Uma mulher com um leque perto da Torre Eiffel durante onda de calor em Paris, em 20 de junho de 2026
REUTERS/Sarah Meyssonnier
A Europa atravessa nesta semana a sua segunda grande onda de calor em dois meses, e os recordes caem em série.
Na última quinta-feira (25), ao menos 101 milhões de pessoas enfrentaram temperaturas acima de 35°C, e cerca de dois terços da população do continente ficaram acima dos 30°C. O Reino Unido registrou seu dia de junho mais quente já medido, 36,4°C.
Segundo especialistas, as medidas adotadas ao longo de mais de duas décadas — desde a onda de calor de 2003, que matou mais de 70 mil pessoas, a maioria na França — ajudam a mostrar até onde a adaptação consegue proteger a população e em que ponto começa a falhar.
Ao longo dessas duas décadas, países europeus ampliaram suas medidas de prevenção e resposta ao calor extremo, que passaram a ser adotadas também em outras regiões.
Entre as principais medidas acionadas nas ondas de calor recentes estão, por exemplo:
alertas por níveis de risco, que acionam protocolos de saúde e podem suspender aulas;
restrições ao trabalho ao ar livre nos horários mais quentes;
abertura de espaços climatizados ou arborizados, distribuição de água e instalação de pontos de névoa;
acompanhamento de idosos e outros grupos vulneráveis por equipes de saúde;
novas formas de comunicação, como nomear ondas de calor e criar gestores públicos dedicados ao tema.
Mas para o epidemiologista Nelson Gouveia, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a peça mais eficaz desse conjunto não é o alerta meteorológico em si, mas o que vem depois dele.
Ele afirma que a busca ativa e o monitoramento das populações vulneráveis fazem a maior diferença: países que instituíram visitas e ligações regulares a idosos isolados, doentes crônicos e pessoas em situação de rua durante o calor extremo registraram queda na mortalidade, assim como aqueles que garantiram acesso gratuito e capilarizado a espaços resfriados e à água.
O tecido urbano do continente — feito de prédios históricos sem isolamento térmico moderno, projetados para reter o calor no inverno — teria se transformado numa armadilha, em que muitas vezes faz mais calor dentro de casa do que na rua.
A isso se soma o fato de que apenas cerca de 20% dos lares europeus têm ar-condicionado, e a corrida por aparelhos alimenta, segundo o pesquisador, um ciclo vicioso: o uso massivo de climatização sobrecarrega a rede elétrica e devolve calor às ruas, intensificando o efeito de ilha de calor urbana.
Projeções de longo prazo apontam 2,3 milhões de mortes adicionais relacionadas à temperatura em centenas de cidades europeias até o fim do século, com a mortalidade tendendo a crescer mesmo onde a adaptação avança.
No campo econômico, a seguradora Allianz calcula que as maiores economias do continente podem acumular perdas de US$ 638 bilhões até 2030 caso as ondas de calor sigam se intensificando.
Também há um limite biológico para a capacidade do corpo de suportar temperaturas elevadas. O organismo se resfria principalmente pela evaporação do suor, mas esse mecanismo perde eficiência quando o ar está muito quente e úmido.
Essa condição é medida pela chamada temperatura de bulbo úmido, indicador que combina calor e umidade. Segundo Gouveia, quando esse limite é ultrapassado, até pessoas jovens e saudáveis ficam expostas a riscos graves:
Existe um limite biológico e termodinâmico inflexível. Mesmo um indivíduo jovem, saudável, hidratado e despido, descansando na sombra diante de um ventilador, entrará em hipertermia e falência múltipla de órgãos em poucas horas
Homem tenta amenizar o calor em Colônia, no oeste da Alemanha.
AFP
Um alerta para o Brasil
No Brasil, as ondas de calor já têm impacto relevante sobre a saúde, mas as medidas de prevenção e resposta ainda são limitadas.
Um estudo inédito em escala nacional estima que cerca de 120 mil mortes entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a esses eventos. O levantamento também mostrou que idosos representam oito em cada dez vítimas e que pessoas mais pobres e com menor escolaridade estão entre as mais afetadas.
Ao mesmo tempo, grande parte das cidades brasileiras ainda não dispõe de planos estruturados para enfrentar temperaturas extremas.
Um levantamento feito pela presidência da COP30 em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), com 53 municípios, mostrou que 66% ainda não começaram ou estão nas fases iniciais da elaboração dessas estratégias.
Outros 75% não usam dados de forma estruturada, e 85% dependem de recursos externos para colocar as ações em prática.
Algumas iniciativas já foram adotadas, mas ainda são pontuais. Em São Paulo (SP), a Operação Altas Temperaturas instala tendas de hidratação e atendimento para pessoas em situação de rua.
Trabalhadores informais, ambulantes, entregadores de aplicativo e profissionais da construção civil nem sempre conseguem suspender as atividades sem perder renda.





