“Me ajudou a levantar: ‘eu quero que você tire o roupão e eu quero que vc ande até o final do corredor’. A postura em que ele tava foi desagradável de ver porque ele não tava numa postura de médico. Ele tava numa postura de um homem que tava sentindo prazer com o que ele tava vendo”, relembra.
Há 14 anos ela carregava essa dor, até que, na semana passada, ouviu o relato de outras mulheres que também passaram por isso.
“A gente começou a conversar, uma apoiando a outra. Ali já te encoraja a, tipo, antes tarde do que nunca. O ponto final vai acontecer.”
O ginecologista Carlos Alfredo Mendes de Oliveira é investigado por violação sexual mediante fraude
Reprodução/TV Globo
Nesta segunda (8), mais vítimas procuraram a Delegacia de Atendimento à Mulher de São João de Meriti. Todas elas afirmam que foram abusadas pelo médico ginecologista Carlos Alfredo Mendes de Oliveira.
Desde a primeira reportagem na semana passada, no RJ1, mais 10 mulheres foram até a delegacia para fazer o boletim de ocorrência contra o médico ginecologista.
Ao todo, já são 16 casos registrados. Os relatos são parecidos. As mulheres contam que foram abusadas enquanto estavam sozinhas com o médico, durante a consulta.
“Fez o procedimento de toque na mama, fez o preventivo que era o meu objetivo principal, e ao final do preventivo, ele perguntou se eu fazia anal. Eu não entendi muito bem a pergunta", contou uma paciente.
No dia 25 de março, a polícia pediu a prisão do médico a partir de dois inquéritos que foram concluídos.
A decisão da Justiça saiu no dia 1º de abril, negando a prisão dele com a justificativa que se tratava de um idoso. A juíza afirmou que a prisão se revelaria uma medida desproporcional, se considerar a existência de mecanismos alternativos.
O médico teve o registro profissional suspenso e passou a ser obrigado a comparecer em juízo para justificar as atividades.
“Ele não pode continuar atendendo. Pra que outras mulheres não passem por isso, a gente precisa agir.”
Mulher diz que foi vítima de abuso durante consulta médica
Reprodução/TV Globo
O RJ1 perguntou ao Tribunal de Justiça se o caso seria reaberto depois do surgimento de tantas novas vítimas, mas a resposta foi apenas que o processo tramita em segredo de justiça.
Uma outra mulher voltou à delegacia nesta segunda. Ela já tinha feito o boletim de ocorrência contra o médico havia quase 6 anos, em outubro de 2020, e contou que o abuso aconteceu durante o exame de preventivo numa unidade pública de saúde de São João de Meriti.
“Foi no posto de saúde, tinha auxiliar dele no posto, ela pediu pra eu poder tirar a roupa. Apalpou o seio com a mão cheia, depois ele pediu pra eu levantar, ficar de frente pra ele, apalpou com a mão cheia de novo, pediu pra eu virar de costa, apalpou de novo com a mão cheia e no final ele me deu dois tapinhas na bunda e pediu pra eu me vestir.”
Mas o caso foi arquivado por falta de provas. Quatro anos depois, voltou à polícia para ser testemunha em outra investigação contra o médico e pediu que a denúncia dela fosse investigada, mas o pedido foi negado.
“Aí eu fiquei sem reação. É como se eu tivesse mentido, né?” Ela não desistiu. Nesta segunda, pela terceira vez, esteve na polícia.
No site do Conselho Regional de Medicina, o registro de Carlos Alfredo aparece suspenso. Mas no consultório onde ele trabalhava, o porteiro disse que ele tinha atendido de manhã.
Uma equipe do Conselho esteve nesta manhã no consultório do médico. O local estava fechado e sem placa de identificação.
"Chegamos no local e recebemos a informação de que o consultório encontra-se fechado. Lembrando que um processo no Cremerj está na Corregedoria sob sigilo", disse a diretora do Departamento de Fiscalização do Cremerj, Renata Lima.
Desde a semana passada, a reportagem tenta falar com o médico várias vezes, mas ele não responde e nem atende as ligações.
Além do trauma, para todas essas mulheres, fica a sensação de abandono.
“Aquele sentimento de impunidade, né? Porque parece que tudo que é feito pra mulher é menos visível. Com tantas leis que nos protegem hoje, essa lei não é aplicada da forma como deveria ser.”
A Prefeitura de São João de Meriti disse que o médico Carlos Alfredo Mendes de Oliveira trabalhou na rede de saúde da cidade até 2023, no período da gestão anterior, mas não tem mais vínculo de trabalho com o município.
Paciente denunciou caso de abuso em delegacia
Reprodução/TV Globo
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