Do rap à Faria Lima: como o bombojaco foi incorporado pelo mundo corporativo em SP
O que o frio, a cidade de São Paulo e os Racionais MC's têm em comum? Ela: a famosa jaqueta de gominhos, a blusa do boneco Michelin. Para além dos apelidos, essa peça tão democrática do guarda-roupa paulistano também atende pelos seguintes nomes: "jaqueta puffer" e "bomber jacket", que deu origem ao termo "bombojaco".
Basta o termômetro ficar abaixo da casa dos 20ºC para ela dominar as ruas, estações e escritórios da capital paulista. O coletinho, um irmão sem mangas, também já foi associado a executivos da Avenida Faria Lima.
Mas bem antes de virar o uniforme informal do paulistano no inverno, a blusa dominava e fazia parte do cotidiano da periferia e da cultura do rap paulista, já diziam os Racionais MCs em 2002:
"E pra você que está pensando em fazer um pião
Pegue seu bombojaco e sua touca
Porque faz 10°C em São Paulo
A lua cheia clareia as ruas do Capão
Acima de nós, só Deus, humilde, né não, né não?
[.] Cof, cof, ah, esse frio tá de foder!
Terça-feira é ruim de rolê, vou fazer o quê?"
Música 'Da Ponte Pra Cá', dos Racionais MC's
álbum Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002)
Naquela época, naquele contexto, o casaco não era só tendência de inverno, mas símbolo de identidade, proteção e pertencimento. Mais de 20 anos depois, a mesma peça cruzou a ponte e ganhou um novo significado, como explicam especialistas ouvidos pelo g1.
“Na Faria Lima, a puffer virou um código social”, afirma Valeska Nakad, coordenadora do curso de Design de Moda do Centro Universitário Belas Artes. “Ela não comunica mais apenas frio. Comunica eficiência, mobilidade, atualização estética e pertencimento a uma economia contemporânea.”
A jaqueta que resolve a vida do paulistano
Mano Brown veste um bombojaco no podcast 'Mano a Mano'
Jef Delgado
O sucesso da puffer na capital passa pela praticidade. Em uma cidade em que a temperatura pode variar 15ºC entre a manhã e a noite, a peça virou solução quase perfeita para essa gangorra climática.
"Se a gente pensar na característica mais comum, é que ela é resistente ao vento, funciona como corta-vento e tem um alto poder de reter calor. Além de tudo, é leve. São três itens que, numa cidade como São Paulo — onde de manhã é frio, no almoço, é quente e, no final do dia, volta a ser frio novamente —, ela traz boas características de resolver isso de uma maneira muito fácil", destacou Marcio Ito, professor de moda da faculdade Santa Marcelina.
“As jaquetas puffer conseguem reter o ar quente com extrema eficiência, ao mesmo tempo em que permanecem relativamente leves. Isso as torna práticas para a vida urbana, viagens, deslocamentos diários. É fácil de dobrar e transportar”, explica Nakad.
Jaqueta puffer é tendência em São Paulo
g1
Montanha ➡️ hip hop ➡️ popularização
Apesar de ser associada ao universo corporativo nos dias de hoje, a origem da puffer está nas montanhas — é ligada à sobrevivência em ambientes extremos.
Nakad lembra que o primeiro modelo da peça é atribuído ao americano Eddie Bauer, fundador da marca que leva seu nome. Em 1936, depois de quase sofrer hipotermia durante uma pescaria, ele desenvolveu a “Skyliner”.
Nas décadas seguintes, marcas voltadas ao montanhismo e a esportes de neve transformaram o item em equipamento técnico para frio intenso. Até que, nos anos 1980 e 1990, deixou de ser restrito ao ambiente esportivo para ganhar as ruas.
"Artistas como LL Cool J e, mais tarde, The Notorious B.I.G. ajudaram a transformar as puffers oversized em peças aspiracionais e símbolos de estilo. Nos anos 2000 a 2010, a moda de luxo implementou a peça ao segmento. A marca Moncler, fundada em 1952 originalmente para vestuário alpino, tornou-se um verdadeiro símbolo de luxo e status. Em 2009, a marca japonesa Uniqlo apresentou uma nova proposta: ultraleve, compactável, acessível, minimalista e urbana. Foi um ponto de virada importante", diz ela.
Jaqueta puffer é peça comum em São Paulo
g1
O bombojaco da periferia
No Brasil, especialmente em São Paulo, a peça ganhou força justamente pelas mãos da cultura periférica e do rap. A professora Janice Accioli, do curso de Design de Moda da Universidade Anhembi Morumbi, aponta que o significado da peça naquele contexto ia muito além da roupa de frio.
“O bombojaco tinha um valor simbólico muito forte. Era associado à resistência, à vivência urbana, à identidade periférica. Também tinha uma dimensão de proteção simbólica e física contra a dureza da cidade.”
Nakad vê a referência dos Racionais como um marco importante da história da moda brasileira: “Mais do que uma peça de roupa, aparece como marcador territorial, climático, econômico e identitário”, diz.
Na periferia, segundo Marcio Ito, da faculdade Santa Marcelina, o visual tradicionalmente aparece em versões mais volumosas, encorpadas, "como se fosse uma musculatura".
“Na Faria Lima, ela é mais flat, próxima do corpo. São formas diferentes de vestir e de se relacionar com a peça”, destaca.
Como a Faria Lima adotou a peça
Se nos anos 2000 o bombojaco era símbolo das ruas, hoje ele também é quase que um uniforme dos "faria limers". Poucos minutos parado na avenida da Zona Oeste já são suficientes para testemunhar dezenas de executivos montados em bicicletas elétricas e usando a jaquetinha puffer.
“A geração que hoje ocupa os escritórios da Faria Lima cresceu consumindo streetwear, sneakers e cultura digital. Esse público começou a rejeitar códigos corporativos rígidos, como terno completo e gravata diária, e passou a valorizar conforto, performance e mobilidade", explica Valeska Nakad.
De acordo com a professora, a pandemia acelerou ainda mais essa transformação com o home office e a valorização de roupas confortáveis entre 2020 e 2022.
Para Ito, o comprimento mais curto da jaqueta também ajuda na adaptação ao guarda-roupa corporativo brasileiro. “Ela fica próxima da lógica de um paletó: mais austera, mais prática e adequada à nossa cultura urbana."
Fora isso, a peça se transformou num ícone democrático capaz de agradar gregos e troianos, homens e mulheres da "classe A" até a Z. Na internet, é possível achar modelos por menos de R$ 100 e marcas que cobram mais de R$ 15 mil:
Initial plugin text
Apropriação ou transformação?
Para a professora Janice Accioli, essa passagem que o bombojaco teve da periferia para a Faria Lima pode ser entendida como um "sequestro" da moda de um lugar originário para outro.
"Eu acho que significa, sim, um processo de circulação e ressignificação. A moda sempre transitou entre diferentes grupos sociais, mas o que acontece muitas vezes é uma apropriação sem reconhecimento da origem."
"No caso da puffer, ela já carregava um significado forte nas periferias, ligado à identidade, ao pertencimento e também à proteção simbólica e física. Quando isso chega ao ambiente corporativo, esse sentido original muitas vezes se dilui, e a peça passa a ser lida só como tendência", completou.
Snoop Dogg e Run–D.M.C. usando bombojaco
Arquivo pessoal de Jam Master Jay/@jammasterjay





