Apesar de não ser o lar natural deles, é cada vez mais comum encontrar animais silvestres frequentando ambientes urbanos. Em alguns lugares do Brasil, a infestação de ratos, morcegos, saruês e outros bichos tem se tornado rotineira. Além disso, a presença de aves que antes eram raras, como araras e tucanos, também cresce em meio à “selva de pedra”.
A adaptação de animais dos mais variados tipos se chama sinurbização e é explicada através da plasticidade fenotípica, ou seja, a capacidade do organismo mudar de morfologia, fisiologia e ou até comportamento em resposta a estímulos ou alterações do ambiente – quanto mais facilidade em se “transformar” o bicho tiver, mais facilmente ele conseguir viver nas cidades.
Fogos em dias de jogos colocam em risco a vida de animais silvestres Minas Gerais Zoo de BH promove ação para alertar sobre tráfico de animais silvestres Ciência Reprodução de plantas pode ter acelerado evolução dos animais da Terra Ciência Suruba de minhocas: por que aparecem tantos animais depois da chuva?
Segunda a bióloga e ecóloga Morgana Bruno, os bichos generalistas (quatis, gambás, lagartos, ratos e pombos) são os que mais têm capacidade de se habituar a ambientes urbanos.
“Os generalistas possuem uma dieta mais flexível, maior facilidade para ocupar diferentes habitats e colonizam as cidades com muito mais sucesso do que as espécies especialistas – aquelas que possuem nichos ecológicos restritos”, explica a professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Morgana ainda afirma que os animais que “optam” por migrar para às cidades devem ter aptidão cognitiva elevada e ter comportamento maleável para sobreviver e conseguir se alimentar.
“Características biológicas como tamanhos corporais reduzidos e altas taxas reprodutivas aceleram a resposta evolutiva às pressões urbanas, enquanto uma boa capacidade de dispersão aérea ou terrestre facilita a movimentação entre os fragmentos de vegetação remanescentes nas cidades”, acrescenta a professora.
A bióloga Milena Bressan, da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), em São Paulo, afirma que a presença dos animais nos centros urbanos tem relação direta com a expansão urbana e a diminuição de áreas naturais.
“As espécies mais adaptáveis se aproximam de parques, áreas públicas e residências em busca de recursos para sobreviver”, diz a chefe do Departamento de Fauna In Situ e Ex Situ da Semil.
Os riscos da presença de animais silvestres nas cidades
Como é de se imaginar, a saída dos animais silvestres de seus ambientes naturais tem consequências que, muitas vezes, são negativas. A principal tem relação com as mudanças de comportamento.
Espécies que fazem vocalizações aumentam o som para competir com o ruído do trânsito, por exemplo. Outros, devido à abundância de alimentos, podem perder o medo de predadores e humanos, se tornando mais sociáveis, mas, ao mesmo tempo, mais vulneráveis.
“Embora sejam fundamentais para a sobrevivência imediata do animal, as mudanças geram graves consequências a longo prazo. O aumento de atropelamentos e conflitos, o surgimento de distúrbios metabólicos devido ao consumo de alimentos processados e uma potencial redução no sucesso reprodutivo decorrente do maior gasto energético adaptativo preocupam”, ressalta Morgana.
Além disso, a presença dos bichos silvestres pode elevar o risco de transmissão de doenças e conflitos por alimento, abrigo e predação com animais domésticos.
“É por isso que a educação ambiental é fundamental para orientar a população sobre práticas como não alimentar animais silvestres, vedar acessos a abrigos em residências e evitar interações diretas”, alerta a representante da Semil.
É possível evitar a migração animal para cidades?
Para evitar que cada vez mais animais cheguem às cidades, é preciso realizar ações em diferentes frentes, seja no ambiente natural dos bichos, quanto nas cidades. Entre as principais medidas, recomenda-se:
Conservar e recuperar habitats naturais;
Construir mais corredores ecológicos, a fim de interligar regiões florestais isoladas e promover o fluxo gênico, criando refúgio para os animais sem que eles tenham que ir para as cidades; Criar programas de incentivos fiscais para que proprietários rurais conservem e recuperem áreas degradadas ou de preservação, o que pode evitar a migração dos animais.





