Justiça do Rio retoma julgamento do caso Henry Borel
A disputa entre as defesas de Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, e de Monique Medeiros se tornou um dos principais elementos do julgamento pela morte do menino Henry Borel, de 4 anos, no Tribunal do Júri do Rio.
A ruptura entre as estratégias ficou ainda mais evidente após a Justiça autorizar que Jairinho seja interrogado depois do depoimento de Monique. A defesa do ex-vereador alegou que a mãe de Henry passou a adotar uma narrativa que atribui exclusivamente a ele a responsabilidade pelas agressões e pela morte da criança.
Segundo os advogados de Jairinho, ouvir Monique antes permitirá que o réu conheça previamente as acusações feitas pela ex-companheira e possa exercer plenamente o direito de defesa durante o interrogatório.
"Não é possível que aquele que está sendo acusado tenha de se manifestar antes da acusação. Isso é básico em qualquer Estado de Direito. Para se defender adequadamente, é necessário conhecer o conteúdo exato da acusação", disse advogado Rodrigo Faucz.
Além das teses técnicas, a defesa de Jairinho também tenta invalidar provas digitais obtidas pela investigação, alegando falhas na cadeia de custódia dos celulares analisados pela polícia.
Outro eixo importante da estratégia é atacar diretamente a credibilidade de Monique. Ao longo do processo, os advogados de Jairinho passaram a descrever a mãe de Henry como uma mulher “ambiciosa”, “manipuladora” e “incapaz de ser dominada”.
A defesa também contesta a tese de que ela vivia sob submissão psicológica do ex-vereador. Durante o júri, o psiquiatra Rafael Bernardon — testemunha da acusação — afirmou que Monique “subordina sistematicamente o bem-estar do filho aos seus próprios interesses narcísicos e ambições materiais”.
A declaração passou a ser utilizada pela defesa de Jairinho como argumento contrário à alegação de dependência psicológica apresentada por Monique.
A estratégia de Monique
Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, usava uma camiseta com fotos do filho no julgamento em março Jornal Nacional/ Reprodução
Já a defesa de Monique Medeiros segue caminho oposto. Os advogados da mãe de Henry tentam afastá-la da dinâmica das agressões e dizem que ela vivia um relacionamento abusivo, marcado por manipulação psicológica, controle e violência praticados por Jairinho.
Segundo essa linha defensiva, Monique não teria participado das agressões nem compreendido plenamente a gravidade da situação envolvendo o filho.
Os advogados também afirmam que os primeiros depoimentos prestados por ela foram influenciados pela antiga estratégia conjunta de defesa adotada pelo casal.
A tese central é a de que Monique foi vítima de violência psicológica e acabou “não acreditando no próprio filho”.
Nos bastidores do processo, a defesa adotou a tese de que Jairinho reproduzia um padrão de violência contra crianças de ex-companheiras.
Durante o julgamento, o psiquiatra Rafael Bernardon afirmou identificar um “padrão repetitivo de abuso infantil” atribuído ao ex-vereador
“Há um padrão de prazer em infligir dor em crianças”, disse o especialista.
A defesa de Monique também busca reforçar episódios anteriores envolvendo outras ex-companheiras de Jairinho e relatos sobre supostas agressões contra outras crianças.
O que a acusação tenta demonstrar
Embora as defesas tenham seguido caminhos opostos, o Ministério Público afirma que ambos participaram, de formas diferentes, da dinâmica que levou à morte de Henry.
Segundo a acusação, Jairinho praticava agressões contra o menino, e Monique tinha conhecimento das violências, mas se omitiu.
Durante o julgamento, o delegado Edson Henrique Damasceno afirmou que mensagens encontradas no celular de Monique revelaram episódios anteriores de agressão e indicavam que ela já desconfiava do comportamento de Jairinho com o filho.
O psiquiatra Rafael Bernardon também afirmou que Monique recebeu “múltiplos sinais de alarme” antes da morte da criança.
As oitivas seguem no Tribunal do Júri nesta quinta-feira (28) e ainda devem durar vários dias.





