Nas mulheres, deficiência de estrogênio.
Quando o quadro é classificado como hipogonadismo hipogonadotrófico orgânico, o problema está em estruturas do cérebro, como o hipotálamo ou a hipófise, que deixam de produzir os estímulos hormonais necessários para o funcionamento adequado dos testículos ou dos ovários.
A doença pode ser congênita ou adquirida e provocar atraso ou ausência da puberdade, infertilidade, diminuição da libido, redução da massa muscular e da densidade óssea, além de outros impactos sobre a saúde física e reprodutiva.
Testosterona fora das indicações é perigoso
A incorporação ocorre em um momento de crescimento do mercado de testosterona no Brasil.
Dados da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) obtidos pelo g1 mostram que as vendas de undecilato de testosterona passaram de 162 mil unidades em 2015 para mais de 640 mil em 2025 — um aumento de quase 300% em dez anos.
O aumento acontece em paralelo à popularização do hormônio nas redes sociais e em clínicas que prometem benefícios como ganho de massa muscular, emagrecimento, aumento de energia, melhora da disposição e rejuvenescimento.
Especialistas, porém, ressaltam que as indicações reconhecidas para a testosterona continuam sendo limitadas.
Em homens, o uso é recomendado para casos de deficiência hormonal comprovada — o hipogonadismo — geralmente em formulações injetáveis ou em gel. Em pessoas transmasculinas, o hormônio também pode ser utilizado em protocolos especializados de afirmação de gênero.
Nas mulheres, a indicação é ainda mais restrita. Segundo as diretrizes médicas, o único uso reconhecido é para o transtorno do desejo sexual hipoativo, após avaliação criteriosa e exclusão de outras causas. Mesmo nesses casos, as recomendações envolvem formulações manipuladas em gel e não implantes.
O g1 mostrou como esses hormônios têm sido indicados irregularmente na forma de "pellets hormonais", implantes subcutâneos que liberam testosterona de forma contínua. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) afirmam que o uso da testosterona para menopausa, ganho de massa muscular, emagrecimento, melhora da disposição ou rejuvenescimento não tem respaldo científico nem autorização do Conselho Federal de Medicina.
A ginecologista Zsuzsanna Di Bella, professora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Febrasgo, afirma que faltam estudos que demonstrem a segurança e a previsibilidade da absorção hormonal nos implantes.
"Na forma de pellets, não temos estudos que demonstrem quanto tempo dura a testosterona no organismo da mulher, como é a absorção. É muito variado e depende da farmácia de manipulação", explicou em entrevista anterior ao g1.
Para o endocrinologista Clayton Macedo, professor da Unifesp e diretor da SBEM, mesmo em países onde existem versões industrializadas aprovadas, a estratégia apresenta limitações.
"Mesmo nessas formulações, a liberação do hormônio é considerada errática, com variações imprevisíveis de pico e duração", afirmou.
O que muda para adolescentes?
A incorporação amplia o acesso a tratamentos usados para induzir a puberdade em adolescentes que não conseguem iniciar espontaneamente esse processo por causa da doença.
Para meninas, o SUS passará a oferecer o estradiol em adesivo transdérmico, uma forma de administração que permite liberação gradual do hormônio pela pele e busca reproduzir de maneira mais próxima a exposição hormonal natural da puberdade.
Para meninos, a rede pública passará a disponibilizar formulações de testosterona utilizadas para promover o desenvolvimento das características sexuais secundárias e a progressão da puberdade.
Segundo o Ministério da Saúde, os tratamentos deverão estar disponíveis no SUS em até seis meses.





