12 de junho de 2026. Torcedores enxugam o suor do rosto por causa do calor na Fifa Fan Zone, em Washington, DC, antes da partida de abertura da Copa do Mundo entre México e África do Sul
Getty Images/via BBC Copa do Mundo de 2026 começou na quinta-feira (11/06) sob céu ameno na Cidade do México: 24°C no Estádio Azteca, vitória do anfitrião sobre a África do Sul.
Mas o clima da estreia é a exceção, não a regra, do que espera o torneio pelas próximas cinco semanas. Espalhada por 16 cidades de três países — do calor úmido de Miami e Monterrey ao verão fresco de Vancouver —, esta será, segundo cientistas, a Copa com maior risco de calor extremo da história.
A explicação está na soma de três fatores. Primeiro, o calendário: ao contrário do Catar em 2022, que fugiu para novembro e dezembro para evitar o pico extremo de calor, o torneio manteve a janela tradicional de junho e julho — o auge do verão no Hemisfério Norte.
Segundo, a geografia: boa parte dos jogos está marcada para cidades de clima quente e úmido, como Dallas, Houston, Miami, Atlanta, Kansas City e Monterrey, onde a umidade dificulta que o corpo se resfrie pelo suor.
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Terceiro, o aquecimento global: desde 1994, quando os Estados Unidos sediaram o Mundial pela última vez, a temperatura média do planeta subiu cerca de 0,7°C, segundo a análise de atribuição da World Weather Attribution (WWA), que cruzou observações e modelos climáticos para medir o quanto a mudança climática causada pelo homem elevou o estresse térmico nas 16 sedes entre 1994 e 2026.
Uma análise liderada pelo climatologista Donal Mullan, da Queen's University Belfast, em parceria com a Brunel University de Londres e publicada no International Journal of Biometeorology, modelou 20 anos de dados meteorológicos e concluiu que 14 das 16 sedes podem ultrapassar, em tardes de verão, o limiar de 28°C na escala WBGT (temperatura de globo e bulbo úmido), índice que combina calor, umidade, vento e radiação solar para medir o estresse térmico sobre o corpo.
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Acima desse patamar, entidades como o sindicato global de jogadores, o FIFPRO, recomendam o adiamento de partidas.
Em um verão mais quente que a média, até nove estádios passariam desse nível em metade dos dias do torneio — e quatro chegariam a 32°C, considerado estresse térmico extremo.
Um levantamento posterior do mesmo grupo, divulgado em maio pela rede WWA, traduziu o risco em números jogo a jogo: 26 das 104 partidas devem ser disputadas com WBGT de pelo menos 26°C — o nível a partir do qual o FIFPRO, sindicato global de jogadores, recomenda pausas obrigatórias de resfriamento.
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Dessas, 17 estão marcadas para estádios com sistemas de refrigeração; as demais, a céu aberto.
Cinco jogos devem ocorrer a 28°C ou mais na escala, patamar em que o sindicato recomenda adiar a partida.
Em 1994, a última Copa nos EUA, 21 jogos teriam atingido o limiar das pausas — mas o risco de partidas no nível de adiamento praticamente dobrou.
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Um torneio, três climas
O contraste entre as cidades-sede é o primeiro fator tático e logístico da Copa. No grupo de maior risco — onde o calor perigoso é dado como praticamente certo durante a janela do torneio — estão Dallas, Houston, Miami, Kansas City, Filadélfia e Atlanta.
Um segundo grupo reúne cidades que tinham risco control[avel em 1994 e cujo risco dobrou ou mais desde então: Los Angeles, Seattle, Santa Clara (San Francisco) e East Rutherford (Nova York/Nova Jersey), justamente a sede da final de 19 de julho — marcada para as 15h locais, horário em que uma onda de calor típica da região pode levar o WBGT à casa dos 30°C.
Na ponta oposta estão Vancouver e a área da baía de São Francisco, com verões amenos, e as sedes mexicanas, onde o problema muda de natureza.
As sedes canadenses ilustram bem como o risco muda de natureza conforme a latitude. Vancouver é, ao lado da baía de São Francisco, uma das duas únicas cidades do torneio que não atingem o limiar de estresse térmico do estudo — e ainda joga em estádio com teto retrátil, no BC Place.
Toronto, de verão úmido e abafado, figura entre as 14 sedes de risco, ainda que longe dos extremos texanos. O problema canadense, porém, vem de outro lugar: foi de lá que partiu, em 2023, a fumaça da pior temporada de incêndios da história do país — quase 15 milhões de hectares queimados —, que cobriu as próprias Vancouver e Toronto e chegou a cancelar eventos esportivos em Nova York, Filadélfia e Boston.
Já a Cidade do México, a 2.240 metros de altitude, tem temperaturas brandas, mas tardes de tempestade quase diárias nesta época do ano— havia até 80% de chance de raios previstos para o horário da abertura, que passou sem chuva. Guadalajara segue padrão parecido.
Monterrey, encravada no calor do norte mexicano, é o caso extremo: junho passa com facilidade dos 35°C, podendo superar os 40°C, e por isso todos os seus jogos foram marcados para as 20h locais.
A tabela, aliás, revela a estratégia da Fifa, a entidade máxima do futebol mundial e responsável pela Copa: após o sorteio de dezembro, os jogos diurnos foram concentrados nos estádios com teto e climatização — Dallas, Houston e Atlanta —, enquanto as sedes de maior risco ao ar livre receberam partidas noturnas. Cinco estádios do torneio têm cobertura (os três citados, mais Vancouver e Los Angeles).
No SoFi Stadium, em Los Angeles, cerca de 15 ventiladores industriais de nebulização aguardam em depósitos, prontos para serem espalhados pelas arquibancadas se os termômetros passarem de 26,7°C.
Há ainda duas ameaças que não dependem de termômetro. Raios detectados num raio de cerca de 13 quilômetros do estádio suspendem o jogo automaticamente por pelo menos 30 minutos — contagem que zera a cada novo relâmpago — e os amistosos preparatórios já deram o tom: o jogo-treino da Inglaterra em Orlando atrasou uma hora por tempestade, e Arábia Saudita x Porto Rico, em Austin, ficou parado quase duas horas.
E a fumaça de incêndios florestais, que em 2023 cobriu Nova York, Toronto, Filadélfia e Boston e cancelou eventos esportivos, volta ao radar: a temporada de queimadas de 2026 começou mais cedo e acima da média. Para esse cenário, a Fifa não tem limiar fixo de qualidade do ar — decisões seriam tomadas caso a caso, com autoridades locais de saúde.
O ensaio geral que deu errado
A Fifa não precisa de modelos climáticos para saber o que vem pela frente: viveu uma prévia no Mundial de Clubes de 2025, disputado nos mesmos Estados Unidos.
Seis partidas foram interrompidas por calor ou tempestades — incluindo uma paralisação de duas horas em Chelsea x Benfica —, e um estudo revisado por pares apontou que 31 dos 57 jogos tiveram WBGT médio acima de 28°C.
O técnico do Chelsea à época, Enzo Maresca, declarou que os EUA "provavelmente não são o lugar certo" para a competição; seu meia Enzo Fernández relatou tontura e precisou se deitar no gramado durante a semifinal.
O diretor médico do FIFPRO, Vincent Gouttebarge, foi além: para a entidade, partidas como PSG x Atlético de Madrid e Chelsea x Espérance simplesmente não deveriam ter sido disputadas.
O alerta anterior veio da Copa América de 2024. Em Kansas City — uma das cidades-sede do Mundial deste ano —, com sensação térmica de 39°C, o árbitro assistente Humberto Panjoj desmaiou em campo e o zagueiro uruguaio Ronald Araújo deixou o jogo no intervalo, tonto.
A resposta da Fifa para 2026 foi tornar obrigatórias duas pausas de hidratação de três minutos, aos 22 minutos de cada tempo, em todos os 104 jogos, independentemente do clima — algo inédito em Copas.
Cientistas consideram a medida insuficiente: o FIFPRO recomenda pausas a partir de WBGT de 26°C e adiamento aos 28°C, enquanto o limiar da própria Fifa para sequer considerar um adiamento é 32°C.
Para os pesquisadores, essa diferença de quatro graus é, literalmente, uma questão de vida ou morte — sobretudo para o público, que não tem preparador físico nem banco refrigerado. Sessenta jogadores em atividade e aposentados assinaram carta aberta pedindo a atualização das diretrizes antes do torneio.
E, já na estreia, a pausa de saúde revelou sua outra face: a Fox, detentora dos direitos em inglês nos EUA, interrompeu a transmissão de México x África do Sul para exibir quatro comerciais durante os três minutos de hidratação, apresentados como patrocinados por uma marca de isotônicos. Mantido o ritmo, serão mais de 800 inserções publicitárias extras ao longo da Copa.
O caminho (sem sombra) para o Brasil
Para o Brasil, o calor das Copas norte-americanas é velho conhecido — e, até aqui, aliado. Na Copa de 1986, no México, a seleção de Telê Santana caiu nas quartas de final diante da França num jogo iniciado ao meio-dia em Guadalajara, sob sol a pino, decidido nos pênaltis após Zico desperdiçar um pênalti no segundo tempo e Sócrates errar sua cobrança na decisão final.
Em 1994, o sorteio foi generoso: o time de Parreira fez toda a primeira fase em Stanford, na região de São Francisco — a mais fresca das nove sedes, vantagem que rivais não deixaram de apontar.
O próprio Parreira rebateu as cobranças por mais intensidade dizendo que, naquele clima, só um robô entregaria 100%. O título veio justamente no dia mais quente, na final a 38°C no Rose Bowl.
Em 2026, porém, a sorte virou: a seleção de Carlo Ancelotti caiu em três das cidades mais críticas do mapa do calor — estreia contra Marrocos no MetLife Stadium (Nova York/Nova Jersey) em 13 de junho, Haiti no Lincoln Financial Field (Filadélfia) em 19 de junho e Escócia no Hard Rock Stadium (Miami) em 24 de junho.
Mapa das cidades-sede
BBC
Nenhum dos três estádios tem teto. A Filadélfia e Miami estão no grupo onde o calor perigoso é dado como certo; Nova Jersey, onde o risco dobrou desde 94. E foi na Filadélfia, sob emergência de calor no Mundial de Clubes de 2025, que o FIFPRO disse que uma partida sequer deveria ter sido disputada.
O alívio está nos horários, todos no fim de tarde ou noite local. E há uma ironia de tabela: se avançar em primeiro do grupo, o Brasil joga o mata-mata inicial em Houston — estádio com teto e ar-condicionado; se passar em segundo, vai a Monterrey, a sede mais quente do México, ainda que em jogo noturno.
1986, 1994: o calor como tradição
Nada disso é exatamente novo. No México de 1986, 34 dos 52 jogos começaram ao meio-dia para acomodar a televisão europeia, sob altitude, calor e poluição.
Gary Lineker, artilheiro daquela Copa, guardou de Monterrey, onde a Inglaterra disputou duas de suas partidas na primeira fase, a lembrança do jogo mais quente de sua carreira, com 43°C a 44°C. Ele contou ter perdido cerca de seis quilos em líquidos e passado o segundo tempo tonto, incapaz de render — como quase todos em campo.
Oito anos depois, nos Estados Unidos de 1994, uma onda de calor histórica transformou o torneio numa prova de resistência.
A climatologia oficial compilada pela agência americana NOAA já avisava: Dallas tinha média de máximas de 35,5°C em julho, com 28 dias por mês acima de 32°C. Ainda assim, boa parte dos jogos da primeira fase começou no início da tarde — de novo, por causa da TV europeia.
A Fifa chegou a proibir garrafas de água dentro de campo, recuando apenas depois que médicos alertaram publicamente para o risco de mortes por desidratação — episódio eternizado pela revolta do técnico irlandês Jack Charlton, que passou a jogar água sobre seus jogadores quando eles chegavam próximos à linha lateral do campo.
O goleiro boliviano Carlos Trucco resumiu o sentimento dos elencos: "Esses horários foram feitos para matar jogadores".
Jürgen Klinsmann, então atacante da Alemanha, descreveu condições brutais em Chicago; o técnico do México, Miguel Mejía Barón, sugeriu que os dirigentes tirassem os ternos e jogassem ao meio-dia para entender; os belgas passaram gel no cabelo para refletir o sol, e o treinador dos EUA, Bora Milutinovic, ironizou desejando 300 graus e 2.000% de umidade para uma partida.





