negativa, transformando-os em elementos de identidade e pertencimento.
"A questão do vilão no funk é, no fundo, um jogo de distinção social, como explicou Pierre Bourdieu. Admirar o vilão é inverter, de propósito, os valores dominantes para provocar a sociedade. A população marginalizada está excluída da sociedade de consumo e vive o efeito colateral da riqueza de poucos: a pobreza de muitos", explica o Dr. Thiago de Souza.
Na prática, essa inversão acontece porque a periferia convive diariamente com desigualdades econômicas e sociais. Para o pesquisador, personagens como o Coringa deixam de representar apenas o antagonista das histórias em quadrinhos e passam a simbolizar alguém que desafia uma ordem considerada injusta.
Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista
Reprodução/Equipe DJ Blakes
"Quando a sociedade é injusta, o vilão pode aparecer como uma espécie de justiceiro, ou até de herói. O Coringa é um bom exemplo. No filme com Joaquin Phoenix, vemos como nasce o vilão que depois será condenado pela própria sociedade, o vilão não surge do nada: ele é produzido por uma sociedade violenta e desigual, e não um ser essencialmente mau", completa.
Essa leitura ajuda a explicar por que a figura do palhaço ganhou espaço não apenas no funk paulista, mas também em outras manifestações culturais produzidas por jovens das periferias. Segundo o pesquisador, essa apropriação simbólica faz parte de um processo maior de construção de identidade.
Em grupos historicamente marginalizados, personagens e referências da cultura pop passam a representar resistência, força e pertencimento. Ao mesmo tempo que reconhece que essa ressignificação pode reforçar preconceitos contra o movimento.
"Muitas vezes, a admiração pelo vilão acaba alimentando o estigma do funk para quem vê de fora. Enquanto a mídia costuma condenar a figura do bandido, no funk a expressão 'de bandido' pode significar beleza, imponência, estilo e até excelência vocal. Explicar essa inversão simbólica para quem não conhece esse universo nem sempre é simples", diz.
De acordo com o DJ WILL BR, uma das principais finalidades dessa identidade visual não é sobre representar um personagem específico, mas criar uma atmosfera. "Os elementos do funk paulista simbolizam atitude, mistério, impacto e autenticidade [.] A identidade visual desperta curiosidade e faz as pessoas lembrarem do artista. Quando ela está alinhada com a música, cria uma conexão muito mais forte e o público passa a acompanhar não só as músicas, mas toda a proposta e a personalidade que o artista transmite", afirma.
A doutora em Multimeios e professora da Universidade de Sorocaba (Uniso), Thífani Postali, afirma que esses símbolos precisam ser analisados dentro do contexto em que surgem. As identidades culturais são construídas justamente a partir da diferença em relação à cultura dominante, e os personagens escolhidos pelos artistas fazem parte desse processo de criação de narrativas próprias.
Segundo a pesquisadora, compreender o significado desses símbolos é fundamental para combater interpretações equivocadas sobre o gênero. "As identidades são formadas a partir da diferença, daquilo que não é hegemônico. O funk é um movimento cultural em que jovens periféricos encontraram uma forma de criar suas próprias histórias, linguagens e modos de vida", conta.
"Eu tenho preconceito principalmente sobre aquilo que eu não conheço. É preciso compreender as culturas das periferias e o significado desses elementos para que essas manifestações façam sentido também para quem está de fora", completa a pesquisadora.
Palhaços, magos e bruxas?: conheça a simbologia por trás das alcunhas que dominam o funk paulista
Reprodução/Mile.lab
Direito à fantasia
Se para os DJs e MCs os personagens ajudam a construir uma identidade artística, para quem cria arte por meio da cultura periférica essas figuras carregam um significado ainda mais profundo.





