Falha em ar-condicionado quase impediu um dos primeiros transplantes de fígado em SP
Um problema técnico no sistema de ar-condicionado do centro cirúrgico quase interrompeu um marco da medicina paulista há 25 anos: a realização de um dos primeiros transplantes de fígado do interior de São Paulo, no Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto.
A lembrança do imprevisto veio à tona durante um evento promovido pelo hospital na quinta-feira (14) para celebrar os 25 anos do programa. O encontro reuniu cerca de 100 pessoas que, ao longo das décadas, receberam uma segunda chance de vida na instituição (veja abaixo).
Naquela noite de 1º de maio de 2001, a equipe estava em alerta máximo quando a enfermaria do centro cirúrgico detectou uma falha no resfriamento da sala. Com o paciente receptor e o órgão doador prontos, a primeira orientação técnica foi suspender a cirurgia por falta de condições ideais de temperatura.
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Equipe que realizou o primeiro paciente que realizou o transplante de fígado no HCFMRP
HCFMRP
Foi neste momento que a liderança médica precisou intervir para garantir que a oportunidade de salvar uma vida não fosse perdida. O médico Orlando de Castro e Silva Júnior, coordenador do procedimento à época, relata que recebeu a notícia em casa e precisou ser incisivo para evitar o cancelamento.
“A enfermeira me liga: 'professor, o ar-condicionado pifou e nós vamos ter que suspender o transplante'. Eu falei: 'olha, minha senhora, não podemos não fazer esse transplante, porque o doador é bom, o receptor é bom e está na expectativa'. Pedi que ela desse um jeito”, relembra.
A falha mobilizou uma força-tarefa de mais de 40 profissionais do hospital. Cerca de uma hora e meia após o alerta inicial, a equipe de manutenção conseguiu restabelecer metade da capacidade de refrigeração da sala.
Diante da urgência do caso e do risco de perder o órgão doador, os médicos reavaliaram o cenário e decidiram prosseguir com a operação, mesmo com o equipamento operando de forma parcial.
“Ela ligou novamente e disse que conseguiram consertar 50% do aparelho. Eu falei: 'então vamos tocar com os 50%'. Foi um susto danado”, conta o médico.
Acervo EP
Reprodução EPTV
Cirurgia histórica
Mesmo com o sistema funcionando apenas com metade da capacidade, a cirurgia avançou e durou cerca de 20 horas. O receptor foi o representante comercial Edélcio Alves Pinto, na época com 48 anos. O órgão veio de uma mulher de 42 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).
O doutor Orlando, hoje morador de Chicago, nos Estados Unidos, reforça que o sentimento ao finalizar o trabalho foi de superação.
“Foi uma sensação de muito mais do que dever cumprido, mas a satisfação de ver um paciente que sem o transplante não sobreviveria por mais tempo e que o procedimento teve importância para devolver sua vida e qualidade de vida”, afirma.
À esquerda, o médico Orlando de Castro e Silva Júnior atualmente; à direita, o cirurgião durante os preparativos para o transplante histórico há 25 anos
Reprodução EPTV/ Acervo EP
Celebração e homenagens
Entre os homenageados no evento desta quinta-feira estava o engenheiro civil Edson Gonçalves, transplantado em 2024. O paciente recorda que, antes da cirurgia, o prognóstico médico era desanimador.
“Segundo os médicos, eu tinha pouco poucos dias de vida. Quando chegou a doação, eu estava muito ruim mesmo. Foi muito gratificante e emocionante para mim e para minha família. Viemos com aquela fé, com a garra e deu tudo certo”, conta.
Outro símbolo de longevidade presente foi a dona Dionísia, de 88 anos, a quarta paciente transplantada na história do hospital, em outubro de 2001.
Para a neta de Dionísia, a enfermeira Dandara Silveira, o caso da avó é a prova do impacto da ciência e do suporte familiar na recuperação do paciente.
"É um exemplo, porque hoje ela pode mostrar para todo mundo que é possível fazer o transplante sem perigo, sem ter medo, e que ela pode trazer muita esperança para as outras famílias que às vezes acham que não tem mais salvação", diz a enfermeira.
À esquerda, a paciente veterana Dionísia ao lado da neta, Dandara Silveira; à direita, o engenheiro Edson Gonçalves, transplantado em 2024.
Reprodução EPTV
Fila de espera
Desde aquela noite de 2001, o HC de Ribeirão Preto já realizou 712 transplantes de fígado, 13 deles apenas nos primeiros meses de 2026.





