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Em expansão, indústria audiovisual do Paraná movimenta economia e gera emprego projetando histórias e paisagens do estado para o mundo

Indústria audiovisual do PR movimenta economia projetando histórias do estado para o mundo
A paranaense Ana Beatriz Fortes nunca imaginou que um dia veria a própria vida retratada no cinema. Aos 75 anos, enquanto assistia ao filme "Entrelinhas", o coração bateu mais forte ao revisitar o período em que esteve presa e foi torturada por engano durante a ditadura.
No longa, a personagem Beatriz, inspirada em Fortes, é acusada de estar envolvida com movimentos estudantis subversivos e em um grupo de guerrilha no período de repressão. A jovem passa por torturas e interrogatórios violentos para assumir a participação nas organizações, mesmo não fazendo parte delas.
A produção, com DNA paranaense, é apenas uma das várias que compõem um ecossistema que ajuda a contar a história do Paraná e, consequentemente, fomenta a economia do estado por meio da sétima arte.
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Assistir ao filme, para Ana Beatriz, foi uma espécie de "catarse", um "acerto de contas" com sentimentos traumáticos que a perseguiam há mais de 55 anos, como ela descreve.
"Cada região do nosso imenso território brasileiro tem as suas particularidades e características próprias que merecem ser observadas e traduzidas em arte. No meu caso, que conta um triste acontecimento da nossa história, considero fundamental que as novas gerações paranaenses saibam que aqui também ocorreram fatos vergonhosos e truculentos cometidos pelo Exército Brasileiro e que precisam ser contados para que nunca mais se repitam", defende.
História de Ana Beatriz Fortes foi retratada em 'Entrelinhas'
GP7 Cinema
Assim como Entrelinhas, 67 filmes do Paraná foram lançados comercialmente entre 2009 e 2025. Juntas, essas obras alcançaram um público de mais de 219 mil espectadores e geraram uma receita de R$ 2,22 milhões em bilheteria, segundo um estudo realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/PR) em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura do Paraná (SEEC).
Entre as obras produzidas no estado nesse período, os filmes de ficção se destacaram, com 42 filmes. Eles foram seguidos por documentários, com 23 obras, e animações, com duas produções.
Em geral, essas obras têm uma coisa em comum: falam e mostram de alguma forma o Paraná, mas se conectam com assuntos maiores, o que permite que sejam apreciadas também por pessoas de fora do estado.

Lançado em 2026, "Meu Avô Stanislau" representa essa lógica. Ao acompanhar a história de um jovem que é enviado para passar alguns dias no interior do Paraná com o avô, que é líder de uma comunidade ucraniana, o espectador vê paisagens e costumes paranaenses.

No entanto, qualquer pessoa pode se identificar à medida em que o filme revela o choque entre o mundo digital e as tradições, dando origem a uma história sobre relações familiares, pertencimento e conexão.
"O desafio foi entender como ser nacional e, ao mesmo tempo, regional. E aí, nós aqui da RPC utilizamos todo o conhecimento que temos do paranaense para – junto com o pessoal da [produtora] GP7 – conseguir representar bem o nosso estado em uma produção exibida para todo o país. Tratamos de um assunto que é universal, como a relação multigeracional entre avô e neto, de uma forma afetuosa, como é normal em nossas pequenas cidades. E com paisagens e elementos que a todo momento remetem ao interior do Paraná. Um mix que foi um grande sucesso", descreve Marcelo Dias Lopes, diretor de Programação da RPC.
Tanto "Entrelinhas" quanto "Meu Avô Stanislau", segundo Guto Pasko, diretor dos dois filmes, mostram que o estado paranaense tem uma capacidade produtiva estruturada, que abre novas oportunidades para o audiovisual na região.

"Cada filme que é produzido aqui está levando a imagem, cultura e a história do estado do Paraná, não só para o Brasil, mas para o exterior também [.]. O paranaense quer se ver. O brasileiro quer se ver na tela. A gente só precisa ter oportunidades", afirma Guto.

Indústria audiovisual no Paraná movimenta a economia e gera empregos
SETI
Um Paraná para cada história
A força e a produtividade da indústria audiovisual paranaense também atraem instituições do mercado e clientes de outros lugares.
Luiz Gustavo Vilela, secretário executivo da PrFilm Commission, aponta que esse interesse vem de qualidades técnicas de infraestrutura para essa aproximação, como, por exemplo, bons cursos e universidades com formações focadas em audiovisual e áreas adjacentes, um parque de aeroportos estruturados e proximidade relativa com São Paulo e com Rio de Janeiro, com custos reduzidos.
Gravação no centro histórico da Lapa para o filme de Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica, em 2022
Miguel Eduardo Dawagi dos Santos
Além disso, conforme Vilela, o estado tem a vantagem da variedade paisagística natural e urbana, o que pode se encaixar em várias propostas diferentes.
"Não existe outro estado do Brasil que vá reunir todas essas características. Do ponto de vista urbano, é muito interessante, porque as cidades têm ondas de urbanização diferentes ao longo dos últimos 300 anos. A gente tem modernismo, tem brutalismo, tem construções clássicas. A gente consegue emular praticamente toda a América Latina", detalha.
O secretário executivo avalia que a variedade e a qualificação técnica transformam o Paraná em um terreno fértil para atrair produções, investimentos e, também, para contar as próprias histórias.
Nesse sentido, cinco cidades se destacam como os principais polos regionais do audiovisual paranaense: Curitiba, Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Foz do Iguaçu.
Cidades se destacam como os principais polos regionais do audiovisual paranaense
Fabio Furtado/RPC
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É necessária uma multidão para um filme nascer
No Paraná, 29,3% das empresas registradas do setor audiovisual têm pelo menos um funcionário contratado em regime CLT. Mas, segundo Luiz Gustavo Vilela, secretário executivo da PrFilm Commission, na maioria das produções, a maior parte da mão de obra é contratada de forma temporária.
Ele destaca que, nas obras feitas no estado, as produtoras priorizam profissionais paranaenses.

Foi o caso do filme “Nova Éden”, do diretor Aly Muritiba. A gravação do filme, rodado essencialmente no Paraná, envolveu diretamente cerca de 150 pessoas. Considerando também os fornecedores, o número de envolvidos passa dos 300.
Em uma grande produção como essa, o trabalho começa muito antes da rodagem das gravações e vai muito além do fim delas. As funções vão desde a pessoa que faz a pesquisa para selecionar opções para as locações do filme até a pessoa que leva os atores de um lado para o outro dentro do set.
Aly Muritiba, diretor de Nova Éden
Mariah Colombo/g1
A cadeia produtiva do audiovisual é composta por seis etapas: desenvolvimento (ou planejamento), pré-produção, produção, pós-produção, distribuição e exibição.
Quando um filme é feito no Paraná, o impacto para a economia local é considerável. Só Nova Éden movimentou ao menos R$ 15 milhões na economia paranaense. Os valores se refletem para além do mercado do audiovisual, segundo o diretor.
"É criação de emprego, criação de renda, circulação de dinheiro na economia. Não só na economia cultural. Com uma produção desse tamanho, você aluga vans, tendas, barracas, serviço de alimentação, hospedagem, postos de gasolina. Você faz o dinheiro circular", defende Muritiba.
Um relatório da consultoria especializada Olsberg SPI, feito em 2020, constatou que os gastos globais do audiovisual em 2019 foram estimados em US$ 177 bilhões, mas, quando considerados os efeitos indiretos e induzidos, o impacto econômico total chegou a US$ 414 bilhões.
Isso ocorre porque, para cada dólar investido diretamente no setor, mais de dois dólares adicionais são gerados em diferentes áreas da economia, conforme o relatório. Em 2024, estima-se que os gastos globais do audiovisual chegaram a US$ 247 bilhões.
Making-of das gravações do filme Nova Éden, do diretor Aly Muritiba
Leticia Futata/Divulgação/Olhar Filmes
Um mercado em expansão
O crescimento da indústria no estado tem levado até pessoas de fora da área a buscarem funções no audiovisual.
É o caso de Ales de Lara, formada em Biologia. Ela deixou a carreira como professora e, aos poucos, a afinidade com o cinema a levou a se dedicar ao audiovisual, que hoje é o principal trabalho dela.

Ales é diretora de curta-metragens de terror, roteirista, maquiadora de caracterização e faz efeitos especiais práticos. Para ela, a experiência com a Biologia ainda contribui, com um olhar diferente, para o trabalho no cinema.

"A maquiagem e os efeitos especiais exigem conhecimentos de anatomia. Conhecimentos esses que eu tenho graças à biologia. Quando falamos de sangue, a gente precisa entender a diferença entre sangue arterial e sangue venoso. Quando falamos de feridas, precisamos entender o tempo de cicatrização e as transformações que acontecem nelas com o passar do tempo. [.] É preciso compreender essas transformações para tornar a maquiagem crível", exemplifica.
Depois da mudança radical de carreira, Ales procurou aprofundar os conhecimentos na nova área, fez uma pós-graduação em Cinema e outros cursos de especialização.
O Paraná tem 35 cursos de graduação, entre bacharelados e tecnológicos, voltados ao audiovisual. Desses, apenas três são oferecidos por instituições de ensino superior públicas e somente dois são gratuitos.
Segundo o Sebrae, 57,4% dos profissionais que atuam na área têm escolaridade até o nível médio, 29,5% possuem nível superior e 10,4% possuem apenas o Ensino Fundamental.

De caso antigo, a referência nacional
A expertise do Paraná no audiovisual não é novidade. Foi em 1897, no antigo Theatro Hauer, que a companhia de variedades artísticas Faure Nicolay apresentou pela primeira vez um espetáculo de imagens em movimento.
Nascia ali, poucos anos depois da apresentação pioneira dos irmãos Lumière em Paris, em dezembro de 1895, a relação do estado com a sétima arte.
Segundo o Museu da Imagem e do Som (MIS), até a década de 1930, três curitibanos realizaram obras genuinamente paranaenses: Annibal Requião (1875-1929), João Baptista Groff (1897-1970) e Arthur Rogge.
Desde então, o audiovisual local passou por várias fases e experimentou com diferentes estilos. No meio do caminho, em 1975, a Cinemateca de Curitiba foi fundada.
Cinemateca de Curitiba foi fundada em 1975
Prefeitura de Curitiba/Divulgação
O desenvolvimento da área se consolidou a ponto de, hoje, o Paraná estar no mapa do cinema mundial.

Nesse contexto, desde 2012, o estado sedia um dos maiores festivais de cinema do Brasil: o Olhar de Cinema.

A programação do evento conta com mais de 80 filmes. Parte deles é exibida na Mostra Mirada Paranaense, reservada a apresentar ao público um panorama da produção audiovisual local.
"Desde o primeiro minuto de Festival, essa sempre foi uma mostra que estava com a gente, porque a gente acreditava muito que um festival precisa estar conectado com o lugar onde ele está, com a sua comunidade, justamente porque a gente acreditava muito nesse potencial de um festival impulsionar os filmes", detalha Antonio Gonçalves Junior, idealizador e diretor do Olhar de Cinema, que destaca ainda como a mostra revelou talentos ao longo dos anos.
O festival não se limita à conexão local e ao cuidado com a curadoria. Consolidado como um dos principais eventos do setor no país, o Olhar de Cinema tem o Mercado do Cinema Independente (MECI), considerado um espaço de encontro, negócios e formação voltado para profissionais do audiovisual brasileiro e internacional.
Por meio de painéis, masterclasses, pitchings, estudos de caso e sessões de networking, o Mercado do Cinema Independente conecta os agentes da cadeia produtiva do audiovisual.
"O MECI veio dar um novo salto nessa direção de possibilitar e impulsionar a conexão das pessoas, pensando sempre na questão do mercado, estimulando coproduções, vendas, conexões… Os filmes têm a parte artística, mas também são produtos que podem ser rentabilizados, que podem gerar receita, que podem gerar emprego, que podem gerar renda", defende.
Olhar de Cinema nasceu no Paraná e é um dos maiores festivais de cinema do Brasil
Tip Mídia
Do outro lado da telona
Apesar do crescimento audiovisual no estado e do esforço para que o paranaense se veja nas telonas, o número de cinemas do estado vai na contramão disso.

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