A defesa de Mariana Laranja afirmou que a profissional possui "atuação consolidada e registro regular como especialista em Harmonização Orofacial". Sobre a investigação criminal, destacou que o indiciamento é apenas uma etapa inicial e que o Ministério Público solicitou perícias técnicas complementares. Confira o posicionamento na íntegra abaixo.
Segundo a Polícia Civil, Mariana e Nathan agiram com "imperícia e imprudência" nos casos investigados ao realizar procedimentos irregulares, com falta de habilitação específica e atuação além dos limites legais.
As cirurgias foram realizadas sem exames pré-operatórios, avaliação de risco cirúrgico ou estrutura adequada para lidar com possíveis complicações.
"As vítimas relataram que, após os procedimentos, passaram a apresentar complicações como abertura de pontos (deiscência de sutura), secreção purulenta, dor intensa, sangramento persistente e necessidade de atendimento médico externo", aponta o relatório.
Mariana Barros Laranja Roeder, 44 anos, e o sobrinho e sócio Nathan Laranja Roeder Holz, 25, foram indiciados por lesão corporal culposa
Reprodução/Rede social
A investigação resultou no indiciamento dos dois dentistas por três crimes de lesão corporal culposa, em concurso material, um relacionado a cada vítima.
Sobre os processo em andamento no CRO-ES, o conselho informou que tramitam em sigilo no Conselho de Ética e que, enquanto não houver decisão definitiva, os detalhes das investigações não podem ser divulgados nem há impedimento automático para o exercício profissional.
Pacientes possuem relatos semelhantes
Na internet, a dentista divulga o procedimento como minimamente invasivo, e foi essa aparente simplicidade que atraiu as três mulheres citadas no inquérito para a clínica da investigada, em dezembro de 2025.
Segundo tabela de preços divulgada no site da dentista, o procedimento custa R$ 10 mil, cerca de um quinto do valor cobrado, em média, por cirurgiões plásticos.
As pacientes ouvidas pela polícia têm 42, 48 e 60 anos. A pedido delas, que preferiram não ter as identidades reveladas, o g1 utiliza nomes fictícios de Ana, Renata e Júlia.
Três pacientes relataram deformidades, infecções graves e complicações permanentes após mini lifting facial realizado pela dentista Mariana Laranja
TV Gazeta
"Ana" contou à polícia que sentiu dores intensas, enjoo e hipotermia ainda nas primeiras horas após o procedimento. Dias depois, houve abertura das feridas no rosto.
"Me bateu um desespero. Meu rosto ficou com duas moedas abertas debaixo da orelha. Quando relatei o problema, ela usou as palavras: 'O corpo é incrível, você vai se recuperar'. Eu demorei quatro meses para a ferida fechar por completo e fiquei com duas cicatrizes bastante alargadas no rosto", contou.
"Renata" relatou sangramentos persistentes, secreções e abertura da ferida cirúrgica. Ela precisou passar por sessões de câmara hiperbárica e buscar atendimento médico externo em uma clínica especializada, onde disse ter conhecido outras mulheres com lesões semelhantes.
"Eu encontrava pessoas na recepção com os mesmos curativos que eu no rosto. Aí perguntavam: 'Foi também com a doutora Mariana?'. E eu falava: 'Foi'", lembrou.
Já "Júlia" desenvolveu um quadro de infecção grave com secreção purulenta e exposição de tecido após rompimento da pele.
As três afirmaram que precisaram recorrer a antibióticos, enfermeiras particulares, tratamentos regenerativos e acompanhamento com cirurgiões plásticos após o agravamento das lesões.
Para a polícia, a semelhança entre os casos reforça a conclusão de que houve imperícia e inadequação na técnica utilizada pelos dentistas. "O relatório descreve risco de sequelas e cicatrizes permanentes", aponta a investigação.
Segundo o inquérito, quando os procedimentos foram realizados, a clínica funcionava com o alvará sanitário vencido havia três meses.
Instituto Laranja, onde atuam Mariana e Nathan Laranja, fica na Praia da Costa, em Vila Velha, Espírito Santo
TV Gazeta
A Vigilância Sanitária de Vila Velha foi procurada para esclarecer quais atividades são autorizadas no Instituto Laranja, clínica da dentista Mariana Laranja, incluindo se o alvará sanitário permite a realização de cirurgias com descolamento tecidual, como o "mini lifting facial", e se a licença sanitária do estabelecimento está regular.
Em nota, foi informado que a empresa da dentista recebeu licença sanitária em 14 de setembro de 2022 para exercer a atividade de “odontologia com recursos para realização de procedimentos cirúrgicos”. Segundo o órgão, o documento tinha validade até 14 de setembro de 2025.
Um pedido de renovação da licença sanitária foi protocolado em 3 de outubro de 2025 e ainda segue em tramitação.
Sobre a realização de procedimentos invasivos, como o “mini lifting facial”, a Vigilância Sanitária informou que esse tipo de atividade é avaliada durante o processo de licenciamento e nas ações de fiscalização. No entanto, afirmou que, “até a conclusão da análise do processo de licenciamento sanitário, não é possível afirmar objetivamente quais procedimentos específicos encontram-se autorizados”.
A Vigilância Sanitária não esclareceu quais procedimentos estão efetivamente autorizados ou se nesse período a clínica pode realizar qualque tipo de procedimento.
Segundo a Polícia Civil, Mariana e Nathan Laranja agiram com “imperícia e imprudência” ao realizar cirurgias invasivas sem exames pré-operatórios, avaliação de risco cirúrgico e estrutura adequada para lidar com possíveis complicações
Reprodução
Procedimento extrapolava limites da odontologia, diz polícia
A Polícia Civil concluiu que o procedimento extrapola os limites permitidos para profissionais especializados apenas em harmonização orofacial.
"A imperícia se evidencia na realização de procedimento cirúrgico invasivo possivelmente além dos limites legais da atuação odontológica", afirma o relatório.
A investigação aponta ainda que os profissionais não demonstraram aptidão técnica para cirurgias com descolamento tecidual e incisões extensas.
Segundo o documento, Mariana realizava as incisões e o descolamento da pele. Nathan atuava nas suturas.
Apesar de a defesa dos dentistas classificar durante depoimento prestado à polícia que a técnica de "mini lifting facial" como "minimamente invasiva", assim como divulgado no site do Instituto Laranja, o termo de consentimento assinado pelas pacientes descreve o procedimento como cirurgia plástica. O termo "dentista" não é mencionado, mas a palavra "médico" aparece 11 vezes.
Mariana Barros Laranja Roeder, 44 anos, foi indiciada por lesão corporal culposa após procedimentos de mini lifting facial Reprodução/Rede social
A investigação aponta ainda que não foram realizados exames laboratoriais prévios nem avaliação de risco cirúrgico antes dos procedimentos.
Em depoimento, Mariana afirmou que não costumava solicitar exames porque considerava o mini lifting um procedimento de “baixo impacto”.
Em um dos casos, segundo a investigação, não houve sequer preenchimento da ficha de anamnese, usada para registrar o histórico de saúde do paciente.
ES não possui dentistas habilitados para mini lifting
Quando os procedimentos foram realizados nas três pacientes citadas no inquérito, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) não permitia que dentistas realizassem lifting e mini lifting facial. A proibição estava prevista na resolução n° 230 do conselho.
No entanto, em março deste ano, o entendimento mudou. A resolução n° 286 reconheceu a cirurgia estética orofacial como especialidade odontológica. Com isso, dentistas passaram a poder realizar mini lifting facial, desde que possuam habilitação específica e registro regular.
Segundo a dentista especialista em harmonização orofacial e integrante da Câmara Técnica do CRO-ES, Luciene Martins, para realizar mini lifting facial o profissional precisa ter habilitação específica em cirurgia estética da face, com especialização de 3 mil horas, ou formação em cirurgia bucomaxilofacial e harmonização orofacial, ambas registradas no CFO.
Mariana e Nathan Laranja foram indiciados por lesão corporal culposa após procedimentos de mini lifting facial. Na internet, em algumas publicações, eles falam sobre "cirurgias estéticas".
Reprodução/Rede social
Ela afirmou que, até 20 de maio de 2026, nenhum dentista havia solicitado registro para atuar oficialmente com cirurgia estética orofacial no Espírito Santo.
“Qualquer dentista que esteja fazendo mini lifting hoje está fora da regra do CRO-ES porque não temos nenhum inscrito no estado”, disse.
O que diz a defesa da dentista
Confira na íntegra o posicionamento enviado pelo escritório Jordan Neves Advogados, que representa os dentistas Mariana e Nathan Laranja:
"O Instituto Laranja, por meio de sua responsável técnica Dra. Mariana Barros Laranja Roeder, vem a público prestar esclarecimentos acerca das informações recentemente divulgadas envolvendo procedimentos estéticos faciais realizados na clínica.
Inicialmente, é importante esclarecer que a Dra. Mariana é cirurgiã-dentista regularmente inscrita no Conselho Regional de Odontologia, com formação, especializações e atuação consolidada na área de Harmonização Orofacial, exercendo suas atividades há anos de forma pública, técnica e profissional, inclusive com participação em cursos, mentorias e capacitações nacionais e internacionais.
Os procedimentos mencionados nas recentes divulgações ocorreram dentro de contexto profissional regularmente exercido, em cenário normativo que, à época dos fatos, encontrava-se em ampla discussão técnica e jurídica em todo o país quanto à atuação odontológica em procedimentos estéticos faciais.
Importante destacar que o próprio Conselho Federal de Odontologia editou posteriormente a Resolução CFO nº 286/2026, reconhecendo formalmente a Cirurgia Estética Orofacial como especialidade odontológica, inclusive contemplando procedimentos estéticos faciais específicos dentro da atuação do cirurgião-dentista habilitado.
Também existem precedentes judiciais relevantes questionando limitações anteriormente impostas por normas administrativas elacionadas ao tema, o que evidencia a existência de debate jurídico e regulatório legítimo sobre a matéria. Esclarece-se ainda que o indiciamento mencionado representa etapa inicial investigativa, não equivalendo a condenação, responsabilização definitiva ou conclusão pericial final acerca dos fatos. Inclusive, o próprio Ministério Público requereu complementação das investigações e realização de laudos periciais técnicos antes de qualquer conclusão definitiva.
Como ocorre em qualquer procedimento estético ou cirúrgico, existem intercorrências clínicas inerentes à resposta biológica individual de cada paciente, circunstâncias amplamente conhecidas na literatura técnica e previamente esclarecidas nos documentos de consentimento apresentados aos pacientes.
A Dra. Mariana sempre permaneceu à disposição para acompanhamento e suporte pós-procedimento, dentro dos limites técnicos e clínicos aplicáveis, reiterando seu compromisso com a ética, responsabilidade profissional, transparência e respeito aos pacientes. O Instituto Laranja reafirma sua confiança nas instituições e no devido processo legal, esclarecendo que toda defesa técnica e jurídica será apresentada integralmente nas vias apropriadas e perante as autoridades competentes. A complexidade técnica, normativa e pericial envolvida no caso exige cautela na divulgação de informações ainda submetidas à análise das autoridades responsáveis.
O Instituto Laranja confia que qualquer divulgação pública observará os princípios da responsabilidade jornalística, imparcialidade, contextualização adequada dos fatos e presunção de inocência, evitando conclusões precipitadas ou interpretações descontextualizadas".
Ministério Público
O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) informou que acompanha com atenção os fatos apurados no inquérito policial referente ao caso.
Após análise inicial dos autos, o procedimento foi encaminhado à Polícia Civil para a realização de diligências complementares consideradas necessárias ao esclarecimento dos fatos.
"O Ministério Público seguirá acompanhando o caso e adotará as providências cabíveis após a conclusão das diligências e a análise dos elementos reunidos na investigação. Por se tratar de procedimento que tramita sob sigilo judicial, não é possível divulgar outras informações neste momento", disse em nota.
Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo
Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo




