Silhueta de uma mulher contra o sol poente.
AP Photo/Charlie Riedel
Cerca de 120 mil mortes no Brasil podem ser atribuídas às ondas de calor que ocorreram entre 2000 e 2019 no país.
É isso o que aponta um levantamento inédito em escala nacional, que cruzou dados de calor extremo com internações e mortes registradas no SUS ao longo de duas décadas.
O estudo mostra que os efeitos das altas temperaturas sobre a saúde nem sempre aparecem de forma imediata.
Pode parecer pouco em porcentagem, mas é uma conta que se acumula: dá uma média de aproximadamente 6 mil mortes por ano que, segundo o modelo, não teriam acontecido — pelo menos não naquele momento — se não fossem os picos de calor.
E há um detalhe importante na forma de ler esse dado: ele é uma estimativa populacional.
⚠️ Ainda de acordo com os autores, isso não significa que cada morte tenha sido causada apenas pelo calor, mas que houve um excesso de óbitos associado às ondas de calor.
O resultado acompanha o que já se sabe sobre o efeito do calor no corpo: as altas temperaturas favorecem a desidratação, sobrecarregam os rins e podem agravar doenças respiratórias.
🫀Nas doenças cardiovasculares, porém, o padrão foi diferente. As internações caíram durante as ondas de calor na maior parte das regiões, mas as mortes por causas cardíacas aumentaram.
Segundo o estudo, uma hipótese é que, em episódios mais intensos de calor, parte desses casos evolua rapidamente para quadros graves, antes que a pessoa consiga chegar ao hospital.
Esse descompasso ajuda a explicar por que olhar apenas para as internações pode subestimar o impacto das ondas de calor na saúde.
Ao todo, as ondas de calor foram associadas a 33.858 mortes por doenças cardiovasculares e 24.225 por doenças respiratórias.
Eles acompanham desigualdades já conhecidas no país, como idade, escolaridade, renda, moradia e acesso a serviços de saúde. Veja os grupos mais afetados:
👵 Idosos de 65 anos ou mais: são o grupo mais atingido. Foram 97.167 mortes atribuíveis ao calor nessa faixa etária, cerca de 80% do total. A vulnerabilidade maior está ligada à menor capacidade do organismo de regular a temperatura, à presença mais frequente de doenças crônicas e ao uso de medicamentos que podem interferir na hidratação.
👩 Mulheres: o risco de morte durante ondas de calor foi maior entre mulheres do que entre homens em todas as zonas climáticas analisadas. Entre eles, o aumento do risco variou de 4% a 9%; entre elas, de 6% a 16%, dependendo da região.
🎓 Pessoas com menos escolaridade: o estudo identificou um gradiente social claro. Entre pessoas sem nenhum ano de estudo, o aumento do risco chegou a 19% em algumas zonas climáticas. Entre os mais escolarizados, com 12 anos ou mais de estudo, a alta ficou entre 1% e 7%. A escolaridade, nesse caso, funciona como um retrato indireto de renda, condições de moradia e acesso a ambientes mais protegidos do calor.
🧒 Crianças menores de 10 anos: nesse grupo, o efeito mais marcante apareceu nas internações por gastroenterite, ou diarreia, a causa infantil mais associada ao calor em todas as macrorregiões. A relação pode estar ligada à desidratação e ao maior risco de contaminação de água e alimentos em períodos mais quentes.
"Na mortalidade, identificamos um gradiente social de risco, com maior aumento percentual do risco de morte entre pessoas com menor escolaridade. Esses resultados reforçam a necessidade de direcionar ações de adaptação e proteção aos grupos mais vulneráveis", resume Oliveira.
Já a análise por raça e cor exige cautela, segundo os próprios autores. No recorte nacional, o risco apareceu maior entre pessoas brancas, mas isso pode refletir falhas no preenchimento da informação de raça e cor em cidades menores.
Quando a análise considera apenas regiões metropolitanas, onde esse registro tende a ser mais confiável, o risco entre pessoas pretas se iguala ou supera o observado entre pessoas brancas.
Para os pesquisadores, isso indica que as desigualdades raciais diante do calor podem estar subestimadas nos dados nacionais.
Pedestres enfrentam calor e tempo seco na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo (SP), no 1º de setembro de 2024.
FÁBIO VIEIRA/FOTORUA/ESTADÃO CONTEÚDO
Norte tem ondas de calor mais longas
O estudo também mostra que as ondas de calor têm comportamentos diferentes pelo país. A análise considera não só onde faz mais calor, mas também com que frequência esses eventos ocorrem, quanto tempo duram e qual a intensidade em relação ao clima de cada região.
Os pesquisadores identificaram três perfis regionais principais:
No Norte e no Centro-Oeste, os eventos foram mais frequentes e longos — episódios persistentes, que duram dias seguidos e impõem ao corpo um estresse térmico prolongado, com impacto sobre rins e equilíbrio de líquidos.
No Sul e no Sudeste, as ondas foram menos duradouras, porém mais intensas em relação ao clima local — picos abruptos que provocam respostas agudas do organismo, como aceleração dos batimentos cardíacos, e que se associam a descompensações cardiovasculares e respiratórias.
O Nordeste ficou num meio-termo, com grande variação interna e aumento da frequência e da duração dos eventos na década de 2010.
🔥 Há ainda uma tendência de avanço: na maior parte dos municípios brasileiros, as ondas de calor ficaram mais frequentes e mais intensas ao longo das duas décadas analisadas.
A distribuição estadual das mortes acompanha de perto o tamanho da população. São Paulo concentrou o maior número absoluto de óbitos atribuíveis ao calor, com 30.813 mortes, enquanto Roraima teve o menor total, com 167.
Mas o quadro muda quando se observa a proporção de mortes associadas às ondas de calor. Nesse recorte, o Amapá aparece com os maiores percentuais em diferentes análises, com frações que chegam a 1,77% nas mortes por doenças respiratórias.
Mortalidade em idosos.
Arte/g1
Para os autores, a principal mensagem prática de todos esses achados é de que o calor extremo precisa entrar de forma mais clara no planejamento da saúde pública. O estudo lista medidas para preparar melhor o SUS diante de eventos cada vez mais frequentes:
⚠️ Alertas antecipados para população e serviços de saúde antes de períodos críticos.
📊 Integração entre clima e saúde para mapear épocas e áreas de maior risco.
👵 Foco nos mais vulneráveis, como idosos e pessoas em pior situação socioeconômica.
🏥 Monitoramento de urgências e emergências para detectar aumento da demanda antes de internações e mortes.
📝 Melhora dos registros de raça/cor e escolaridade para identificar desigualdades com mais precisão.
Para Sávio Raeder, supervisor do projeto Ciência&Clima e analista do MCTI, o trabalho é "um alerta para a urgência dos impactos na saúde humana decorrentes das ondas de calor e a necessidade de priorização de grupos sociais e territórios na busca de soluções que preservem a vida".
Nova espécie de "fungo zumbi" é descoberta no Brasil





