Projeto Cicatrizes conecta mulheres por meio da fotografia e das redes sociais em relatos sobre maternidade, corpo e reconstrução.
Glenda Consuelo
Para o filho de Flor Branca, a prótese da mãe nunca foi motivo de estranhamento. Desde pequeno, ele cresceu vendo a “perna robô” antes de dormir e entendendo aquilo com naturalidade.
Aos 32 anos, a atleta paralímpica é uma das participantes do Projeto Cicatrizes, iniciativa criada em Belém para reunir mulheres que compartilham marcas físicas e emocionais ligadas à maternidade, amputações, doenças, cirurgias e luto.
“Eu tive medo. Pensei: será que vou conseguir correr atrás dele? Pegar no colo? E se eu cair com ele nos braços?”, lembra Flor ao falar sobre a maternidade depois da amputação da perna esquerda.
Criado em 2017 pela fotógrafa Glenda Consuelo, após a perda da filha prematura, o projeto já reuniu mais de 60 mulheres em ensaios fotográficos e relatos sobre autoestima, reconstrução e pertencimento.
Ainda adolescente, Flor estava na garupa de uma bicicleta quando foi atropelada por uma caçamba. Ela sofreu fraturas na bacia e teve a perna esquerda destruída. Meses depois, durante a recuperação, recebeu dos médicos uma escolha que mudaria a vida dela: amputar a perna ou correr risco de morte por causa de uma infecção no osso.
“O médico falou: ou amputa ou perde a vida. Eu escolhi viver”, conta.
Flor e o filho.
Arquivo pessoal
Vieram a cadeira de rodas, as muletas e o longo processo até conseguir usar a primeira prótese. Anos depois, foi a maternidade que deu um novo significado às marcas deixadas no corpo.
“As minhas marcas não são sobre o que eu perdi, mas sobre o que eu ganhei. Essa prótese representa todos os passos que eu decidi dar, mesmo com dor”, afirma.
Hoje, ela diz que o filho ajudou a transformar a prótese em algo natural dentro de casa.
“Pra ele, não é a perna que falta. É a perna robô. Criança não enxerga limite, enxerga amor.”
Glenda criou o projeto Cicatrizes para se fortalecer após a partida de sua bebê, que passou 20 dias na UTI Neonatal
Cilla Noronha
Corpos que contam histórias
O Projeto Cicatrizes nasceu da própria história de Glenda Consuelo. Em 2017, ela enfrentou uma apendicite durante a gravidez. Passou por quatro cirurgias, ficou oito dias na UTI e precisou usar bolsa de colostomia durante três meses. A filha dela, Valentina, nasceu prematura de seis meses e morreu 20 dias depois, na UTI neonatal.
“Eu quis esconder as cicatrizes no começo. Não conseguia olhar para elas sem lembrar de tudo o que aconteceu”, conta.
Com o tempo, Glenda passou a enxergar as marcas como parte da própria trajetória. Criou então um perfil nas redes sociais para publicar fotografias do corpo e relatos sobre maternidade, perda e reconstrução.
“Eu ressignifiquei a minha dor e queria falar dessa experiência. Encontrar mulheres que também quisessem compartilhar suas histórias”, diz.
O que começou como um relato pessoal virou uma rede de acolhimento entre mulheres que compartilham experiências sobre maternidade, amputação, cirurgias, doenças e autoestima. O projeto é mantido com recursos próprios e realiza encontros e ensaios fotográficos em Belém.
“Hoje ele se transformou numa potência transformadora gigantesca, trazendo à tona mulheres e corpos reais, que contam suas histórias e se mostram sem vergonha”, afirma Glenda.
Ela explica que os ensaios fotográficos são construídos coletivamente com cada participante. Antes das fotos, há conversas sobre limites, autoestima, roupas, cenários e a forma como cada mulher deseja ser retratada.
“Eu tenho a preocupação de escutar essa mulher, entender como ela quer ser fotografada, para que ela se sinta respeitada e acolhida naquele momento”, explica.
Para Glenda, a fotografia funciona como uma ferramenta de reconstrução da autoestima.
“A fotografia é usada no projeto como um instrumento político e poético. O objetivo é mostrar que esse corpo marcado não precisa ser escondido.”
Débora Priscila, de 24 anos, mãe de um menino de 3 anos
Arquivo pessoal
“A gente não está sozinha”
Entre as mulheres acolhidas pelo projeto está Débora Priscila, de 24 anos, mãe de um menino de 3 anos. Há cerca de dois anos, ela descobriu um megacólon, condição que provocou graves complicações intestinais e exigiu cirurgias de emergência.
Débora teve o abdômen completamente aberto e passou a usar bolsa de colostomia. A cicatriz vertical mudou a forma como ela enxergava o próprio corpo.
“No começo foi muito difícil. Eu não queria usar roupa curta, mostrar a barriga. Me sentia insegura”, lembra.
Ela conta que a maternidade tornou o processo ainda mais delicado, porque precisou lidar ao mesmo tempo com a recuperação física e os cuidados com o filho pequeno.
“Quando a gente vê outras mulheres compartilhando suas histórias, percebe que não está sozinha”, afirma.
Flor também diz que encontrou no projeto um espaço onde deixou de enxergar a amputação apenas pela perda.
“Como mãe, minhas marcas são minha maior aula pro meu filho. A gente cai, a gente levanta. E a gente se reconstrói”, diz.
O projeto se transformou em um espaço onde mulheres compartilham dores que muitas vezes são vividas em silêncio. Nos encontros, as marcas deixadas no corpo deixam de ser escondidas para virar memória, narrativa e pertencimento.
“As cicatrizes vão além do corpo. Elas ficam na alma também. Mas esses corpos contam histórias de mulheres que sobreviveram”, afirma Glenda.
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