Inundações causadas pelo fenômeno El Niño de 2016-2017 no Peru afetaram 1,9 milhão de pessoas
Sandro Chambergo/AP
Nem os cientistas concordam totalmente sobre quando foi que o último “super” El Niño aconteceu.
Para parte deles, o fenômeno mais recente desse porte foi o de 2015-2016, considerado o mais intenso já registrado na era moderna.
Já em 2023-2024, as temperaturas ficaram em torno de 2 °C acima da média no auge do fenômeno, beirando o limite usado por parte da comunidade científica para definir um “super” El Niño.
E a escolha entre uma e outra definição não muda apenas o nome do evento.
Ela ajuda a explicar um padrão que vem chamando a atenção de pesquisadores: os intervalos entre os El Niños mais intensos estão diminuindo.
A previsão da NOAA, agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, divulgada no começo deste mês é a de que um novo episódio forte ou muito forte deve se desenvolver até o fim de 2026, com 96% de probabilidade de persistir entre dezembro deste ano e fevereiro de 2027.
Agora no g1
Já projeções recentes do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) chegaram a indicar valores próximos de 3°C, acima do limiar usado para classificar eventos muito fortes.
Mas interpretar esse número exige cuidado. Isso porque “super El Niño” não é uma categoria oficial única: em geral, cientistas usam esse termo para eventos muito acima da média, mas o limite exato pode variar conforme o critério adotado
A NOAA, por exemplo, reconhece o patamar de 2 °C como o limiar informal para um El Niño "muito forte" ou "historicamente forte", enquanto 1,5 °C marca a categoria "forte".
Cada um tem características próprias, mas todos provocaram desastres em larga escala em diferentes partes do planeta:
1972-1973, com pico de 2,1 °C.
Marcou o início da pesquisa científica sistemática sobre o fenômeno. Secas atingiram América Central, Sahel, Austrália, Brasil, Índia, Indonésia e União Soviética. Na época, a produção global de alimentos caiu pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra. No Peru, a indústria pesqueira colapsou e milhões de aves marinhas morreram de fome.
1982-1983, pico de 2,2 °C.
Em pontos mais próximos da costa do Peru, a anomalia chegou a 4 °C em alguns momentos, e o fenômeno durou quase dois anos. Cerca de 2 mil pessoas morreram em decorrência direta do evento, e centenas de milhares foram deslocadas. No Nordeste do Brasil, provocou uma das piores secas do século 20.
1997-1998, com pico de 2,4 °C.
Foi o mais forte do século 20 e popularizou o termo "El Niño" para o grande público. Causou ao redor de 23 mil mortes, segundo a ONU, e a morte de 16% dos sistemas de recifes do mundo. Surtos de cólera devastaram a África Oriental nos primeiros meses de 1998.
2015-2016, com pico de 2,6 °C, o maior do registro moderno.
Afetou mais de 60 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde, principalmente no leste e sul da África, América Latina, Caribe e Ásia-Pacífico. Na Amazônia, a seca extrema combinada às queimadas matou cerca de 2,5 bilhões de árvores em uma área que representa 1% da floresta brasileira.
2023-2024, com pico de cerca de 2 °C, no limite da classificação muito forte.
Levou a temperatura média global a ultrapassar pela primeira vez 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Provocou duas secas consecutivas na bacia amazônica, com rios em mínimas históricas, e foi a peça de fundo das enchentes que mataram 181 pessoas no Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024.
"Desde o El Niño de 1982/83, que foi o segundo mais intenso do século passado, o mundo vem estudando em mais detalhe este fenômeno", explica ao g1 Tercio Ambrizzi, especialista em mudanças climáticas e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP.
"Com o avanço dos modelos numéricos de previsão de longo período e os dados observados, atualmente conseguimos ter um conhecimento antecipado de quando este fenômeno irá ocorrer".
A aceleração percebida pelos cientistas aparece de forma mais clara nos dois eventos mais recentes. Ainda assim, como a série histórica reúne poucos episódios desse tipo, a tendência continua estatisticamente frágil, embora esteja alinhada ao que modelos climáticos vêm projetando há mais de uma década.
Hoje, por exemplo, alguns modelos de instituições americanas indicam a possibilidade de um El Niño forte ou até de um ‘super El Niño’ — quando o aquecimento ultrapassa 2 °C — até o fim deste ano e o começo do próximo. Já parte dos modelos europeus projeta um cenário ainda mais intenso.
As projeções mais recentes da NOAA mostram que a chance de um fenômeno muito forte aumentou nas últimas semanas.
Em abril, a probabilidade de o aquecimento do Pacífico ultrapassar 2 °C era de 25%. Agora em maio, subiu para 37%.
Mas os próprios modelos ainda indicam um cenário de grande incerteza. Nenhuma das categorias avaliadas pela NOAA — fraco, moderado, forte ou muito forte — supera 37% de probabilidade neste momento.
Na prática, isso significa que ainda não existe um cenário claramente dominante para a intensidade do fenômeno.
Segundo o último boletim da agência americana, os episódios mais intensos já registrados costumam apresentar um forte acoplamento entre oceano e atmosfera durante o verão do Hemisfério Norte, quando a atmosfera passa a responder de forma mais consistente ao aquecimento das águas do Pacífico.
Esse comportamento ainda não foi observado em 2026, e a NOAA afirma que ainda não é possível saber se ele irá se consolidar nos próximos meses.
A expectativa dos cientistas é que as projeções ganhem mais precisão a partir de junho, quando a chamada “barreira de previsibilidade” da primavera do Hemisfério Norte começa a perder força.
As águas invadem a Avenida Guaíba e o calçadão da Praça Araguaia em razão das fortes chuvas e do vento sul na região do Guaíba, no bairro Ipanema, na zona sul de Porto Alegre (RS), na segunda-feira, 13 de maio de 2024.
DONALDO HADLICH /CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
O que esperar para o Brasil
No Brasil, o Cemaden avalia que, se um cenário mais intenso se confirmar, os próximos meses podem repetir parte dos impactos observados durante o El Niño de 2023-2024.
No Norte e no Nordeste, a tendência indicada é de redução das chuvas, aumento das temperaturas e agravamento das condições de seca.
Já no Sul, os pesquisadores identificam maior propensão a episódios de chuva intensa e persistente, principalmente entre a primavera e o verão.
Uma nota técnica recente do órgão afirma que o Rio Grande do Sul aparece como o estado com “sinal mais robusto” de aumento de risco hidrológico.
O texto cita possibilidade maior de enchentes, inundações, enxurradas e deslizamentos, especialmente em áreas da Serra Gaúcha, do Planalto Meridional e da região de Porto Alegre.
Santa Catarina e Paraná também aparecem com aumento potencial de eventos extremos de chuva, embora com maior variabilidade regional.
O documento também relaciona um eventual El Niño intenso ao aumento das ondas de calor em um contexto de aquecimento global.
Segundo os pesquisadores, os anos de 2023, 2024 e 2025 já registraram recordes recentes de calor e aumento da frequência de ondas de calor no país.
A nota aponta ainda que uma combinação entre seca e temperaturas elevadas pode ampliar o risco de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal.
Nas conclusões, contudo, os pesquisadores reforçam que a análise “não é uma previsão determinística” e deve ser usada para orientar monitoramento, preparação e planejamento antecipado diante de um cenário ainda incerto.
"Cada El Niño monta um novo quebra-cabeça sobre o Brasil. Nenhum evento repete exatamente o anterior, mas alguns padrões aparecem com frequência quando olhamos para o passado", acrescenta Ivo.
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