Veja por dentro o edifício que ficou ocupado por quase 20 anos na luxuosa Rua Oscar Freire
Um dia depois da reintegração de posse que retirou 33 famílias de um prédio ocupado na esquina das ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide, nos Jardins, o cenário encontrado no imóvel foi de grande contraste em relação ao CEP, que é considerado um dos mais valiosos da capital paulista.
Entre lojas de luxo, restaurantes e apartamentos milionários, o edifício acumulava marcas de anos de abandono, disputas judiciais, ocupações e degradação estrutural.
O g1 visitou o local na tarde da quinta-feira (7) e encontrou trabalhadores atuando na limpeza do prédio enquanto pedreiros concretavam janelas e acessos para impedir o retorno dos ocupantes.
Prédio na esquina da Rua Oscar Freire com a Rua Peixoto Gomide
Gustavo Honório/g1
Paletes, fitas de isolamento e uma viatura da Guarda Civil Metropolitana (GCM) estacionada em frente à entrada principal davam um ar policialesco à cena, já bem mais calma em comparação ao dia da desocupação.
O forte cheiro de urina podia ser sentido a metros da entrada. Por dentro, a infraestrutura estava totalmente comprometida: paredes tomadas por mofo e sujeira, chão de taco despedaçado e tetos com grandes buracos em alguns apartamentos. Em determinados cômodos, havia ratos e até fezes humanas.
Prédio na esquina da Rua Oscar Freire com a Rua Peixoto Gomide
Gustavo Honório/g1
Apesar do estado de deterioração, objetos espalhados pelas unidades não deixavam esquecer que o local havia sido a casa de dezenas de famílias até a véspera.
Um dinossauro de papel, roupas jogadas pelos cantos, um quadro e um relógio pendurados na parede, uma pelúcia de boneco de neve, um varal de chão e até um DVD da banda Queen estavam entre os itens deixados para trás.
Prédio na esquina da Rua Oscar Freire com a Rua Peixoto Gomide
Gustavo Honório/g1
Um dos banheiros tinha banheira, um item considerado de luxo, mas que estava completamente fora de harmonia com o estado do prédio.
Curiosos em carros, motocicletas e até pedestres diminuíam o passo para observar a movimentação da “reforma” improvisada e imaginar qual será o futuro do imóvel depois de tantos anos.
O g1 tentou contato com a família proprietária do edifício para entender o que será feito no local, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Prédio na esquina da Rua Oscar Freire com a Rua Peixoto Gomide
Gustavo Honório/g1
'Era uma bagunça'
Quem trabalha na região acompanhou por anos a rotina da ocupação. Um professor de educação física que atua havia mais de cinco anos em uma academia ao lado do prédio viu a reintegração de posse de forma positiva.
“Era uma bagunça, dá um alívio”, disse ele, enquanto cobria o nariz com a camiseta por causa do mau cheiro.
Um vendedor ambulante que costuma trabalhar no semáforo da Oscar Freire com a Peixoto Gomide contou que presenciou diversas vezes suspeitos de furto entrando no imóvel. “Era normal os caras entrando correndo. Falaram de bicicleta de R$ 40 mil levada pra lá”, relatou.
O responsável pela limpeza do edifício contou que já foram gastos cerca de R$ 30 mil e reclamou da falta de apoio da prefeitura.
Prédio na esquina da Rua Oscar Freire com a Rua Peixoto Gomide
Gustavo Honório/g1
Reintegração ocorreu na quarta
A reintegração de posse aconteceu na manhã de quarta-feira (6) e foi realizada pela Polícia Militar com apoio do Poder Judiciário. Segundo a PM, a ação ocorreu de forma pacífica.
O Tribunal de Justiça de São Paulo havia determinado, em abril, a desocupação imediata do imóvel após laudos técnicos apontarem degradação estrutural e risco iminente de desabamento. Um parecer da Defesa Civil reforçou a necessidade urgente da retirada dos ocupantes.
Segundo a Prefeitura de São Paulo, as 33 famílias que estavam cadastradas no local já recebiam auxílio-aluguel e eram acompanhadas pela rede socioassistencial do município. O processo de reintegração tramitava na Justiça desde 2016.
Prédio na esquina da Rua Oscar Freire com a Rua Peixoto Gomide
Gustavo Honório/g1
Uma história marcada por conflitos
Os problemas envolvendo o edifício começaram ainda em 2004. Naquele ano, a Santa Alice Empreendimentos Imobiliários tentou comprar todos os apartamentos para transformar o terreno em um empreendimento de luxo, mas dois proprietários minoritários se recusaram a vender os imóveis.
Segundo relatos do processo judicial, a empresa, que detinha a maioria dos apartamentos, aprovou taxas condominiais de cerca de R$ 7 mil e, anos depois, teria incentivado uma primeira ocupação para pressionar os moradores resistentes. O prédio acabou degradado, interditado pela prefeitura e permaneceu fechado por cinco anos.
PM faz reintegração de posse em prédio ocupado por sem-teto na Rua Oscar Freire, em SP
Após a liberação do imóvel, em 2013, o edifício voltou a ser ocupado em diferentes momentos.
Em 2015, a União dos Sem Teto ocupou o prédio. Meses depois, o grupo deixou o local após uma ordem de reintegração.
No ano seguinte, cerca de 120 pessoas vindas de uma ocupação no Hospital Panamericano, em Alto de Pinheiros, passaram a morar no endereço. Eles afirmavam não fazer parte de nenhum movimento organizado de moradia.
Na época, moradores relatavam sofrer preconceito por viverem em uma ocupação em plena Oscar Freire.
“Os moradores dos Jardins têm um padrão social sofisticado, aristocrático e eles olham a gente como se fôssemos uma atração circense”, disse ao g1, em 2017, o designer Armando de Souza, um dos ocupantes do prédio.
Como forma de tentar amenizar a hostilidade da vizinhança, os moradores chegaram a colar páginas de revistas de moda nas paredes da entrada do edifício, numa espécie de “lambe-lambe” artístico. Do outro lado, comerciantes e moradores da região reclamavam do lixo, do barulho e do cheiro forte vindo do imóvel.





