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Por que Ribeirão Preto ‘perdeu’ o São Sebastião do nome? Entenda a história

Por que Ribeirão Preto 'perdeu' o São Sebastião do nome? Entenda a história
Ribeirão Preto (SP) completa 170 anos nesta sexta-feira (19) com uma curiosidade na certidão de nascimento. Antes de receber o nome atual, o município já foi batizado de Arraial de São Sebastião, São Sebastião do Ribeirão Preto, Arraial do Retiro, Arraial de São Sebastião do Retiro e Vila de Entre Rios.
A origem de tantas nomenclaturas mistura uma estratégia de fazendeiros para garantir a posse de terras, a devoção a um santo e disputas políticas. O título religioso acabou retirado dos registros oficiais apenas durante a transição do Império para a República.
Para entender os motivos das mudanças até a cidade se tornar definitivamente Ribeirão Preto, o g1 conversou com historiadores que explicaram desde a escolha do padroeiro até o contexto histórico exato do sumiço de São Sebastião dos documentos.
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Vista aérea do Centro de Ribeirão Preto, SP, com o Theatro Pedro II
Reprodução/EPTV
O truque das terras e a escolha do padroeiro
A história começa com fazendeiros vindos do sul de Minas Gerais, que viviam na região sem documentos legais das propriedades. Segundo o historiador e psicólogo Rafael Cardoso, o grupo agia na informalidade.
"Eles eram posseiros, donos de uma terra pela prática, mas não pela lei", resume.
Com a aprovação da Lei de Terras pelo Império do Brasil, em 1850, a legislação passou a exigir documentos do Estado ou a compra oficial dos lotes. Para driblar a regra, o grupo procurou a Igreja Católica, que funcionava como uma espécie de cartório na época. De acordo com Cardoso, a manobra era estratégica.
"Eles falavam para a Igreja Católica que queriam doar um pedaço da terra. Se a Igreja dissesse sim, estava dizendo que reconhecia a parte maior que sobrava como daquela pessoa", detalha o professor.
As primeiras tentativas de doação para a Igreja ocorreram entre 1845 e 1852, na região onde hoje fica o bairro Ribeirão Verde. Os pedidos acabaram recusados por conta de disputas judiciais de território entre as famílias.

A situação foi resolvida apenas em 19 de junho de 1856. Nessa data, o fazendeiro José Mateus dos Reis cedeu um terreno livre de disputas judiciais, localizado na área onde hoje fica a Praça XV de Novembro. A oferta foi aceita e legalizada, ato que marcou a fundação oficial do município.
Surgia assim o Arraial de São Sebastião. A escolha do nome partiu exatamente da devoção da família do fazendeiro. O historiador José Antônio Lages pontua que o pai do fazendeiro era alferes, uma patente militar antiga.

Como São Sebastião foi soldado do Império Romano, é considerado o protetor dos militares, além de guardião das colheitas.
O santo é protetor das colheitas, contra a doença das epidemias, mas é protetor também dos militares. Uma hipótese bastante provável é que essa devoção tenha surgido de uma tradição familiar que acabou se transformando em uma devoção comunitária
Imagem da antiga Matriz de São Sebastião de Ribeirão Preto. Construído entre 1866 e 1870, o templo religioso foi demolido em novembro de 1905
Arquivo pessoal
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A crise de identidade nos documentos
Mesmo com a fundação, a localidade passou por uma verdadeira crise de identidade nos registros da época. Em 1861, o nome mudou informalmente para Arraial do Retiro, em referência ao Córrego Retiro Saudoso, que cortava a região.

Em 1871, outra mudança importante aconteceu por lei. O local foi elevado à categoria de vila, com a criação da Câmara Municipal, e o Arraial do Retiro virou oficialmente a Vila de São Sebastião do Ribeirão Preto.
Houve ainda uma tentativa de mudança drástica. Em 1879, lideranças políticas locais conseguiram aprovar uma lei que mudou o batismo para Vila de Entre Rios, justificando que era um nome mais simples. A alteração, no entanto, durou apenas dois anos.
De acordo com Lages, a mudança não agradou aos moradores e precisou ser revogada.
"Isso provocou uma reação muito grande da população, porque não passou por consulta popular. A justificativa foi a confusão de correspondências do Correio com uma vila de Minas Gerais. Mas a população não aceitou, fez pressão e obrigou a aprovação de uma nova lei retornando o antigo nome", diz o historiador.
Manifestação em frente ao prédio da Câmara e Cadeia, na Rua Cerqueira Cesar. Vereadores e autoridades, liderados por um grupo armado que depôs a Câmara Municipal. Este prédio ainda existe e é tombado pela municipalidade
Arquivo de José Antônio Lages
O sumiço do santo
A queda definitiva do nome do padroeiro aconteceu por volta de 1891, logo após a Proclamação da República. Houve uma reforma administrativa geral no país e todas as antigas vilas passaram a ser chamadas oficialmente de cidades.

Foi nesse momento de transição que 'São Sebastião' desapareceu dos registros, deixando apenas Ribeirão Preto.
Não existe um documento único que crie uma lei proibindo o nome do santo. O professor Lages aponta uma hipótese forte baseada no contexto histórico, ligada à influência de grupos anticlericais.

Na virada do Império para a República, a elite intelectual era influenciada por ideais positivistas, que pregavam a separação total entre Estado e Igreja. Para o historiador, o apagamento foi proposital.

"É uma clara influência de grupos intelectualizados, ligados a movimentos anticlericais contra a Igreja, que andaram tirando o nome de santo de vários lugares por aí afora. Essa animosidade perdurou até a época em que a vila passou a ser chamada de cidade e tiraram o São Sebastião", afirma o historiador.
Manifestação popular em frente à antiga Câmara de Ribeirão, tendo à frente o Coronel Francisco Schmidt. Este prédio ficava na esquina da Rua Tibiriçá com a Rua Florêncio de Abreu, onde hoje se localiza o prédio da Embratel
Divulgação/ Câmara Municipal de Ribeirão Preto
Apesar da exclusão no cartório, a fé permaneceu intacta. A devoção a São Sebastião continuou na cultura da cidade, mantendo o santo como o eterno padroeiro do município.

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