O presidente dos EUA, Donald Trump (à esquerda), posa para fotos com o presidente da China, Xi Jinping, durante uma visita ao Jardim Zhongnanhai, em Pequim, em 15 de maio de 2026.
Evan Vucci / Pool / AFP
A China se comprometeu a comprar pelo menos US$ 17 bilhões (R$ 86,1 bilhões) por ano em produtos agrícolas dos Estados Unidos, além de soja, durante três anos, informou a Casa Branca no último domingo (17), após uma cúpula dos líderes dos dois países em Pequim, na semana passada.
Maior importadora de produtos agrícolas do mundo, a China reduziu drasticamente as compras dos EUA após a guerra comercial do ano passado entre as duas maiores economias globais.
No entanto, os dois países concordaram em expandir o comércio agrícola e eliminar as barreiras não tarifárias para carne bovina e aves, informou o Ministério do Comércio chinês.
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A seguir, os principais detalhes do comércio agrícola entre os países e como essas compras podem evoluir:
O que significa o acordo?
A promessa de US$ 17 bilhões (R$ 86,1 bilhões), além dos compromissos existentes com a soja, levaria o total das importações agrícolas da China nos EUA para perto de US$ 28 bilhões a US$ 30 bilhões (de R$ 141,8 bilhões a R$ 152 bilhões) por ano, segundo operadores e analistas.
O valor ainda fica abaixo do pico de US$ 38 bilhões (R$ 192,5 bilhões) em 2022, mas muito acima dos US$ 8 bilhões (R$ 40,5 bilhões) do ano passado e dos US$ 24 bilhões (R$ 121,6 bilhões) em 2024.
Para atingir essa meta, Pequim terá de ampliar significativamente as compras de trigo, grãos para ração, carne e produtos agrícolas não alimentícios, como algodão e madeira, segundo operadores e analistas.
Pequim cumpriu o compromisso de comprar 12 milhões de toneladas de soja, além de adquirir algum volume de trigo e uma grande quantidade de sorgo, após um acordo firmado em outubro passado entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping.
Como parte desse acordo, a Casa Branca afirmou que a China compraria pelo menos 25 milhões de toneladas de soja por ano.
Redirecionamento das Importações
O aumento das compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos deve ocorrer às custas das exportações de fornecedores rivais.
"Alcançar US$ 17 bilhões anuais excluindo a soja provavelmente exigiria que a China redirecionasse intencionalmente as compras dos fornecedores existentes para os Estados Unidos por motivos políticos e estratégicos, e não por motivos puramente comerciais", disse Cheang Kang Wei, vice-presidente da StoneX em Cingapura, à Reuters.
O Brasil, principal fornecedor de soja da China, com 73,6% de participação no mercado em 2025, também se tornou seu principal fornecedor de milho. No ano passado, a China aprovou as importações de grãos secos de destilaria brasileiros (DDGS), ingrediente para ração animal com alto teor de proteína obtido durante o processo de fabricação de etanol.
A Austrália, que foi o principal fornecedor de trigo da China em 2023 e de sorgo em 2025, pode enfrentar queda na demanda se o trigo e o sorgo dos EUA ganharem terreno. As importações de cevada também podem sofrer pressão, enquanto as maiores compras de carne bovina dos EUA podem reduzir a demanda pela carne bovina premium da Austrália na China.
Outros grandes fornecedores, como o Canadá e a França, no caso do trigo, e a Argentina, no caso do sorgo, também podem ter uma demanda menor.
Soja
Espera-se que a China comece a comprar soja dos Estados Unidos da nova safra para embarques a partir de outubro, já que os preços da produção norte-americana estão competitivos em relação aos brasileiros, segundo operadores do mercado.
"A compra de 25 milhões de toneladas de soja dos EUA não deve ser um problema, pois os preços dos EUA estão bastante atraentes agora", disse um especialista que negocia sementes oleaginosas à Reuters. "Eles podem comprar para esmagamento e também para estocagem."
As estatais Cofco e Sinograin devem liderar as compras de soja dos Estados Unidos enquanto a China mantiver uma tarifa adicional de 10%, segundo operadores.
A China reduziu drasticamente sua dependência da soja dos Estados Unidos desde o primeiro mandato de Donald Trump. Em 2024, o produto norte-americano representou cerca de um quinto das importações chinesas, ante 41% em 2016.
Milho e trigo
É provável que os comerciantes estatais chineses continuem como principais compradores de milho e trigo dos Estados Unidos, já que recebem cotas de importação com tarifas reduzidas.
A China possui cotas de importação de 9,64 milhões de toneladas para o trigo e 7,2 milhões para o milho, com tarifa de 1%. As compras que excedem essas cotas estão sujeitas a tarifas de até 65%.
Em 2025, a China comprou apenas US$ 5 milhões (R$ 25,3 milhões) em milho dos Estados Unidos, bem abaixo dos US$ 561,5 milhões (R$ 2,8 bilhões) registrados no ano anterior. Os embarques foram interrompidos após junho, segundo dados da alfândega chinesa.
As importações de trigo caíram para quase zero em 2025, após somarem 1,9 milhão de toneladas, equivalentes a cerca de US$ 600 milhões (cerca de R$ 3 bilhões), em 2024.
Sorgo e DDGS
Espera-se que a China aumente as compras de grãos para ração, incluindo sorgo, após fortes chuvas prejudicarem a produção no norte do país em 2025.
Ao contrário do trigo e do milho, o sorgo não está sujeito a cotas de importação.
Desde novembro, Pequim comprou pelo menos 2,5 milhões de toneladas de sorgo dos Estados Unidos para compensar a escassez de milho no mercado interno. Já compras mais relevantes de DDGS dependeriam da suspensão das tarifas antidumping e antissubsídios em vigor desde 2017.
Carne
A China é um mercado importante para produtos como pés de frango, orelhas de porco e miúdos dos Estados Unidos — itens com pouca demanda no mercado americano.
As importações de carne bovina e de aves dos Estados Unidos devem aumentar após Pequim indicar que os dois países vão trabalhar para resolver pendências comerciais.
Na sexta-feira, a China concedeu extensões de registro por cinco anos a 425 unidades produtoras de carne bovina dos Estados Unidos, que haviam sido em grande parte suspensas após o vencimento das licenças no ano passado. Além disso, aprovou novos registros de cinco anos para outras 77 unidades.
Pequim introduziu, em dezembro passado, um sistema de cotas para importação de carne bovina, com tarifa de 55% para volumes acima do limite estabelecido. A medida atinge os principais fornecedores, incluindo os Estados Unidos, e tem como objetivo proteger a indústria local.
Produtos agrícolas não alimentícios
As importações chinesas também podem incluir produtos não alimentícios, como algodão e madeira. No caso do algodão, as compras caíram de US$ 1,85 bilhão (R$ 9,4 bilhões) em 2024 para US$ 225,7 milhões (R$ 1,1 bilhão) no ano passado.
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