Entenda por que o RS é um dos únicos estados do Brasil sem atuação do Comando Vermelho
O Rio Grande do Sul se mantém como um dos poucos territórios no Brasil sem controle territorial direto do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), facções que o governo dos Estados Unidos anunciou que vai incluir em sua lista de Organizações Terroristas Estrangeiras.
🔍 A medida americana, divulgada nesta quinta-feira (28), entra em vigor em 5 de junho e equipara os grupos brasileiros a organizações como Al-Qaeda, Hamas e Estado Islâmico. A lista, criada pelo governo de Bill Clinton em 1996, visa identificar grupos estrangeiros que realizam atividades terroristas ou representam risco à segurança dos Estados Unidos.
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Apesar do alcance internacional que embasa a decisão norte-americana, o PCC e o Comando Vermelho esbarram na organização local gaúcha. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) apontam que o estado é, ao lado de São Paulo e do Distrito Federal, um dos únicos locais do país onde o CV não possui células dentro do sistema carcerário.
No caso do PCC, a aproximação no estado ocorre apenas por viés comercial e por influência estrutural. Especialistas apontam que uma das facções da Região Metropolitana, originada nas cadeias gaúchas, apresenta semelhanças com a organização paulista no modo de atuação e na capacidade de infiltração em diferentes segmentos formais.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registra que o estado chegou a reunir cerca de dez facções diferentes ao mesmo tempo. Essa alta concentração gerou concorrência, e as lideranças criminosas do Rio Grande do Sul criaram um pacto cultural de resistência, não cedendo espaço aos grupos externos.
Em vez de disputarem apenas a capital, as quadrilhas gaúchas se anteciparam e interiorizaram o domínio territorial, ocupando espaços que poderiam atrair facções forasteiras.
O juiz de Direito Sidinei Brzuska, com mais de duas décadas na Vara de Execuções Criminais (VEC) de Porto Alegre, destaca que, nos últimos anos, se intensificou a expansão das facções do estado para o interior.
"Praticamente todas as prisões mais relevantes são dominadas. Pararam de disputar pontos de tráfico aqui [Porto Alegre] e foram dominar cidades que ainda não tinham crime organizado, ampliaram a base territorial. Não ficou vácuo de poder para gente de fora vir aqui ocupar", avalia.
Autor do longa-metragem "Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil" e do livro "Falange gaúcha", o jornalista especializado em segurança pública Renato Dornelles cita ainda a identidade cultural.
"A dificuldade do CV em entrar no sistema penitenciário gaúcho tem muito disso. É uma espécie de pacto informal das facções daqui, para nenhuma ceder espaço para facção de fora. Também é uma questão cultural", pontua.
A Secretaria da Segurança Pública do RS considera que o estado é "notabilizado por características socioculturais muito peculiares" e que "está distante do centro do país e de suas principais rotas logísticas".
"Esses dois fatores socioculturais e geopolíticos se somam a ação vigilante e contundente dos órgãos de segurança pública gaúchos", alega a pasta.
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Mauro Pimentel/AFP
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