Moedas sociais ganham espaço como estratégia de desenvolvimento econômico na Bahia
O dinheiro é, para muitos, o que dita o ritmo da rotina do dia a dia: é o que garante a comida na mesa, os momentos de lazer e o planejamento do futuro. Mas e se essa forma de pagamento mudasse? Já pensou em comprar o pão do café com "Concha" ou pagar o salão de beleza com "Guaraná"? E não daqueles que se encontra na praia ou em árvores. Essas são moedas sociais.
O termo é curioso e se refere a uma estratégia de economia solidária, usada com o objetivo de movimentar a renda local das comunidades. Com circulação restrita, esse modelo visa manter os recursos dentro do próprio território.
O sistema tem paridade ao Real e é gerido por bancos comunitários. Atualmente, as moedas comunitárias já alcançam desde pequenos distritos no sertão até bairros de Salvador. Servem como ferramenta de auxílio financeiro e também incentivam o consumo interno da região, nos mercados e serviços locais.
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O superintendente de Economia Solidária e Cooperativismo da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre-BA), José Paulo Crisóstomo, explica que as moedas sociais têm circulação restrita e um objetivo nobre: "Tem justamente como foco principal a questão da redução da pobreza".
🏦 O que são bancos comunitários?
Os bancos comunitários fazem parte do movimento de Economia Solidária, constituindo práticas de finanças baseadas na gestão de serviço financeiros em comunidades empobrecidas. Essas estruturas atuam através de processos de desenvolvimento comunitário, articulando diferentes mecanismos de inovação social, em forma de:
moeda social: o banco emite sua própria moeda (física ou digital) que circula em comércios locais cadastrados, incentivando o consumo no bairro;
microcrédito produtivo: oferecem empréstimos com juros muito baixos ou zero para empreendedores locais, baseados na confiança e no "aval solidário" (vizinhos garantindo o pagamento);
gestão comunitária: são administrados por associações de moradores ou ONGs, não visando lucro, mas o desenvolvimento do território.
O ciclo funciona da seguinte forma: o banco comunitário emite as moedas sociais e as lançam no território por meio de microcrédito, remuneração, pagamento de benefícios sociais ou no câmbio pelo real para que a população possa utilizá-la na comunidade.
As pessoas podem comprar produtos e serviços no pontos de comércio local, que são cadastrados pelo banco comunitário. Quando o estabelecimento ou prestador do serviço recebe a moeda social, ele tem a opção de dar troco aos seus clientes e comprar outros produtos ou trocar o valor equivalente por real, fazendo a circulação da renda dentro da própria comunidade.
Ciclo da Moeda Social: como acontece a circulação
Arte/TV Bahia
💲 Mais do que economia
Para a comunidade beneficiada, a moeda social não é só um meio de pagamento, é uma rede de apoio. Antônia Correia, moradora da Ilha de Matarandiba, em Vera Cruz, utiliza a moeda concha e reconhece o impacto disso nas finanças pessoais.
"Eu sou uma pessoa beneficiária da moeda daqui de Matarandiba, e uso a Concha com muito prazer e com muito orgulho porque me ajudou muito na minha vida. Nas horas que eu mais precisei, eu achei o apoio, a ajuda, a compreensão e me fez muito, muito bem", conta a moradora.
Antônia afirma, com apreço, que o recurso foi decisivo para realizar o sonho pessoal da casa própria. O acesso ao microcrédito e a aceitação da moeda em lojas de material de construção da própria região foram o diferencial para realizar a reforma da moradia.
"É uma benção muito grande que Deus me deu para realizar meu sonho de fazer meu barraco".
O sentimento de pertencimento e orgulho são fortes. A moeda social vai além do suporte financeiro, pois o modelo funciona também como um suporte emocional para a sociedade, levando dignidade e autonomia para a população.
"Sou beneficiária com muito prazer e muito orgulho. Agradeço muito ao banco aqui com essa moeda e meus votos são para que ele continue e fique para sempre", ressalta Antônia, beneficiária da moeda de Matarandiba há pelo menos sete anos.
🏦 Autonomia local
Moradores do bairro do Uruguai, em Salvador, usam moeda exclusiva para fazer empréstimos e movimentar economia local Reprodução/TV Bahia
A implantação de uma moeda comunitária ou social cria uma circulação interna de renda. Deste modo, o dinheiro acaba retido no munícipio ou bairro e fortalece o empreendedorismo local.
Para a coordenação de Microcrédito e Finanças Solidárias da Setre-BA, a medida gera oportunidades de empregos, dá autonomia de compra ao cidadão e reduz o endividamento da população.
"Além de fortalecer o empreendedorismo local, ele gera dignidade, cidadania, porque dá autonomia à pessoa para comprar aquilo que de fato ela precisa. Ele gera independência" , defendeu Crisóstomo.
💱 Como funciona a circulação?
A primeira moeda social reconhecida no Brasil foi a "Palma", criada em 1998 em Fortaleza, no estado do Ceará, no Conjunto Palmeiras, em parceria com o Banco Palmas.
Segundo a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia (Setre), o mecanismo da moeda social funciona de forma complementar ao Real com o objetivo de criar uma "engrenagem" própria de consumo: o morador recebe o crédito e o utiliza nos estabelecimentos credenciados, incentivando o empreendedorismo local e mantendo a renda no território.
"Uma importância dessa moeda social é que ela evita a fuga do recurso do município. Com isso, gera a oportunidade de trabalho e renda, porque se o comércio está vendendo mais, vai precisar de mais gente, vai estar vendendo e produzindo mais", pontuou José Paulo Crisóstomo, superintendente de Economia Solidária da pasta.
🏦 De onde vem?
Entre 2015 e 2025, o país registrou o fechamento de 32,9% das agências bancárias físicas. O cenário é mais crítico em cidades menores. Atualmente, 43,57% dos municípios brasileiros não possuem nenhuma agência bancária, destacou a Setre.





