Kouri Richins, uma mãe de três filhos de Utah que escreveu um livro infantil sobre como lidar com o luto após a morte do marido e que mais tarde foi acusada de envenená-lo.
AP/Rick Bowmer
Uma mãe que publicou um livro infantil sobre o luto após a morte súbita do marido foi condenada à prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional, após ser considerada culpada pelo assassinato dele.
Em março, um júri determinou que Kouri Richins, de Utah, nos Estados Unidos, matou o marido em 2022, envenenando-o com uma bebida misturada com fentanil, um opioide utilizado como medicação para dor.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
Vídeos em alta no g1
Richins, de 36 anos, havia acumulado milhões de dólares em dívidas, feito seguros de vida em nome do marido e mantinha um caso extraconjugal, disseram os promotores durante o julgamento que durou semanas no início deste ano.
Ao proferir a sentença na quarta-feira (13/5), dia em que Eric Richins completaria 44 anos, o juiz Richard Mrazi disse: "Uma pessoa condenada por esses atos é simplesmente perigosa demais para voltar a ser livre."
A mãe de três filhos — que não depôs durante o julgamento — falou por cerca de 30 minutos na quarta-feira, dirigindo-se principalmente aos filhos, segundo a CBS News, emissora parceira da BBC nos Estados Unidos.
"Eu sei que vocês não querem falar comigo hoje e que me odeiam. Tudo bem. Quando estiverem prontos, estarei aqui para vocês", disse ela.
A Justiça determinou que a mulher matou o marido por envenenamento
Reuters
Richins também foi considerada culpada de reivindicar benefícios de seguro de forma fraudulenta após a morte do marido em sua casa, localizada nos arredores da estação de esqui de Park City.
Durante o julgamento, a promotoria argumentou que ela acreditava erroneamente que herdaria o patrimônio do esposo, avaliado em mais de US$ 4 milhões (R$ 20 milhões), após a morte dele.
Também foi dito que ela planejava um futuro com um homem com quem tivera um caso extraconjugal.
Richins foi condenada ainda por tentativa de homicídio por um incidente anterior em que envenenou o sanduíche do marido.
Ela foi presa em março de 2023, dois meses após publicar o livro infantil Are You With Me? ("Você está comigo?", em tradução livre), que, segundo ela, foi criado para ajudar pessoas, incluindo seus três filhos, a lidar com a morte de um ente querido.
"Escrevemos este livro e realmente esperamos que ele traga algum conforto, não apenas para nossa família, mas para outras famílias que estão passando pela mesma situação", disse ela à rádio KPCW em uma entrevista antes de sua prisão.
Kouri dedicou livro ao marido, Eric
Reprodução/Facebook
Richins dedicou o livro ao marido, chamando-o de "meu marido incrível e um pai maravilhoso".
Um mês depois dessa entrevista, Richins foi presa e acusada na Justiça do Utah por homicídio qualificado e posse de uma substância controlada.
Richins sempre disse que era inocente. Quando depôs sobre a noite em que Eric morreu em 2022, ela contou que preparou um drinque com vodca que o marido bebeu. E que horas depois ele parecia não estar respirando e estava com o corpo frio.
A causa da morte foi determinada como overdose da droga fentanil. Eric tinha no corpo uma dosagem cinco vezes maior que o suficiente pra matar uma pessoa.
O envenenamento
"Ela queria deixar Eric Richins, mas não queria deixar o dinheiro dele", disse o promotor do condado de Summit, Brad Bloodworth, durante o julgamento.
De acordo com documentos judiciais, entre dezembro de 2021 e fevereiro de 2022, Richins enviou uma mensagem de texto a uma pessoa que já havia sido presa por acusações de tráfico de drogas, pedindo analgésicos vendidos apenas sob prescrição médica.
Ela recebeu pílulas de hidrocodona, mas como não atingiu o objetivo de matar o marido, pediu a um contato "o negócio do Michael Jackson", segundo a promotoria.
O cantor morreu devido a uma mistura do anestésico proponol com o remédio Lorazepam. Mas, segundo o promotor Brad Bloodworth, Richins se referia ao fentanil.
"Ela sabia que precisava de algo mais forte e aprendeu a administrar a substância."
Três dias depois de ela supostamente ter obtido as drogas, ela e o marido jantaram no Dia dos Namorados (14 de fevereiro, nos EUA), data após a qual ele adoeceu.
"Eric acreditava que havia sido envenenado", diziam os documentos do tribunal. "Eric disse a um amigo que achava que sua esposa estava tentando envenená-lo."
Duas semanas depois, Richins adquiriu mais fentanil.
Os promotores afirmaram que, em 4 de março de 2022, ela ligou para a polícia no meio da noite dizendo que havia encontrado o marido inconsciente.
Ela contou às autoridades que havia servido ao marido uma bebida com vodca na cama e depois ido dormir com um de seus filhos pequenos, que estava tendo um pesadelo. Mais tarde, ela voltou ao quarto do marido e o encontrou "frio ao toque".
Um legista constatou posteriormente que o homem havia morrido de overdose de fentanil.
O julgamento
O julgamento que levou à condenação da escritora durou cerca de três semanas, em março de 2026.
A promotoria apresentou mais de 40 testemunhas, entre elas uma faxineira que trabalhava para a família Richins e confessou ter vendido as drogas que mataram Eric para Kouri Richins em quatro ocasiões no início de 2022.
A equipe de defesa optou por não apresentar nenhuma testemunha e encerrou a apresentação de provas sem que Richins depusesse em sua própria defesa
Seus advogados também alegaram que não existem provas suficientes para condená-la, já que não foram encontradas drogas no quarto onde Eric morreu, os utensílios usados para fazer o drinque de vodca nunca foram testados e a certidão de óbito listava a causa da morte como "desconhecida".
"Após quatro anos de investigação e as cinco semanas previstas de julgamento, sabe o que você nunca vai ouvir? Como o fentanil entrou no corpo dele. Porque existe zero evidência disso", argumentou a defesa no tribunal. A sentença da escritora só foi anunciada agora em maio. Ela poderia pegar uma pena entre 25 anos e prisão perpétua, e a Justiça optou pela condenação mais dura.





