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Deolane Bezerra fez BO sobre uso indevido de dados dois dias após polícia encontrar depósitos em suas contas, aponta investigação

Polícia prende Deolane Bezerra em São Paulo
Um relatório da Polícia Civil de São Paulo que investiga lavagem de dinheiro detalha o que os investigadores classificam como uma manobra da advogada e influenciadora Deolane Bezerra Santos para tentar "mascarar" movimentações financeiras suspeitas.

Entre os materiais periciados, a polícia encontrou, no celular de Ciro César Lemos, apontado como operador de um esquema de lavagem de capitais por meio de uma transportadora, imagens de comprovantes de depósitos bancários direcionados a contas de Deolane.
Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à prisão de Deolane Bezerra.
Reprodução/TV Globo e Redes Sociais
A investigação aponta que a transportadora em questão não era apenas uma prestadora de serviços, mas uma estrutura criada e dirigida indiretamente pela cúpula da facção.
Exatamente dois dias após a polícia formalizar a descoberta desses depósitos, em 30 de março de 2022, Deolane registrou um boletim na Delegacia Eletrônica de São Paulo.

No registro, a influenciadora afirmou ter descoberto que terceiros "montaram um documento falso" com seus dados e estariam "abrindo contas em bancos e em financeiras" de forma fraudulenta.
Para os investigadores, no entanto, o registro não foi uma coincidência, mas uma reação deliberada. O relatório final afirma que, em virtude de seu "estreito vínculo criminoso" com os investigados, Deolane teria sido avisada sobre os levantamentos realizados pela polícia naquele processo.
Prova de movimentação
A Polícia Civil refuta a tese de fraude apresentada por Deolane no boletim de ocorrência. O relatório sustenta que, se os valores recebidos fossem provenientes de serviços advocatícios lícitos, não haveria necessidade de Deolane tentar "mascarar" as transações ou alegar que as contas eram falsas.
Além disso, o documento destaca que o afastamento do sigilo bancário "comprovou cabalmente" que as contas citadas eram, de fato, movimentadas pela própria Deolane, desmentindo a versão de que seus dados estariam sendo usados indevidamente por terceiros.
A investigação conclui que a influenciadora "empresta toda a sua estrutura financeira e aparente respeitabilidade social" para a integração de valores ilícitos da organização criminosa.
Em ocasiões anteriores, segundo consta no relatório, a defesa de Deolane Bezerra negou qualquer envolvimento com atividades ilícitas, afirmando que suas movimentações financeiras são compatíveis com sua atuação profissional como advogada e influenciadora digital.

Deolane já utilizou redes sociais para ironizar as suspeitas, afirmando em ocasiões citadas no relatório que "lhe pagam bem".
'A Justiça vai ser feita'
"Justiça será feita", diz Deolane Bezerra em saída de delegacia em SP após 2ª prisão
A advogada e influenciadora Deolane Bezerra falou pela primeira vez após ser detida na tarde desta quinta-feira (21).
"A Justiça vai ser feita", disse ao sair da sede da Polícia Civil, no Centro de São Paulo. Na sequência, Deolane foi levada para a Penitenciária feminina de Santana, Zona Norte da capital. A audiência de custódia está prevista para esta sexta-feira (22).
Ainda questionada sobre a lavagem de dinheiro para Marco Willians Herbas Camacho (Marcola), considerado o chefe da facção, Deolane afirmou à TV Globo que estava "trabalhando".

Deolane Bezerra na saída da sede da Polícia Civil em SP
William Santos/TV Globo
Operação
Segundo a investigação, o esquema de lavagem envolve uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau (SP), controlada pela cúpula da facção criminosa, considerada a maior do país.

A transportadora repassava recursos para outras contas, com o objetivo de dificultar o rastreamento de dinheiro. Duas dessas contas estão em nome de Deolane.

Além de Deolane, também foi preso Everton de Souza (vulgo Player), indicado como operador financeiro da organização. Há também um mandado de prisão contra Marcola, que já está preso, além de parentes dele.
Procurado, o advogado de Deolane, Luiz Imparato, disse que está se "inteirando dos fatos". O advogado Bruno Ferullo, que defende Marcola, também afirmou que ainda vai se inteirar do caso. A defesa dos demais não foi localizada pela reportagem.
Outros alvos da Operação Vérnix incluem o irmão de Marcola, Alejandro Camacho, e os sobrinhos dele, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho, que está em Madri.

No total, são seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão. Inicialmente, havia sido informado que Paloma havia sido presa na operação.
Deolane Bezerra passou as últimas semanas em Roma, na Itália. O nome dela chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20).

Entre os trechos analisados, chamou atenção dos investigadores a citação a uma “mulher da transportadora”, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa.
Essa menção deu origem ao segundo inquérito policial, que buscou identificar quem seria a mulher mencionada nos bilhetes e qual seria a relação da transportadora de cargas com o grupo criminoso.

Segundo as investigações, a mulher foi identificada como Elidiane Saldanha Lopes Lemos, então sócia da transportadora Lopes Lemos. Ela já foi condenada, mas está foragida.
As diligências conduziram a uma empresa sediada em Presidente Venceslau, posteriormente reconhecida como empresa de fachada usada pelo crime organizado para lavagem de dinheiro.
A investigação deu origem à Operação Lado a Lado, que em 2021 revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente e a utilização da transportadora como verdadeiro braço financeiro da facção.
Nesta operação, a apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos – indicado como operador central – trouxe para o MP e para a Polícia Civil ainda mais informações sobre a dinâmica de lavagem de dinheiro por meio da empresa de fachada Lado a Lado Transportes (ou Lopes Lemos Transportes).

Isso abriu uma nova frente de investigação, sobre suspeitas de repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital de grande projeção nacional.

A partir das análises, o inquérito apontou que Ciro Cesar Lemos atuava na compra de caminhões, realização de pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e Alejandro e administrava patrimônio em nome deles, o que o coloca como homem de confiança da liderança da facção.
As imagens dos depósitos que favoreciam contas de Deolane Bezerra Santos e Everton De Souza foram localizadas no aparelho celular apreendido na casa de Ciro César Lemos. Ele está foragido, assim como a esposa.
Print de conversa que cita Deolane Bezerra como participante de esquema de lavagem de dinheiro do PCC
Reprodução
Segundo a investigação, os valores provenientes da empresa Lopes Lemos Transportes eram destinados a Marcola, a Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, e a seus familiares. Para as transações, foram usadas as contas de Everton de Souza e Deolane Bezerra.
A apuração ainda constatou que essa influencer possuía estreitos vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora de cargas. Foi a partir desse material que nasceu a Operação Vérnix, terceira etapa da investigação, agora voltada a esmiuçar um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras.
Os levantamentos apontaram a utilização de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição ou vinculação a bens de alto padrão por parte de Deolane Bezerra.
Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram utilizadas como camadas de aparente legalidade para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos.

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