Maternidade tardia: mulheres relatam desafios, preconceito e alegria após os 50
Comemorado anualmente no segundo domingo de maio, o Dia das Mães é uma data marcada por diferentes formas de viver a maternidade, sejam mães biológicas, adotivas, jovens ou mais velhas.
São os casos de Rosângela Maria da Silva, de Avanhandava (SP), e Vilma Fátima Alves Di Ramos, de Pedrinhas Paulista (SP), duas mulheres que decidiram viver a experiência da maternidade perto dos 60 anos.
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Enquanto Rosângela realizou o sonho de ser mãe por meio da adoção aos 58 anos, Vilma engravidou após passar por fertilização in vitro, aos 59.
Em entrevista ao g1, elas relatam os desafios, o preconceito enfrentado e a alegria de criar crianças em uma fase da vida considerada incomum para a maternidade.
Rosângela Maria da Silva, de Avanhandava (SP) e Fátima Alves Di Ramos, de Pedrinhas Paulista (SP), decidiram viver a maternidade perto e na casa dos 60 anos.
Arquivo pessoal
A espera de 11 anos pela adoção
Rosângela tinha 58 anos quando adotou a pequena Elza Mary, hoje com 2 anos. Ela e o marido, Alex, entraram oficialmente na fila de adoção em 2012.
O casal buscava uma criança de até 5 anos, sem preferência de sexo ou região do país. Nos primeiros anos, a expectativa era grande, mas, com o passar do tempo, a esperança começou a diminuir.
“Depois de seis anos, já não pensávamos mais nisso. Achávamos que não teríamos filhos”, relembra Rosângela.
A mudança veio em agosto de 2023, quando o casal recebeu uma ligação do fórum informando que havia uma bebê disponível para adoção. “Achei que estávamos sonhando”, conta.
Além da surpresa, o casal precisou tomar uma decisão em cerca de duas horas. Alex, então com 59 anos, lembra que a idade foi um dos fatores que mais pesaram naquele momento. “Fiquei pensando: quando ela tiver 25 anos, eu terei quase 95. Não queria causar problemas para ela no futuro”, revela.
A resposta do casal foi positiva e, dois dias depois, Elza Mary Von Buldring, nome dado em homenagem à mãe de Alex, chegou à nova casa.
Primeira foto de Rosângela com a filha Elza
Arquivo pessoal
Para Rosângela, viver o Dia das Mães ganhou um significado completamente diferente após a chegada da filha.
"Eu vivi muitos Dias das Mães nos quais no fundo eu sentia um vazio! Hoje só posso agradecer a Deus por ter preenchido esse vazio com Elzinha. O primeiro Dia das Mães com ela eu nem acreditava, era como se estivesse em um sonho", afirma.
Ela conta que a adaptação à nova rotina exigiu aprendizado e reorganização da vida do casal. “Tinha tanta coisa para pensar: cuidar daquele bebezinho, aprender tudo sobre bebês. Foi um turbilhão de sentimentos”, relembra.
Após 11 anos de espera, casal realiza o sonho da adoção com quase 60 anos
Arquivo pessoal
Apesar do apoio recebido da família e de amigos, Rosângela afirma que o casal também precisou lidar com comentários negativos nas redes sociais após a divulgação da história. “Diziam que éramos velhos e que iríamos morrer, e a criança voltaria para o abrigo. São pessoas infelizes”, lamenta.
Mesmo diante das críticas, ela resume a experiência da maternidade tardia como uma realização.
"Hoje eu só posso ter gratidão por ter esse privilégio de ser mãe. É um amor que transcende, não se explica, só sente”, afirma.
Rosângela e a filha Elza Mary
Arquivo pessoal
O desafio de engravidar na maturidade
Já a professora aposentada Vilma Fátima Alves Di Ramos viveu a maternidade pela segunda vez após engravidar por fertilização in vitro perto dos 60 anos.
Moradora de Pedrinhas Paulista, ela já era mãe de Carolina, hoje adulta, e avó de duas crianças quando decidiu tentar uma nova gravidez ao lado do marido, Constantino. A gestação aconteceu logo na primeira tentativa de fertilização.
Rebeca nasceu dias depois da mãe completar 60 anos
Santa Casa de Assis/ Divulgação
Segundo Vilma, a decisão foi recebida com surpresa e críticas por parte de pessoas próximas. Ainda assim, o casal decidiu seguir em frente com o sonho de aumentar a família.
“Quando falamos da nossa ideia, todos nos chamaram de loucos e que não tínhamos responsabilidade. Porém, nunca deixamos nos abalar. Absorvi o preconceito, fui deixando as coisas amargas de lado para que eu pudesse ter uma gravidez saudável”, afirma.
Apesar das críticas à gravidez, Vilma afirma que viveu uma gestação tranquila e acompanhada de perto pela equipe médica. “Não passou um dia em que eu não estivesse plena, curtindo aquela gravidez maravilhosa”, relembra.
“Eu só tenho que agradecer a Deus mesmo e todos que cooperaram comigo, porque também houve pessoas que ficaram apaixonadas pelo fato [de ser mãe aos 60 anos]”, acrescenta.
Hoje, a filha Rebeca tem 2 anos e 7 meses e já entende o significado do Dia das Mães, segundo Vilma.
“Ela interage sabendo que é o Dia das Mães. Cada etapa da vida da Rebeca é um motivo de emoção para mim. É viver cada dia o único, viver cada dia aquela sensação que ninguém vive. Aquele momento de você ser mãe aos 60”, afirma a professora aposentada.
VIlma com a filha Rebeca e o marido
Arquivo pessoal
A aposentada afirma que a maternidade em uma idade mais avançada trouxe mais maturidade, paciência e segurança emocional.
“É uma felicidade sem limites, não tem como mensurar. É uma alegria fora do padrão ter essa oportunidade de ser mãe novamente. É uma realização que todas as mulheres, se pudessem, deveriam sentir, porque é extraordinária a sensação de ser mãe nessa idade, por conta da sua maturidade, responsabilidade e paciência”, celebra.
Vilma com o marido, as duas filhas Carolina e bebê Rebeca, e os netos Gabriel e Sara – pedrinhas paulista
Arquivo pessoal
Cuidados na maternidade tardia
Segundo a médica obstetra Laila Kimie Yamashita, a gravidez após os 50 anos é considerada de alto risco e exige acompanhamento rigoroso.
Os principais cuidados, segundo a especialista, são voltados à avaliação clínica da saúde materna, principalmente cardiovascular, metabólica e tromboembólica.
“A gestação é considerada uma gravidez de alto risco obstétrico e exige acompanhamento multiprofissional rigoroso desde o início”, explica.
Especialista fala sobre os cuidados de gestação aos 60 anos
Arquivo pessoal
O Conselho Federal de Medicina aconselha os 50 anos como idade limite para gestação por técnicas de reprodução assistida, porém a medida é uma recomendação, e não uma norma. A idade pode ser estendida desde que a mulher esteja saudável e ciente dos riscos da gravidez tardia.
Como o organismo da mulher sofre alterações importantes durante a gravidez, como aumento do volume sanguíneo, da frequência cardíaca e da demanda metabólica, o monitoramento precisa ser intensificado.
“O pré-natal deve ser mais frequente e incluir monitorização rigorosa da pressão arterial, glicemia, função cardíaca e crescimento fetal”, aponta a profissional.
“Também é fundamental acompanhamento nutricional, controle do ganho de peso, prevenção de trombose e avaliação psicológica e social”, aponta.
Além dos cuidados médicos, Laila afirma que muitas mulheres ainda enfrentam julgamentos relacionados à maternidade tardia.
“Muitas relatam comentários preconceituosos sobre sua capacidade física, emocional e social para exercer a maternidade”, pontua.
Rebeca nasceu no dia 8 de outubro na Santa Casa de Assis
Arquivo pessoal
Apesar disso, a obstetra destaca que a medicina reprodutiva avançou significativamente nas últimas décadas e tornou possível que mais mulheres realizem o sonho da maternidade em idades mais avançadas.
“As mulheres estão engravidando cada vez mais tarde por motivos profissionais, pessoais e afetivos. A medicina reprodutiva avançou muito e tornou possível algo que há algumas décadas seria inviável”, argumenta.
“Meu conselho é que essas mulheres busquem informação de qualidade e acompanhamento ético e responsável. A decisão de engravidar deve ser consciente e baseada em avaliação médica séria, entendendo riscos, limites e possibilidades”, reforça a obstetra.





