Mosquitos Aedes aegypti são mantidos em gaiolas para que pesquisadores coletem seus ovos, em um laboratório da empresa de biotecnologia Wolbito.
Nelson Almeida/AFP
Quase com carinho, o cientista Luciano Moreira segura uma caixa de vidro na qual se agitam mosquitos "antidengue": uma aposta que se mostrou eficaz contra a doença, mas que revela limites para se expandir no Brasil.
Para que ninguém descubra os segredos do método, os assessores de Moreira pedem que não fotografem o equipamento desta biofábrica em Curitiba, onde funciona o maior criadouro de "wolbitos" do mundo. É assim que este renomado entomólogo, de 59 anos, chama os Aedes aegypti inoculados com a Wolbachia, uma bactéria que os impede de desenvolver o vírus da dengue. Mas ainda restam 207 milhões de cidadãos no país, o mais afetado pela dengue em 2024, com mais de 6.000 mortes, embora no ano passado a incidência tenha sido muito menor.
100 milhões de ovos por semana
A biofábrica foi inaugurada em 2025 com o apoio da Fundação Oswaldo Cruz e a ONG World Mosquito Program (WMP).
Em sua sala de reprodução, alguns dos seus 70 funcionários enxugam o suor. O aquecimento está regulado ao gosto dos mosquitos, confinados em grandes gaiolas iluminadas de tela translúcida.
Eles se alimentam de sangue quente de cavalo e água com açúcar, que exalam um forte cheiro.
A produção semanal pode chegar a cem milhões de ovos infectados com Wolbachia, que é transmitido pelas fêmeas aos filhotes.
Embalados em cápsulas, os ovos são enviados a centros municipais, onde eclodem e depois são liberados.
Em duas cidades onde há estudos científicos sobre o método, Niterói e Campo Grande (Centro-Oeste), os resultados foram espetaculares: quedas de 89% e 63% nos casos de dengue, respectivamente.
"Antes não tinha dengue"
Mas a cura não avança mais rápido que a doença.
A mudança climática "aumenta a disseminação do vírus. No sul do país, que era bem mais frio, antes não tinha dengue" e agora há, alerta Moreira, fundador da biofábrica e hoje assessor do WMP.
Embora o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tenha reconhecido o método Wolbachia como uma medida de saúde pública, o ritmo do Estado não acompanha o da reprodução dos mosquitos.
Os ovos produzidos em Curitiba são distribuídos para outras cidades conforme as ordens das autoridades sanitárias.
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Mas a fábrica teve que reduzir a produção porque a demanda (do Ministério da Saúde) não estava tão alta, conta o cientista.
Segundo a bióloga e epidemiologista Ludimila Raupp, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio, há "urgência" em expandir o método Wolbachia para combater a dengue no Brasil. Mas ampliar a cobertura nacional "não é simples", diz ela, citando o caso do Rio de Janeiro, onde a implementação teve "graves falhas" e uma "descoordenação institucional".
De acordo com a especialista, a cidade registrou resultados modestos porque as equipes de saúde fizeram uso intensivo de larvicidas prejudiciais aos "wolbitos".
A violência do crime organizado também dificultou a implementação nas favelas cariocas, segundo Moreira.
Desafios
A expansão do método enfrenta "desafios técnicos, operacionais, logísticos e financeiros", admite à AFP o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Contudo, defende os avanços: em 2026, será implementado em 54 municípios brasileiros, totalizando 70 até o final do ano.
Moreira explica que a técnica demora alguns anos para mostrar resultados e avisa que não é uma "fórmula mágica", mas sim uma estratégia complementar a outras como a vacina.
Os "wolbitos" do cientista descendem de Aedes aegypti inoculados com Wolbachia há quase duas décadas na Austrália, onde ele fez seu pós-doutorado em entomologia.
A equipe da qual fazia parte descobriu em 2008 que esta bactéria, comum em outros insetos, bloqueia a dengue, a zika e a chikungunya.





