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Entenda como funciona o centro tecnológico que faz testes para o pré-sal brasileiro em uma cidade sem mar

Centro de R$ 300 milhões em MG testa tecnologias que serão usadas para o pré-sal
A mais de 400 quilômetros do litoral, em uma cidade cercada por montanhas no Sul de Minas, está o Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB) — um dos projetos mais estratégicos para o futuro da exploração de petróleo, instalado na área de expansão da Universidade Federal de Itajubá (Unifei).

"No laboratório conseguimos descobrir exatamente até onde um equipamento suporta operar. Fazer isso em uma plataforma seria inviável porque envolveria riscos e interromperia a produção", afirma.
É justamente essa possibilidade de testar em ambiente controlado que reduz riscos antes da instalação no mar.

"Imagine levar um equipamento a 250 quilômetros da costa, instalá-lo a dois mil metros de profundidade e dar errado. O simples fato de já saber que ele vai funcionar reduz muito o risco. E risco, para nós, significa custo", resume a diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da Petrobras, Renata Baruzzi.
Sala de controle do Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB), em Itajubá (MG), onde operadores monitoram e comandam remotamente os testes da planta
Paloma Simonetti/g1
Ao g1, o professor Marcelo Castro, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisa que o início das operações do CTPB representa um avanço importante para a infraestrutura de pesquisa aplicada em petróleo e gás no Brasil.

Ele comenta que instalações em escala semi-industrial são muito utilizadas em vários lugares do mundo e permitem reduzir a distância entre a pesquisa de laboratório e a aplicação em campo.
"O retorno desses investimentos normalmente não é imediato nem deve ser medido apenas em termos financeiros diretos. Espera-se a formação de competências nacionais, a redução da dependência tecnológica externa, o fortalecimento da cadeia de fornecedores e ganhos de produtividade e segurança operacional ao longo de um horizonte de médio e longo prazo", explica.
🌡️ Os testes usam petróleo, água e gases reais.
🌊 A planta reproduz pressão e temperatura semelhantes às encontradas no fundo do mar.
🚢 Equipamentos são testados antes de serem instalados em plataformas a milhares de metros de profundidade.
💸 Cada teste aprovado reduz o risco de prejuízos milionários em operações.
Petrobras inaugura centro de pesquisa para explorar pré-sal em Itajubá
Primeira missão
O primeiro grande projeto que utilizará a estrutura será o HISEP (Sistema de Separação Submarina de Alta Pressão), tecnologia desenvolvida pela Petrobras para mudar a forma como parte do petróleo é processada no pré-sal.
Hoje, óleo, água e gases chegam juntos até a plataforma, onde ocorre a separação. A proposta do HISEP é antecipar parte desse processo para o próprio fundo do mar.
Com isso, o gás rico em CO₂ poderá ser reinjetado diretamente no reservatório, enquanto apenas o petróleo seguirá para a plataforma. Segundo a Petrobras, além de reduzir emissões de carbono, a tecnologia também diminui a necessidade de equipamentos na superfície e pode reduzir custos.
O primeiro equipamento do sistema ainda está em construção e passará pelos testes no CTPB antes de ser instalado em uma operação real.
Instalações do Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB), na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI)
Ascom UNIFEI
Para a diretora da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Symone Araújo, no caso do HISEP uma das principais vantagens da tecnologia é permitir que parte do processamento do gás seja feita ainda no ambiente submarino.

"Ao transferir parte desse processamento para o ambiente submarino, o HISEP tem potencial para aumentar a eficiência, reduzir o inventário de gás na plataforma, diminuir emissões, reduzir consumo energético por barril e contribuir para a viabilização de campos com alta razão gás-óleo com elevado teor de CO₂", disse Araújo.
Reconhecida pela própria ANP, a etapa de redução de riscos tecnológicos do HISEP recebeu o Prêmio ANP de Inovação Tecnológica em 2023, homenagem concedida a projetos considerados estratégicos para o setor de petróleo e gás.
🛠️ O primeiro projeto será o HISEP, tecnologia inédita da Petrobras.
🌊 A proposta é fazer parte da separação do petróleo no fundo do mar, antes de chegar à plataforma.
🌱 O sistema pode reduzir emissões de CO₂ e o consumo de energia.
Por que Itajubá?
À primeira vista, pode parecer estranho que um centro voltado ao pré-sal tenha sido construído em uma cidade sem litoral. A explicação está menos na geografia e mais na história da engenharia desenvolvida na cidade.
A parceria entre Petrobras e Unifei começou há mais de 30 anos e se intensificou com projetos de pesquisa voltados ao setor de óleo e gás. Ao longo desse período, professores e pesquisadores participaram do desenvolvimento de tecnologias que abriram caminho para a implantação do CTPB.
"Esse centro significa a inserção de Itajubá, da Unifei e de Minas Gerais na rota do petróleo. Empresas que desenvolvem equipamentos para essa indústria passarão a ter a cidade como referência para testes e desenvolvimento", afirmou o coordenador do CTPB, Marco Aurélio de Souza.
A prefeitura também aposta que o empreendimento pode fortalecer o ecossistema tecnológico já existente na cidade, pois além da geração de empregos qualificados, empresas fornecedoras e startups ligadas à cadeia de tecnologia e de equipamentos devem ser atraídas para a região.
Segundo a gestão municipal, parte desse movimento já começou. Empresas ligadas ao setor de petróleo e gás já utilizam as instalações do CTPB para realizar testes em equipamentos destinados à exploração do pré-sal.

Na avaliação da ANP, um dos principais legados do centro será justamente a formação de profissionais especializados. A agência destaca que a infraestrutura reúne pesquisadores, estudantes e empresas em um mesmo ambiente, o que fortalece a qualificação de mão de obra para o setor de energia.
"O CTPB simboliza uma convergência muito importante do ecossistema de ciência, tecnologia e de inovação: investimento regulado, desafio tecnológico real, excelência acadêmica, participação empresarial, fornecedores tecnológicos e formação de recursos humanos", disse Symone Araújo, da ANP.
Imagem aérea Unifei Itajubá
Reprodução/EPTV
O reitor da Unifei, Marcel Peroni, acredita que a demanda por profissionais será permanente.
"Sempre haverá necessidade de recursos humanos, seja na operação dos ensaios, seja na pesquisa e no desenvolvimento. São oportunidades que regularmente vão aparecer", diz.
👨‍🔬 A estrutura reúne engenheiros, pesquisadores, terceirizados e estudantes.
🎓 Novos alunos de graduação e pós-graduação devem integrar os projetos.
🤝 Universidade, empresas e governo compartilham o mesmo ambiente de pesquisa.
⚡ O centro deve formar profissionais para diversas áreas do setor de energia.
Desafio de reproduzir o fundo do mar em 'terra'
A estrutura também chama atenção pela complexidade. Os testes são realizados com petróleo e gases inflamáveis em pressões que chegam a aproximadamente 300 bar — centenas de vezes superiores às encontradas em equipamentos domésticos, como uma panela de pressão.
Segundo Marcelo Castro, da Unicamp, reproduzir essas condições exige equipamentos altamente especializados, sistemas avançados de automação e rigorosos protocolos de segurança, o que explica o investimento necessário para a construção de uma infraestrutura desse porte.
Para alcançar essas condições, a planta opera com equipamentos de grande porte projetados para suportar pressões centenas de vezes superiores às encontradas em aplicações industriais comuns. Cada ensaio é acompanhado por equipes especializadas e protocolos específicos de segurança.
Ao operar nessas condições, o centro adota protocolos semelhantes aos utilizados em plataformas de petróleo, com detectores de gás, sistemas de combate a incêndio, válvulas de segurança e estudos para simular diferentes cenários de risco.
Instalações do Centro Tecnológico para o Pré-sal Brasileiro (CTPB), na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI)
Ascom UNIFEI
Segundo os responsáveis pelo centro, o laboratório possui as licenças ambientais necessárias para funcionamento e foi projetado para minimizar possíveis impactos na área onde está instalado. Além disso, o entorno recebeu ações de recuperação ambiental, como o plantio de espécies nativas nas encostas próximas ao centro.
O pesquisador da Unicamp ressalta, porém, que o sucesso de uma estrutura como essa depende de investimentos permanentes. Segundo ele, manter uma planta experimental desse porte exige recursos contínuos para operação, atualização tecnológica e desenvolvimento de novos projetos. Sem esse financiamento, há risco de deterioração da infraestrutura em poucos anos.
Para Marcelo Castro, outro desafio será garantir que o conhecimento produzido no centro também contribua para tecnologias ligadas à transição energética, como captura e armazenamento de carbono, eficiência energética e integração com outras fontes de energia.

"Os benefícios dessas pesquisas vão além da indústria de petróleo e gás. Tecnologias desenvolvidas para ambientes extremos frequentemente encontram aplicações em outros setores, como energia, química, mineração, manufatura avançada e até mesmo na área biomédica, especialmente em sensores, novos materiais, robótica, sistemas de controle e análise de dados", disse.

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