VÍDEO: estudante ‘conta’ histórias da cultura japonesa através de receitas com os avós
A culinária vai além da combinação de ingredientes e temperos. Ela também é uma forma de preservar tradições, conhecer raízes culturais e fortalecer os laços familiares por meio de receitas transmitidas de geração em geração.
Foi dessa maneira que Francine Yuri Yamashita, estudante de agronomia da Universidade de São Paulo (USP) e moradora da Colônia do Pinhal, em São Miguel Arcanjo (SP), encontrou uma forma de valorizar suas origens nipo-brasileiras ao lado dos avós, Osamu Yamashita, de 90 anos, e Shigueko Yamashita, de 84.
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Para celebrar o Dia da Imigração Japonesa, nesta quinta-feira (18), o g1 conversou com a jovem que conta que o que começou na cozinha da família ultrapassou os limites de casa e ganhou espaço nas redes sociais, onde ela compartilha receitas, histórias e tradições herdadas dos avós.
Antes de chegar ao interior paulista, o casal morou em Poços de Caldas, cidade mineira. Os dois chegaram em São Miguel Arcanjo assim que a comunidade japonesa foi fundada. No local, o avô de Yuri ajudou a fundar a cooperativa que existe dentro da colônia.
Os cuidados com a terra seguem inseridos dentro da estrutura familiar de Yuri. Atualmente, o pai dela, Francisco Takahiro Yamashita, de 61 anos, é o responsável por dar continuidade aos trabalhos iniciados pelo avô. Ela também criou interesse pela área e decidiu estudar sobre, seguindo a tradição familiar.
Atualmente, a principal atividade da família é o cultivo de uvas, embora a propriedade também produza outras frutas, como nêspera e atemoia.
“Meu interesse surgiu mais por conta da história da minha família. Por conta de tudo o que meu avô fez para ser um agricultor e construir o sítio. Meu pai também deu sequência com muito carinho. Acredito que isso me inspirou e me fez querer fazer agronomia”, comentou.
Devido a vivência com o avô e pai, Francine decidiu cursar agronomia
Arquivo pessoal/Francine Yuri Yamashita
✈️ Viagem ao Japão
São mais de 18 mil quilômetros que separam São Miguel Arcanjo do Japão. A distância, no entanto, não impediu Yuri de conhecer duas vezes o país de seus antepassados.
A primeira viagem aconteceu graças à participação dela em um grupo de taiko, tradicional arte musical japonesa marcada pelo uso de tambores. Já a segunda ocorreu em 2024, quando realizou um intercâmbio que aprofundou ainda mais sua conexão com a cultura e as tradições do país.
“Eu fui para morar em Kyoto. É maravilhoso, a gente fica encantado, é uma experiência de vida. Eu acho que me fez muito bem, para eu me conhecer melhor. A gente aprende bastante sobre a cultura japonesa. Mas me fez perceber que eu gosto mesmo é da cultura nipo-brasileira”, confessou a jovem.
Francine visitou o Japão duas vezes e diz sentir orgulho de suas raízes
Arquivo pessoal/Francine Yuri Yamashita
Para Yuri, a principal diferença está na forma como as pessoas se relacionam. Ela afirma que prefere o Brasil por considerar os brasileiros mais acolhedores, afetuosos e abertos ao diálogo.
“Acredito que é uma cultura que ensina muito para a gente e, quanto mais buscamos através das artes e filosofias, mais aprendemos. Eu gosto muito dessa parte. Eu sinto muito orgulho e carinho em ser nipo-brasileira”, concluiu.
A moradora de São Miguel Arcanjo cresceu e viveu dentro da Colônia do Pinhal, comunidade nipo-brasileira
Arquivo pessoal/Francine Yuri Yamashita
🍇Cooperativa na Colônia do Pinhal
Há 59 anos, cerca de 20 produtores rurais se uniram e formaram uma cooperativa dentro da Colônia do Pinhal. Atualmente, o local conta com 200 cooperados que atuam na área de hortifruti e fornecimento de insumos.
Entre as principais culturas da propriedade estão a uva, o caqui, a nêspera, a atemoia e a pitaia. A família também cultiva hortaliças e legumes, como abobrinha, tomate, pepino e pimentão.
A maior parte da produção é comercializada por meio da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), abastecendo mercados e consumidores da capital paulista e de outras regiões.
Para explicar mais sobre a cooperativa, o g1 conversou com o gerente do local há 21 anos, Paulo Koji Ariga, de 49 anos.
“Os fundadores são japoneses, mas foram incorporados outros produtores, que são brasileiros. Surgiu porque eles tinham dificuldade no escoamento da produção. Meu pai também foi um dos fundadores”, contou.
Ao lado de sua família, Paulo segue na colônia de São Miguel Arcanjo e atua como gerente da cooperativa no local
Arquivo Pessoal
Conforme Paulo, a presença de moradores japoneses influenciou na produção e cultivo nas terras de São Miguel Arcanjo.
“Aqui, na região, praticamente não tinha nada. Com a instalação dos produtores japoneses, o pessoal foi adquirindo técnicas e aprimorando para ajudar na produção”, citou.
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O gerente diz que, atualmente, a cooperativa tem enfrentado dificuldades devido à concorrência que chegou até a região do interior paulista.
“Teoricamente, uma cooperativa serviria para ajudar todos os produtores, mas nem todos colaboram. Alguns dão preferência para a concorrência em vez de comprar com cooperados, por causa da diferença de preço dos produtos”, analisa Paulo.
A cooperativa da Colônia do Pinhal fica localizada na Estrada Vicinal Kunihei Ariga, em São Miguel Arcanjo
Arquivo Pessoal
Paulo revela que sente orgulho de suas raízes e descendência e afirma que os japoneses tiveram papel essencial no desenvolvimento do Brasil: "A gente produz alimentos, que é um bem necessário para todos. A gente tem orgulho em colaborar para essa melhoria.".
🎌 Chegada dos japoneses em São Miguel Arcanjo
Em nota enviada ao g1, o Museu da Imigração do Estado de São Paulo informou que registros históricos apontam que a chegada de imigrantes japoneses a São Miguel Arcanjo ocorreu dentro de um processo de colonização agrícola intensificado no período pós-Segunda Guerra Mundial, quando novas correntes migratórias japonesas foram direcionadas para diferentes regiões do Brasil.
Segundo a instituição, as informações constam em uma pesquisa desenvolvida por Adriana Aparecida Alves da Silva Pereira e reunidas em uma obra que retrata a história da colônia japonesa no município.
“A presença japonesa em São Miguel Arcanjo está diretamente relacionada à fundação da Colônia Pinhal, em setembro de 1962. O empreendimento foi organizado por empresa japonesa responsável por recrutar emigrantes, adquirir terras no Brasil, realizar o loteamento e prestar apoio inicial aos colonos. A Colônia Pinhal integrou um conjunto de dez colônias agrícolas implantadas pela empresa em diferentes regiões brasileiras”, informa o museu.
Ateomia é uma das frutas produzidas em São Miguel Arcanjo
TV TEM/Reprodução
São Miguel Arcanjo é uma das cidades paulistas fortemente marcadas pela presença nipo-brasileira. De acordo com o museu, a escolha do município paulista esteve diretamente relacionada ao perfil agrícola da região e à disponibilidade de terras para o desenvolvimento de projetos rurais.





