Com as mãos unidas em forma de concha, o homem de cabelos brancos e chapéu tipo bucket se posta, acocorado, diante do curso d’água. O encontro com a nascente é repleto de intimidade. Enquanto o líquido fresco e límpido escorre entre os dedos, ele sorri com o orgulho de quem dedica a vida ao futuro do planeta.
Se tal aquífero existe, é porque o guardião da natureza investiu tempo e esforço em décadas de trabalho em nome do Cerrado. “A água faz parte da vida, pois foi da água que nascemos. A natureza é a casa de todos os seres vivos“. ensina.
4 imagensFechar modal.1 de 4O ecossociólogo Eugênio Eugênio Giovenardi no Sítio das NevesReprodução/Instagram2 de 4"A água faz parte da vida, pois foi da água que nascemos. A natureza é a casa de todos os seres vivos", ensina Eugênio Eugênio GiovenardiReprodução/Instagram3 de 4Eugênio Eugênio Giovenardi em curso d'água do Sítio das NevesReprodução/Instagram4 de 4Eugênio Giovenardi na placa que atesta o Sítio das Neves como a primeira área de Cerrado do DF em reserva particular do patrimônio nacional, em caráter perpétuo.Divulgação/Eugênio Giovenardi
Quiseram os deuses da floresta que o mês do Meio Ambiente — em 2026, de seca “chuvosa” no Distrito Federal — fosse celebrado no mesmo junho em que nasceu Eugenio Giovanardi. O protetor do bioma tipicamente brasiliense completa 92 anos neste domingo (28/6), tendo a conservação do ecossistema como presente.
“Há um misto de prazer, satisfação e uma espécie de dever cumprido com a natureza”. celebra Eugênio.
Ex-seminarista, o gaúcho de Casca é escritor, filósofo, teólogo, cientista social e ecossociólogo. Também consultor aposentado da Organização Internacional do Trabalho e membro da Associação Nacional de Escritores.
Brasília 66 anos: expert revela espécies únicas e raras do Cerrado Distrito Federal Pesquisadores do DF criam cosméticos com veneno de vespa do Cerrado Ciência Estudo encontra plantas rasteiras com mais de 100 anos no Cerrado Todo esse conhecimento, emprestado a 32 livros escritos e publicados, é colocado em prática também no cuidado com a natureza.
A vida dedicada à preservação se confunde com a do Sítio das Neves. Impossível contar a história deste homem sem detalhar a reconstrução natural da área de 70 hectares próxima à BR-060, na divisa entre o Distrito Federal e Goiás. É ela quem torna Eugênio um guardião do Cerrado.
O caminho das águas
A simbiose perfeita entre homem e natureza começa em 1974, dois anos após a chegada de Eugênio Giovenardi, a esposa, a jornalista e tradutora finlandesa Hilkka Mäki, e a filha, Aino Alexandra, a Brasília. É quando a família compra a área escriturada apenas como Neves.
“Parecia uma área deixada ao fogo, ao carvão e ao pisoteio de gado. Mas o que tinha de importante era o Ribeirão das Lages, que passa nos fundos. E havia dois pequenos córregos que abasteciam esse ribeirão, só que, em algum momento, eles secavam. Percebi que alguma coisa estava faltando para ajudar este pedaço de terra a se recompor”. explica.
A inspiração para a revitalização da área veio de Os Sertões, de Euclides da Cunha, livro que Eugênio lia à época. “Nele, eu aprendi que os romanos, há 3 mil anos, guardavam as águas da chuva nos oásis da Tunísia para produzir trigo às padarias de Roma. Então, meu deu um estalo: água”. conta.
Naquele momento, o gaúcho aprendia que a paisagem do Cerrado tinha duas “caras”. como ele refere: uma úmida, de outubro a março; e outra seca, de abril a outubro. “Ligando este fenômeno com a Tunísia e os romanos, encontrei a solução disto aqui. Mais adiante um pouco, tive a informação fundamental sobre o que significava o Cerrado em relação ao resto do país: era a caixa d’água do Brasil”. ressalta.
Eugênio, então, após consultar especialistas e autores especializados em conservação do meio ambiente, colocou em prática o plano que faria renascer o Sítio das Neves.
Encontrou na região oito canais de esgotamento de água da chuva e construiu pequenas barragens no declive do terreno, uma a cada 5 metros. Criou, assim, um caminho das águas, conectando-o como se fosse um leito.
“Com um ano, talvez dois, percebemos a diferença que existia entre conservar a água da chuva ou deixá-la ir embora. Passados 20, 30 anos, insistindo na montagem dessas pequenas barragens, duas nascentes intermitentes voltaram a ser perenes no período seco. As árvores demonstraram certa alegria com aquilo que elas têm de maior importância, que é a recarga dos aquíferos, ou seja, dos lagos que estão por baixo dos nossos pés”. comemora.
Área de proteção perpétua
Com a proteção de nascentes e a revitalização de toda a área, o Sítio das Neves tornou-se um lugar de natureza e biodiversidade exuberantes. Abriga mais de 360 espécies vegetais, entre lenhosas, frutíferas e gramíneas.
A fauna também encontrou por ali um ambiente seguro, capaz de proliferar e proteger diversas aves, serpentes, insetos e mamíferos, como tamanduá-bandeira, ariranha, paca e bugio.
Em 2023, quase 50 anos depois da chegada de Eugênio e família ao terreno às margens da BR-060, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e a Secretaria do Meio Ambiente do Distrito Federal transformaram o Sítio das Neves na primeira área de Cerrado do DF em reserva particular do patrimônio nacional, em caráter perpétuo.
O título, no entanto, não parou a luta de Eugênio Giovenardi, hoje avô de dois netos, na revolução ecológica.
“Faltam políticas ambientais, temos apenas leis ambientais. Temos de fazer os biomas se conservarem entre si. Faça a sua parte. Salve o Cerrado, e o Cerrado salvará, com certeza, a nossa casa comum”. educa o ecossociólogo.
Mês do Meio Ambiente
A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Dia Mundial do Meio Ambiente em 1972. A data marca a abertura da Conferência Mundial de Meio Ambiente, em Estocolmo, na Suécia.
É celebrada de várias maneiras em todo o mundo para chamar a atenção à urgente necessidade de se adotar um modelo de desenvolvimento sustentável.
O Dia Mundial do Meio Ambiente ficou estabelecido em 5 de junho.





