O brasileiro Paulo Geronimo e sua família
Arquivo pessoal via BBC
O brasileiro Paulo Geronimo espera ser um dos beneficiados pelo processo de regularização extraordinária iniciado em abril, que pretende legalizar a situação de milhares de imigrantes que já vivem na Espanha. Após sete anos em Portugal, ele se mudou para o país vizinho com a família em 2025.
"Até já tínhamos conseguido regularizar nossa situação em Portugal, mas, nos últimos anos, começamos a sentir um aumento da hostilidade contra brasileiros, com frases como 'volta para a tua terra'. Também fomos atraídos por salários mais altos. E tivemos sorte de nos mudar antes do processo de regularização — o que nos permite ser beneficiados", conta Paulo. Com anos de experiência como motorista de caminhão em Portugal, ele já conseguiu a promessa de um contrato de trabalho na Espanha e está desenvolvendo um app para conectar motoristas e empresas espanholas.
Com um discurso oficial mais positivo em relação à imigração e políticas voltadas a melhorar as condições de vida dos imigrantes, a Espanha tem seguido um caminho diferente não só dos EUA, mas também de vários países europeus — entre eles, Portugal, que hoje abriga a maior comunidade brasileira na Europa (mais de 500 mil pessoas).
Segundo o Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS), o instituto público espanhol de pesquisas de opinião, apenas 14,8% dos espanhóis apontam o tema como um dos três principais problemas do país, atrás de habitação (43,5%), situação econômica (22,5%), qualidade do emprego (18,4%) e "atuação do governo e de partidos ou políticos concretos" (15,4%).
Outra pesquisa do instituto de pesquisas 40dB, divulgada em 4 de maio, apontou que 38% dos espanhóis são a favor da regularização extraordinária e 33% são contra. No entanto, na mesma pesquisa 60% dos entrevistados de nacionalidade espanhola disseram que o número de imigrantes no país já estaria alto demais.
"O debate existe, mas não tem gerado um conflito mais generalizado. Há tensões pontuais, não um enfrentamento massivo", resume Martínez Buján.
Finotelli, da Universidade Complutense de Madrid, ressalta que, para além do discurso, a demanda por trabalhadores estrangeiros é estrutural em toda a Europa. "Mesmo a Itália — governada pela direita radical de Giorgia Meloni — tem anunciado os chamados 'decretos de fluxo' para milhares de trabalhadores estrangeiros que são regularizações encobertas," diz.
Góis, da Universidade de Coimbra, concorda: "No geral, os ciclos migratórios na Europa tendem a alternar entre maior abertura e maior restrição, mas, no longo prazo, a região precisará de mais trabalhadores para suprir necessidades estruturais da sua economia", comenta. "Ainda assim, não há dúvidas de que o caminho mais seguro para quem quer migrar são as vias legais que, ainda que mais lentas, evitam situações de vulnerabilidade, exploração e incerteza."





