Anulado julgamento dos PMs acusados da execução do delator do PCC Vinícius Gritzbach
O júri popular dos três policiais militares acusados de participar do assassinato do empresário e delator do PCC Vinícius Gritzbach e do motorista de aplicativo Celso Novais foi anulado nesta segunda-feira (22), cerca de nove horas após ter começado no Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo.
A interrupção ocorreu depois que os advogados de defesa deixaram o plenário em meio a uma discussão com o promotor de Justiça Rodrigo Merli Antunes. O júri deve ser remarcado em nova data com sorteio de novos jurados.
Gritzbach foi morto com tiros de fuzil na área de desembarque do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em 8 de novembro de 2024. O motorista, que não o conhecia, foi atingido por um disparo durante o ataque e morreu (leia mais abaixo).
Entenda abaixo o que aconteceu e quais serão os próximos passos do caso.
Por que o julgamento foi interrompido?
Por que o júri foi anulado?
O que acontece agora?
Os depoimentos dados nesta segunda-feira valem?
Quem são os réus?
Caso Gritzbach escancarou o envolvimento de policiais com facções
Arte/g1
Por que o julgamento foi interrompido?
A discussão começou quando o promotor mencionou que um dos advogados de defesa havia sido vítima de um suposto atentado em Sorocaba. Os defensores afirmaram que o episódio não tinha relação com o caso Gritzbach e consideraram a referência inadequada.
Após o desentendimento, os advogados decidiram abandonar o plenário.
Por que o júri foi anulado?
Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), o julgamento não poderia prosseguir sem a presença da defesa.
Em nota, o tribunal informou que "houve abandono do plenário por parte da defesa dos réus após desentendimento com o promotor e, por isso, dissolução do Conselho de Sentença".
Na prática, a saída dos advogados levou ao encerramento da sessão e à anulação de todos os atos realizados até então.
Fachada do Fórum de Guarulhos
Leonardo Zvarick/g1
O que acontece agora?
O TJ-SP informou que o júri será redesignado em data ainda não definida. Isso significa que todo o julgamento terá de começar novamente, desde o início.
Também será necessário formar um novo Conselho de Sentença, composto por sete jurados responsáveis por decidir pela condenação ou absolvição dos réus.
Os depoimentos dados nesta segunda-feira valem?
Não. Com a dissolução do Conselho de Sentença, o julgamento precisará ser reiniciado integralmente.
Assim, as testemunhas deverão ser convocadas novamente para prestar depoimento no novo júri.
Antes da interrupção, haviam sido ouvidos sobreviventes do atentado ocorrido no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, e a viúva do motorista de aplicativo Celso Novais, morto por engano durante o ataque.
Quem são os réus?
São réus no processo:
o tenente Fernando Genauro da Silva, apontado pela Promotoria como o motorista do carro usado na fuga;
o cabo Denis Antonio Martins, acusado de ser um dos atiradores;
e o soldado Ruan Silva Rodrigues, também apontado como um dos autores dos disparos.
Os três estão presos e respondem por homicídio qualificado pelas mortes de Gritzbach e de Celso Novais, além de duas tentativas de homicídio. Todos negam participação no crime.
'Meu filho está há dois anos sem o pai em casa', diz viúva de motorista morto em SP
O julgamento
O julgamento dos três policiais militares acusados de participar do assassinato do empresário e delator do PCC Antônio Vinícius Gritzbach e do motorista de aplicativo Celso Novais foi anulado nesta segunda-feira (22). A defesa abandonou o plenário do Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo, após desentendimento com o promotor do caso.
O júri deve ser remarcado em nova data com sorteio de novos jurados. Segundo o TJ, "houve abandono do plenário parte da defesa dos réus após desentendimento com o promotor, e, por isso, dissolução do conselho de sentença. O júri será redesignado para data oportuna."
A discussão ocorreu durante a sessão entre os advogados dos réus e o promotor de Justiça Rodrigo Merli Antunes. Segundo a defesa, o representante do Ministério Público relembrou que um dos advogados havia sido vítima de um suposto atentado em Sorocaba, episódio que, na avaliação dos defensores, não tem relação com o caso em julgamento.
Após a referência ao episódio, os advogados decidiram deixar o plenário. Com a saída da defesa, o julgamento foi interrompido e acabou anulado. O júri popular havia começado na manhã desta segunda-feira e tinha previsão de durar cinco dias. Ao todo, 21 testemunhas seriam ouvidas.
Na saída do fórum, após o cancelamento do júri, Simone Dionizia Fernandes, viúva do motorista de aplicativo Celso Novais, se aproximou do advogado de defesa Claudio Dalledone, que concedia entrevista à imprensa, e o acusou de ter provocado a anulação do julgamento.
Em meio à comoção, ela afirmou que o filho está há dois anos sem o pai e classificou a saída da defesa do plenário como uma estratégia.
"Meu filho está há dois anos sem o pai em casa, e vocês cancelaram o julgamento. Isso não é justo. Estou há dois anos lutando por Justiça", disse (veja acima).
Simone afirmou ainda que a interrupção da sessão a fez reviver o trauma da morte do marido.
"Foi um show lá dentro, foi uma estratégia da defesa, eles são atores. Estou sentindo tudo de novo, tudo veio à tona quando o juiz falou. Só eu sei a luta sozinha em casa com três filhos. Só eu sei o que estou passando", declarou.
Tensão no julgamento
A tensão começou antes, durante o depoimento de um perito criminal que trabalhou no caso. O advogado Renan Canto estava questionando a testemunha quando foi interrompido pelo promotor, que o acusou de não ter lido o processo.
O advogado protestou, e o promotor rebateu dizendo que ele conversava com "bandido" e "matador de aluguel". Os outros advogados se levantaram para defender o colega, e em meios aos gritos de protesto, Antunes dizia "blá-blá-blá".
"O sujeito é folgado", disse o advogado Claudio Dalledone. "Acredito que não vai ter júri com esse sujeito aqui", acrescentou o advogado, que também chamou o promotor de cínico e descortez.
Renan Canto chegou a caminhar em direção à porta, ameaçando abandonar o plenário, caso o promotor não fosse repreendido.
Após protestos dos defensores, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, pediu que ele não transitasse próximo aos advogados quando eles estivessem questionando as testemunhas.
"O Ministério Público faz um jogo de cena para que o júri não termine", afirmou Dalledone em coletiva de imprensa durante o intervalo do julgamento. "O promotor quer dissolver o conselho", acrescentou.
Antunes rebateu dizendo que foram os advogados que tentaram interromper a sessão. "Quem disse que ia abandonar o plenário foi a defesa. Isso demonstra que eles pretendem não levar o julgamento adiante, qualquer incidente vão usar pra se vitimizar", disse a jornalistas.
"Essa banca conhecida de advogados, eles parecem leões na imprensa, mas aqui se mostraram gatinhos", provocou o promotor
Júri popular
A primeira testemunha do júri popular dos três policiais militares acusados de participar do assassinato do delator do Primeiro Comando da Capital (PCC) Antônio Vinícius Gritzbach foi William Souza Santos, uma das vítimas do ataque ocorrido no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
O julgamento começou na segunda-feira (22) no Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo. Ao todo, estão previstas 21 testemunhas.
A previsão é a de que o julgamento dure cinco dias, com as sessões começando sempre às 10h. O Conselho de Sentença é formado por quatro homens e três mulheres.
William, que trabalhava no aeroporto havia sete anos, afirmou que não conhecia nenhuma das vítimas nem conseguiu identificar os atiradores.
"Era uma sexta-feira. Normalmente o aeroporto é movimentado, mas naquele horário nem tanto. Mais tarde, com o embarque e desembarque de passageiros e a chegada dos funcionários, o fluxo seria bem maior", relatou.
Segundo ele, nada chamou sua atenção até o momento em que um carro parou próximo à faixa de pedestres onde conversava com um amigo. "Reparei quando o veículo parou e, logo em seguida, ouvi um barulho que parecia rojão", disse.
Fachada do Fórum de Guarulhos
Leonardo Zvarick/g1
Durante o ataque a Gritzbach, William foi atingido em três dedos da mão. Em depoimento, afirmou que não presenciou nenhuma discussão antes dos disparos e que viu apenas o carro dos atiradores parar no local. Depois dos tiros, avistou apenas o corpo do empresário caído no chão.
A segunda testemunha foi a gerente de TI Samara. Ela estava retornando de uma viagem a Salvador, na Bahia. Ia pedir um carro de aplicativo quando ouviu os tiros.
Disse que ficou paralisada no primeiro momento e correu para trás de uma coluna com outras pessoas. Foi quando se deu conta de que tinha sido baleada na barriga, mas parecia ser algo superficial.
"Eu estava bem atrás, só ouvi os barulhos dos tiros e depois os gritos. Não vi o carro nem as pessoas que desceram atirando. Eram muitos tiros, na hora achei um barulho agudo, achei que fosse outra coisa, nunca tinha ouvido. Foram rajadas, aí teve uma pausa, vários tiros de novo e daí parou", relatou.
Antônio Vinicius Lopes Gritzbach foi morto na sexta-feira (8) no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais
Samara disse ter feito acompanhamento psicológico por um tempo, após o episódio, mas que atualmente está bem.
A terceira testemunha da acusação a ser ouvida foi Simone Novais, funcionária pública. Ela era esposa do motorista de aplicativo Celso Araujo Sampaio de Novais, que também morreu no crime.
Simone contou que soube que algo tinha acontecido quando um amigo ligou para ela, depois recebeu um vídeo de dentro da ambulância em que ele falava: "Levei um tiro, estou dentro da ambulância". Foi a última vez em que falou com o marido, com quem tem três filhos.
"Não estamos conseguindo seguir com a vida, me preocupa especialmente o filho de 15 anos, eles eram muito apegados", afirmou. Ela disse também que, depois da morte de Celso, sua vida financeira ficou "uma bagunça".
Samara só viu Celso quando ele foi para a UTI, entubado. Os filhos também o viram, o mais novo chegou a chacoalhar o pai pedindo: "Levanta, levanta". "Foi desesperador ver meu filho puxando ele para levantar. O de 15 anos se fechou ali."
A quarta testemunha de acusação foi o perito criminal Leandro, responsável pela análise dos vestígios do caso. Ele afirmou que a perícia realizou um escaneamento do local do crime e identificou 27 disparos de fuzil — 21 de calibre 7.62 e seis de 5.56.
Segundo o perito, um dos tiros atingiu uma área interna do aeroporto a mais de 80 metros de distância e poderia ter acertado uma pessoa na cabeça. A perícia também verificou danos em um ônibus da GCM, possivelmente causados por ricochete.
No depoimento do perito, houve confusão entre os advogados de defesa dos réus e promotoria. “Acredito que não vai ter júri com esse sujeito aqui”, dizem os advogados sobre o promotor. “Eu falo com polícia, você fala com matador de aluguel”, disse o promotor em um momento.
Durante o intervalo, o promotor Rodrigo Merli se pronunciou sobre a confusão. “Quem tensionou abandonar o plenário foi a defesa. Pretendem não levar esse julgamento adiante. Vejo essa banca conhecida e nas redes sociais parecem leões, mas pro tribunal deu pra perceber que parecem gatinhos”.
Claudio Dalledone, advogado de defesa, também falou sobre a discussão. "MP faz jogo de cena pra que o júri não termine. Promotor quer dissolver o conselho. Pontos divergentes não dizem respeito somente à perícia, mas nesse ponto houve contaminação na coleta e manipulação de vários elementos. Encontro entre perito e promotor é imoral, era um jogral, pergunta e resposta. Quando a defesa pergunta, ele nao sabe de nada e é hostil. Em 31 anos de tribunal do júri é um dos casos mais escandalosos, que expõe banda podre da PC, que agora querem atribuir a policiais militares".
Após o intervalo, a quinta testemunha de acusação ouvida foi Danilo Lima Silva, que por 2 anos e meio foi motorista do Vinícius. Durante seu depoimento, ele disse que Vinícius andava com veículo com blindagem nível 5 e dois carros tinham até luzes de sirene, como viatura.





