Principal adversário de si, Flávio Bolsonaro não para de aprontar. Só tem marcado gol contra – e apanha forte dos seus. De sua madrasta Michelle, de seus aliados e, mais frequentemente, de seus próprios atos, não raro desastrosos. Um rol sem fim que inclui desde as mentiras ditas antes de ser flagrado em bate-papos com Daniel Vorcaro sobre a quitação de parcelas dos R$ 134 milhões supostamente para custear o filme sobre o papai Jair às cartas remetidas ao governo dos Estados Unidos. E muito mais. Um dia após outro crava saraivadas de tiros nos pés.
Na missiva ao Tio Sam enviada em meados de junho, o pré-candidato anunciou que, se eleito, teria uma equipe de transição à disposição de Donald Trump. Recebeu elogios e agradecimentos do secretário de Estado norte-americano Marco Rubio e amontoados de críticas no Brasil. Quinta-feira passada, em documento dirigido ao USTR, escritório de comércio do governo norte-americano responsável pela sugestão de um novo pacote sanções ao Brasil, o senador se superou: não pediu o fim, mas o adiamento para depois das eleições das novas tarifas de até 25%, justificando que ao impô-las agora, Trump estaria ajudando o inimigo Lula. Para não deixar dúvidas, anexou pesquisas de opinião sobre os efeitos deletérios do primeiro tarifaço na sua campanha. Acresceu a sabujice de citar em primeiro lugar os danos provocados pelas tarifas à economia dos Estados Unidos para, só depois, incluir o Brasil e os brasileiros.
Nas 90 páginas que dão o tom do que pretende dizer nos cinco minutos que terá na terça-feira, 7, durante audiência pública no USTR, Flávio apronta mais. Abre a guarda – ou em linguagem direta, as pernas – a todas as reivindicações dos Estados Unidos, incluindo as sem pé nem cabeça. Fala de corrupção, elencando políticos governistas e ministros do Supremo enrolados no caso Master, sem qualquer menção aos seus apelos à Vorcaro por dinheiro. Diz que pretende acabar com as “amarras do Mercosul”, afrouxar regras e desonerar os cartões de crédito, setor que o governo Trump considera ter sido prejudicado pelo Pix.
O pré-candidato até defende o Pix, mas acena com limitação da ferramenta em operações transnacionais – e mente. Afirma que o mecanismo foi criado pelo seu pai quando na verdade foi desenvolvido pela área técnica do Banco Central no governo Michel Temer, com início operacional em 2020, quando Bolsonaro, hoje condenado e preso, era presidente.
Um episódio hilário comprova isso. Na data de lançamento do Pix, entre os apoiadores que costumavam se concentrar no “cercadinho” montado à frente do Palácio do Alvorada, alguém agradeceu o ex pela nova ferramenta. Bolsonaro achou que se tratava da sigla de um benefício que pretendia implantar na área da aviação civil para facilitar a retirada de brevê. Corrigido pelo admirador que tinha levantado a bola para o ex chutar, demonstrou desconhecê-la: “Não tomei conhecimento. Vou conversar esta semana com o Roberto Campos”. referindo-se ao então presidente do BC.
Flávio, que puxou para si os louros sobre a controversa decisão dos Estados Unidos de nomear as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, teve outro dissabor na semana. Na quinta-feira, o governo Trump inaugurou as sanções impondo restrições ao mercado americano a dois brasileiros por envolvimento com o PCC: Victor Shimada e sua secretária, Stella Stefanie. A medida surpreendeu a Polícia Federal, que monitorava ambos no âmbito da Operação Exchange, cujas investigações, iniciadas nos Estados Unidos, corriam em regime de cooperação entre os dois países e em sigilo. A decisão unilateral americana serviu de alerta aos criminosos. Shimada fugiu e a PF teve de antecipar ações para evitar novas evasões.
Dos Estados Unidos também vieram outros autoproblemas criados por apoiadores para a campanha de Flávio. Além do irmão Eduardo, deputado cassado e autoexilado no Texas, que insiste em antagonizar aliados, o blogueiro Paulo Figueiredo pôs querosene na fogueira em que o clã arde com a ruptura de Michelle com o Zero Um, com o PL Mulher e com a candidatura ao Senado do DF, tida como barbada.
Em grotesco desprezo às mulheres, público decisivo em qualquer eleição, ele disparou sua ignorância e misoginia: “Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras, as casadas costumam acompanhar o marido”. Filho do general João Figueiredo, último presidente da ditadura militar, Paulo é um dos mais próximos assessores de Flávio. Pode ser visto postado entre os irmãos Zero Um e Zero Três no centro da foto com Trump, no Salão Oval.
Flávio está de novo nos Estados Unidos. Há quem aposte que neste domingo ele vá ao jogo Brasil x Noruega pelas Oitavas de Final da Copa. Por aqui, gente da sua campanha torce para que o senador não se renda à tentação. E implora para que ele se concentre no Brasil, em especial nos estados em que o pré-candidato ainda não tem palanque, como no Rio de Janeiro, berço do bolsonarismo.
A menos de 100 dias da eleição e com os Estados Unidos no centro da campanha, por enquanto vale a frase bem-humorada e rascante que circulou nas redes sociais: “Em outubro, o Brasil terá de escolher entre Lula e Marco Rubio.
Mary Zaidan é jornalista





